DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

sábado, 5 de março de 2011

UMA IGREJA, QUATRO PARTIDOS


(1 Co 1.10-12)


A Igreja do Senhor Jesus é descrita nas páginas sagradas do Novo Testamento por meio de figuras instrutivas que acentuam a natureza e a unidade do povo de Deus. É a Igreja apresentada como "corpo" (1 Co 12.12), "edifício" (1 Co 3.9), "templo" (1 Co 3.16), e "família" (Ef 2.19). Esses, entre outros emblemas, salientam a mais completa união entre todos os crentes. O apóstolo Paulo exorta a Igreja à unidade, à concórdia e à comunhão entre os irmãos. É uma lástima e também uma pedra de tropeço ver aqui e acolá os ditos salvos e santos em guerra uns contra os outros. Será que são a continuação dos “falsos irmãos” de Gl 2.4? É oportuno ler aqui v.7; 1 Jo 1.3,6,7.

Antes de exortar a igreja de Corinto, Paulo, com sabedoria, reconheceu e destacou as bênçãos divinas sobre aquela igreja e também o que havia de bom em seus crentes: 1) Eram “santificados em Cristo” (v.2); 2) chamados “santos” (v.2); 3) alvos “da graça de Deus” (v.4); 4) enriquecidos espiritualmente na palavra e no conhecimento (v.5); eles tinham todos os dons espirituais (v.7); 6) e a certeza da volta de Cristo (v.7).

1. O partido de Paulo: “Eu sou de Paulo” (v.12). O apóstolo foi o fundador da igreja em Corinto (At 18.8-11). Esse partido era o grupo dos “fundadores”, talvez, composto principalmente por gentios. Provavelmente, este grupo era formado pelos que se converteram através da pregação de Paulo. Lembremos que Paulo era o "apóstolo dos gentios" (Rm 11.13), entretanto, ensinava os crentes gentios a amarem a todos e a respeitarem a consciência dos mais fracos (1 Co 8.10-13).

2. O partido de Apolo: “Eu sou de Apolo” (v.12). Apolo era um servo de Deus, "eloquente e poderoso nas Escrituras" (At 18.24-28), que ministrou na cidade de Corinto depois da partida de Paulo para a Síria (At 18.18; 19.1). Era natural de Alexandria, Egito, um eficaz expositor das Sagradas Escrituras, e um fluente orador (At 18.28). O "grupo de Apolo", pode ter sido formado pelos elitistas, intelectuais, filósofos e sábios da igreja de Corinto (1 Co 1.20-23; 2.1-6; 3.18,19). Quando Paulo insistiu mais tarde para que Apolo fosse a Corinto, ele não atendeu a solicitação do apóstolo, talvez com receio que sua presença estimulasse ainda mais as divisões (1 Co 16.12). O partido de Apolo certamente era o dos intelectuais e teólogos da igreja local.

3. O partido de Cefas: “Eu sou de Cefas” (v.12). Cefas era o nome de Pedro no aramaico (Jo 1.42). Não há qualquer registro de que este apóstolo tenha ido a Corinto, mas seu renome como um dos três discípulos mais chegados a Cristo (Mt 17.1; Mc 5.37; 14.33), e "apóstolo dos judeus" (Gl 2.7,8) era conhecido por todos os cristãos. O "partido de Cefas", que dera muito trabalho a Paulo, era formado por judeus legalistas. Pedro, cheio do Espírito Santo, pregou no dia de Pentecostes, ocasião em que milhares de judeus se converteram e, certamente, muitos deles vindo de Corinto. Os componentes do “partido de Cefas” se ufanavam do fato de Cristo e os apóstolos serem de linhagem judaica. O partido de Cefas era o dos tradicionalistas, que conservavam os costumes em tempos de mudança.

4. O partido de Cristo: “E eu de Cristo” (v.12). Este grupo da igreja era exclusivista. Os partidários dessa facção se consideravam os únicos defensores do verdadeiro Evangelho e da graça. Eles não se submetiam a nenhum pastor humano. Só Cristo servia. Este partido era, sem dúvida, o mais nocivo dos grupos facciosos. Não aceitava a direção de qualquer autoridade eclesiástica. Acreditava que a igreja de Corinto estava em crise e que seus líderes não mereciam qualquer crédito. O "partido de Cristo" era uma igreja emergente dentro da igreja local. Considerava-se, para usar um neologismo, "crentes desigrejados".

Todos, entretanto, cometiam grave pecado contra a unidade do Corpo de Cristo. Os liberais, do partido de Paulo, achavam que podiam exercer a liberdade em Cristo acima da lei do amor (1 Co 13), – seu pecado era a libertinagem. Os legalistas, do partido de Pedro, erravam ao unir a lei com a graça (Jo 1.17; Rm 10.4; Cl 2.14) – seu pecado era unir duas alianças distintas. Os intelectuais, do partido de Apolo, com seu racionalismo filosófico, acreditavam que a lógica e a razão eram tudo o que precisavam para entender as coisas do Espírito – seu pecado era aceitar as escolas de pensamento humano em vez da revelação do Espírito. Os exclusivistas, do partido de Cristo, por causa do seu orgulho, carnalidade e imaturidade crônica, não se submetiam a nenhuma liderança pastoral – seu pecado era a insubordinação. Tais pecados continuam hoje a estragar e corromper crentes e suas respectivas congregações: libertinagem, legalismo, exclusivismo, dependência da sabedoria e capacidade humanas.

5. Na igreja ainda hoje, há "grupinhos" que costumam dividir e fracionar o povo de Deus. Não apresentam estes a mesmíssima natureza carnal e imaturidade dos crentes coríntios? Imaginemos uma congregação cristã tendo do seu lado de fora, na sociedade, uma pecaminosidade sem limite como a de Corinto, e, do lado de dentro, na igreja, dissensões, imoralidade, desordem no culto, práticas idolátricas e até embriagues. A expressão no versículo 10, “sejam unidos em um mesmo sentido”, no original é a mesma expressão “consertando as redes” em Mt 4.21. Redes rasgadas não recolhem peixe algum, a menos que sejam consertadas. Uma igreja despedaçada por divisões internas não tem como ganhar almas para Cristo, nem desfrutar do fluir da graça de Deus e do seu poder. O crédito não é do pregador, muito menos do mestre, mas do Senhor (v.7). Nem Paulo, nem Apolo têm a proeminência, mas Cristo. "Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso" (v.21).

6. Um alerta profético (vv.12-15). O fundamento da Igreja é a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo (v.11; Mt 16.18; 1 Pe 2.6). Todavia, Paulo, "como sábio arquiteto", pôs o "fundamento", mas outro "edificou sobre ele" (v.10). De que forma pôs o fundamento? Através da pregação de Cristo, crucificado e ressurreto. No versículo 9, na imagem da lavoura, Paulo lança a semente e Apolo rega. No versículo 10, na metáfora do edifício, Paulo põe o fundamento e Apolo edifica. A semente é a mensagem da cruz (1 Co 1.28, 23; 2.1-4), o alicerce, o próprio Cristo, e a lavoura e o edifício são símbolos da Igreja. Os verbos "edificar" e "regar", por outro lado, referem-se à continuidade das operações ministeriais que conduzem a Igreja ao crescimento e maturidade espirituais.

Porém, o apóstolo alerta: "Veja cada um como edifica sobre ele" (v.10). Esta admoestação é de caráter profético: "o Dia a declarará" (v.13). Paulo refere-se ao tribunal de Cristo, que galardoará cada um "segundo o seu trabalho" (v.8). As obras edificadas sobre este inamovível fundamento são de dois tipos: perecíveis e imperecíveis. As perecíveis não resistirão ao julgamento divino representado pelo fogo: madeira, feno, palha; enquanto as imperecíveis resistirão ao juízo celestial: ouro, prata e pedras preciosas (v.12). Contudo, "se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo" (v.15).

7. O templo de Deus e a verdadeira sabedoria (vv.16-23). Anteriormente, Paulo ilustrou a igreja por intermédio das imagens do edifício e da lavoura (v.9), agora, emprega a figura do templo (vv.16,17). O Novo Testamento emprega dois termos para templo: hieros, usado para descrever todas as áreas do templo; e naos, especificamente, o santuário, a morada da divindade. Nesta passagem Paulo usa naos para designar que a Igreja é o lugar vivo da presença divina. O "templo de Deus" é a comunidade dos redimidos habitada pelo Espírito Santo (vv.16,17). Não há divisões quando Cristo governa a Igreja.

Portanto, a sabedoria deste mundo não é capaz de compreender as ministrações do Espírito Santo na Igreja, pois em vez de o homem se submeter humildemente à sabedoria divina, fica enfatuado na glória efêmera, transitória da mortalidade. Todavia, tudo pertence ao crente espiritual, pois todas as coisas se convergem em Cristo (v.22,23).

Por conseguinte, o partidarismo na igreja enfraquece e combate a unidade do Espírito pelo vínculo da paz (Ef 4.3). Cada crente é responsável por preservar a comunhão e a unidade cristãs. A vontade de Cristo é que, todos, sem exceção, cheguem à perfeição desta dádiva celeste (Jo 17.23).

quarta-feira, 2 de março de 2011

Paulo e o Evangelho entre os Gentios


“... e isto lhes agradeço, não somente eu, mas também todas
as igrejas dos gentios” (Rm 16.4)

O Senhor, nosso Deus, não faz acepção de pessoas (Dt 10.17; At 10.34; Rm 2.11; Ef 6.9). Criou tudo e todos e preserva-os pela sua gloriosa bondade e justiça (Sl 36.6; 68.19; 103.13-19; 104.9-31; At 17.25-28). Ele ama a todos indistintamente e deseja a salvação de toda humanidade (Jo 3.16; At 17.30,31; Rm 1.16; Tt 2.11), através de seu Filho, Jesus (Mt 1.21; At 4.12; Rm 3.24; 2 Co 5.18).


OS GENTIOS NO ANTIGO TESTAMENTO

1. As nações descendentes de Noé (Gn 9.18,19). Toda a raça humana descende de um casal criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27; 5.2; Mc 10.6; At 17.25,26). O homem foi criado santo, justo e bom para a glória do nome santo do Senhor (Gn 5.1; Sl 115.1; Ec 7.29; Is 43.7). Todavia, com a Queda e o crescimento da maldade no mundo (Gn 4.8,23; 6.11,12), Deus enviou o Dilúvio, salvando apenas a família do justo Noé (Gn 6 – 9; Hb 11.7; 1 Pe 3.20; 2 Pe 2.5). De seus descendentes, Jafé (Gn 10.2-5), Cam (Gn 10.6-20), e Sem (Gn 10.21-31), formaram-se as nações com suas respectivas geografias (Gn 10 – 11). Entretanto, os homens continuavam desobedecendo a Deus (Gn 11.1-9), apesar dos justos que sempre se mantiveram fiéis ao Deus verdadeiro em todas as gerações (Gn 4.26; 5.22; Gn 7.1). Do interior desse cenário pecador, Deus chama um descendente de Sem, Abraão, para que dele uma nova nação fosse formada (Gn 12.1-3).

2. A exclusividade dos descendentes de Abraão (Gn 15.5,6; Dt 14.2). Ao chamar Abraão para que de seus descendentes fosse constituído uma nova nação ou povo eleito, o Senhor começa uma nova história: A do povo de Israel (Gn 12.1-3; 13.14-17; 15.4-7,17-21). O propósito de Deus para a nação judaica (Gn 18.18; 22.18) era torná-la propriedade peculiar, reino sacerdotal e povo santo (Êx 19.5,6). Israel fora constituída uma nação peculiar e distinta dos outros povos, pois Deus a escolhera para si (Is 44.1-2; Ez 20.5). A partir de então, todas as etnias, raças, ou povos que não fossem descendentes de Abraão ou israelitas eram considerados gôyim, cujo significado básico é “nações”, “estrangeiros”, “gentios” ou “pagãos” (Gn 15.18-21). Essas nações são conhecidas pela idolatria, depravação (Lv 18.22-24), e perversidade com que tratavam os seus filhos (Lv 18.21; 20.2-5). Contudo, a nação de Israel não fora apenas eleita para ser o instrumento pelo qual o Senhor alcançaria os gentios que respondessem positivamente à salvação oferecida pelo Deus de Israel (Gn 12.3; 22.16-18; Sl 67.2-4), mas também o povo pelo qual o Eterno destruiria os gentios rebeldes (Gn 12.3; 15.16; ver Dt 7 – 8; Gl 3.8).

3. A salvação dos gentios anunciada no Antigo Testamento. Apesar de o Senhor estabelecer e amar a Israel, a nação desobedecia-o perversa e continuamente (2 Rs 21.2; 2 Cr 28.3; 36.14; Is 1.1-30; 30.9; 65.1-7; Rm 10.21). Contudo, Deus prosseguiria com seu plano santo para oferecer aos gentios a redenção (Rm 11.25-310). Já ao crente Abraão Deus prometera que os gentios que o abençoassem seriam abençoados, e nele, todas as famílias da terra seriam benditas (Gn 12.3; Gl 3.8,9,13,14; Rm 4.17). Várias passagens das Escrituras revelam o amor de Deus manifestado gratuitamente aos gentios que exerceram fé no Santo de Israel, como por exemplo, Raabe (Js 6.1-27); Rute (Rt 1– 4 ); Naamã (2 Rs 5.1-19), e os ninivitas (Jn 3.1-10). Se isso não bastasse, o Senhor prometera tornar os gentios o seu povo (Is 11.1,10; 421-5; 52.15; 65.1; compare com Mt 12.18-21; At 15.14-18; Rm 9.25-30; 10.19-21; 15.8-12, 19-21).

4. A salvação dos gentios interpretada pelo apóstolo Paulo. Em nossa mais recente obra, Igreja: Identidade e Símbolos, discutimos exaustivamente o tema da igreja entre os gentios, a interpretação de Paulo a respeito da conversão dos pagãos, e o estabelecimento de uma comunidade de redimidos entre eles. A expressão ekklēsiai tōn ethnōn, em Rm 16.4, quer dizer “igreja dos gentios”. Todavia não é impróprio traduzir a expressão por “igrejas das nações”, ou ainda “igrejas étnicas”.

No leitmov paulino ta ethnē corresponde aos gentios em diversas perícopes ( vide Rm 2.14; 9.30; 15.9-11,12,16,27; Gl 2.8,9,14; 3.8,14; Ef 2.11; 3.6; 4.17; 1 Ts 4.5; 1 Tm 4.17; ver ainda Mt 6.32; 12.21; Lc 12.30; At 10.45), aos pagãos (1 Co 12.2), ou às nações não-judaicas (Rm 16.26; cf. Mt 25.32; 28.19; Mc 13.10; Lc 21.24). Em qualquer um desses textos ta ethnē corresponde aos pagãos, aos gentios, às nações não-judaicas, e também às igrejas e cristãos gentílicos.

Especificamente, a perícope paulina de Romanos 15.9-27, apresenta o caráter escatológico da igreja dos gentios desde o Antigo Testamento. As citações do Salmo 18.49 no versículo 9, de Deuteronômio 32.43 no versículo 10, do Salmo 117.1 no versículo 11, e de Isaías 11.1 no versículo 12 (entre outros) fundamentam a realidade histórico-escatológica das igrejas dos gentios como projeto histórico-redentor de Deus na História. Com muita perspicácia, Paulo cita textos da Torá, dos Profetas e dos Escritos a fim de enfatizar, conforme J.J.Pilch, “que toda a Escritura hebraica anunciou que os pagãos se tornariam parte do plano de Deus e se juntariam ao povo escolhido”.

Na primeira referência veterotestamentária, Davi refere-se às nações gentílicas que habitavam nos limítrofes e até mesmo em Israel, conforme a citação de Tiago em Atos 15.16,17. Paulo mantém a tônica dos ensinos de Romanos 9 – 11 em que a salvação dos gentios está relacionada intrinsecamente ao paradoxo da rejeição e salvação de Israel: “Como também diz em Oseias: Chamarei meu povo, ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo, aí serão chamados filhos do Deus vivo” (Rm 9.25,26). Deus, portanto, não chamou à igreja apenas dentre os judeus, mas também dentre os gentios (Rm 9.24), e, segundo Bultmann, como “comunidade escatológica e povo de Deus dos tempos finais”.

Na segunda incursão nos textos hebraicos (v.10), Paulo traduz o hebraico gôy, “nação”, “povo”, mas principalmente “pagãos”, “gentios” por panta ta ethnē, todas as nações, conforme a LXX. Desde os primórdios da tradição patriarcal, os gôyim (plural), apesar da incredulidade e paganismo, participariam, desde que cressem, das bênçãos divinas prometidas a Abraão e a seus descendentes no futuro (Gn 12.1-3).

A ênfase e a estrutura poética de Deuteronômio 32.21 clamam por uma abordagem específica. Contudo, interessa-nos, por enquanto, o vaticínio profético da sentença. A idolatria de Israel provocara a ira do Senhor, e, por conseguinte (ação e reação), Deus provocaria o povo de Israel com “os que não são povo; com nação louca” os despertaria à ira. (ver Dt 31.17,18).

A explicação etno-soteriológica em Paulo entende que se trata insofismavelmente dos gentios. Essa interpretação é reforçada pela leitura paulina do Salmo 117. 1, no versículo 11 de Romanos 15. O plural hebraico gôyim é traduzido, como já afirmamos, por panta ta ethnē pela LXX, opção também seguida por Paulo. Portanto, escreve Paulo à igreja de Roma (1.7), “abundeis em toda esperança pela virtude do Espírito Santo” (Rm 15.13). Não há qualquer restrição à igreja dos gentios a respeito do Pneumatos Hagios. Eles devem “transbordar” (perisseuo) na esperança (elpis), na alegria (khara), na paz (eirene) pelo poder (en dynamei) do Espírito. Contudo, a igreja dos e entre os gentios trazia sua própria identidade antropocultural, muito embora conservasse os principais fundamentos da fé veterotestamentária e possuísse a virtude do Espírito (

OS GENTIOS EM O NOVO TESTAMENTO

1. Nos Evangelhos. Nos Evangelhos encontramos referências aos gentios em Mateus (6.7,32; 12.18; 18.17, etc.), Marcos (10.33) e Lucas (12.30; 18.32; 21.24; 22.25). Na maioria das vezes, os gentios são descritos com suspeição (Mt 20.19; Mc 10.33), no entanto, Mateus 12.18-21 destaca a missão profética do Messias entre os gentios (Is 42.1-4), enquanto Mateus 10.18 o testemunho dos apóstolos entre eles. Embora o objetivo da missão de Cristo e dos Doze fosse anunciar o Reino dos céus às “ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 12.6; 15.24), muito gentios, assim como no Antigo Testamento, foram alcançados pela graça de nosso Senhor Jesus, como por exemplo, a mulher cananeia (Mt 15.21-28), e o centurião (Lc 7.1-10). João afirma que Jesus veio para os judeus, mas eles o rejeitaram (Jo 1.11-13) e crucificaram-no (Jo 19.13-16). Todavia, após a ressurreição, Jesus comissionou os apóstolos para que anunciassem o evangelho a todos os gentios (Mt 28.19,20; Mc 16.15,16), e não somente aos judeus.

2. Nos Atos dos Apóstolos. A primeira menção aos gentios em Atos refere-se ao conluio entre judeus e gentios para crucificar o Messias (At 4.27). Embora Atos 1.8 estabelecesse a missão dos apóstolos entre os gentios, somente em Atos 9.15, com a conversão de Paulo, é que se declara enfaticamente a evangelização dos gentios (ver At 13.44-47). Todavia, a resistência dos apóstolos em evangelizá-los (At 10.9-16) é vencida quando Cornélio e os demais recebem o dom do Espírito Santo (At 10.44-48). O fato trouxe perturbações (At 11.1-3,18), mas após a justificativa de Pedro (At 11.4-17 ver 15.7-11), a igreja glorificou a Deus pelo arrependimento dos gentios (At 10.45; 11.18; 15.3,12). Porém, manteve-se anunciando o evangelho somente aos judeus (At 11.19), e, posteriormente, constrangendo os gentios crentes à circuncisão (At 15.1).

3. Missão e Salvação entre os Gentios. Se Pedro e o evangelho da circuncisão são proeminentes nos capítulos 1 a 12 de Atos, dos capítulos 13 ao 28 serão Paulo e o evangelho da incircuncisão (Gl 1.7). O primeiro diz respeito aos judeus, e o segundo aos gentios (At 13.44-47). Paulo estava consciente que fora chamado por Deus para anunciar o evangelho aos gentios (At 9.15; 13.47; 22.21; Rm 15.16; Ef 3.8), sem os entraves da lei (At 15.19, 28, 29; Rm 4.9-16). Diferentemente dos judeus incrédulos (At 13.46, 50; 14.2) muitos gentios converteram-se ao Senhor (At 11.1,18; 13.20-23), e se interessaram em ouvir o evangelho (At 13.42). Alguns receberam com alegria o evangelho (At 13.48), mas outros, incitados pelos judeus, resistiram (At 14.1-6; 17.13). Contudo, Deus “abrira aos gentios a porta da fé” (At 14.27), e nem mesmo os entraves do legalismo dos crentes judeus impediriam a salvação dos gentios (At 15.20-31; Rm 3.29), como profetizado desde o Antigo Testamento (Rm 16.25-27).

4. As Atividades Evangelísticas entre os Gentios. Em nossa obra Igreja: Identidade e Símbolos, comentamos que F.F.Bruce afirma que durante dez anos, de 47-57 d.C., Paulo realizou intensa atividade missionária nos territórios que margeiam o Mar Egeu. O labor paulino foi dirigido especificamente às províncias romanas da Galácia, Macedônia, Grécia, Acaia e Ásia. Contudo, uma leitura despretensiosa do livro de Atos dos Apóstolos revelará as incursões missionárias:

  • nas cidades das três províncias litorâneas do Mediterrâneo (Lícia, Panfília, Cilícia),
  • das três do litoral do Mar Egeu (Mísia, Lidia, Caria),
  • das três litorâneas ao Mar Negro (Ponto, Bitínia, Paflagônia), e,
  • nas províncias do interior (Galácia, Capadócia, Licaônia, Pisídia, Frígia).

Entre as muitas cidades que foram alvos da missão salvífica do apóstolo, destacam-se: Éfeso, Tessalônica, Corinto, Galácia, Pérgamo, Tiatira, Atenas, Filadélfia, Esmirna, Troade, Mileto, Laodiceia, Colossos, Sardes entre outras. As igrejas edificadas nessas localidades foram citadas direta e indiretamente por Paulo em vários textos de suas epístolas.


5. A Formação da Igreja entre os Gentios. Ainda em nossa obra Igreja: Identidade e Símbolos, explicamos a formação da igreja gentílica, referindo-nos ao fato de que Paulo faz várias referências à igreja gentílica como uma comunidade local ou doméstica:“igreja que está em Cencreia”; “igreja que está em sua casa”; “em cada igreja” (Rm 16.1.5; 1 Co 4.17). “Em cada igreja” é, por extensão, “toda a igreja” (Rm 16.23; 1 Co 4.17). Febe servia a Deus na comunidade cristã citadina de Cencreia, cidade portuária oriental de Corinto. Provavelmente, a igreja mencionada não se reunia em templos, mas em casa, como atesta o versículo 5 de Romanos 16, a respeito da comunidade cristã que se reunia na casa de Prisca e Áquila (1 Co 16.19).

As ekklēsiai tōn ethnōn, do versículo 4 (Rm 16), são as igrejas gentílicas da Ásia Menor que agradecem ao casal Priscila e Áquila pelo esforço sacrifical a favor de Paulo. Estas igrejas eram “comunidades paulinas”, compostas por cristãos de várias etnias que viviam na Ásia. Entre eles, o Apóstolo dos Gentios destaca o irmão Epêneto, “que é as primícias da Ásia para Cristo” (v.5). Este cristão, a quem Paulo chama de agapētón mou, “meu amado”, fora um dos primeiros convertidos ao evangelho na Ásia Menor. “As primícias da Ásia para Cristo”, refere-se à fundação das igrejas citadinas na Ásia.

JUDEUS E GENTIOS UNIDOS POR DEUS MEDIANTE A CRUZ

1. A igreja de Deus. Pedro em defesa do evangelho entre os gentios afirmou que “Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome” (At 15.14). Esse novo povo é a Igreja, formada por judeus e gentios convertidos a Cristo (Rm 9.29). De ambos os povos, judeus e gentios, Cristo fez apenas um, “derribando a parede de separação que estava no meio”, e, pela cruz, “reconciliou ambos com Deus em um corpo” (Ef 2.14-16). Assim, o Espírito Santo revela a Paulo (Ef 3.4,5), que os gentios não são mais estrangeiros (gôyim), nem forasteiros, mas concidadãos dos Santos, da família de Deus (Ef 2.11-22; 1 Pe 2.5), co-herdeiros e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho (Ef 3.6).

2. Expansão da igreja entre os gentios. Através das viagens missionárias de Paulo, o apóstolo dos gentios (Rm 11.13; Ef 3.7), o evangelho propagou-se entre os povos, raças e culturas que estavam ao alcance dele naqueles dias (Rm 15.19,20). Em várias regiões foram estabelecidas igrejas formadas principalmente por gentios (Rm 16.4). Essas comunidades de redimidos auxiliaram a igreja da Judeia, composta em sua maioria por judeus, em suas necessidades (Rm 15.25-33; 2 Co 8 – 9). O Senhor Jesus estava preservando os cristãos judeus por meio da riqueza da igreja gentílica.

3. A tarefa inacabada. A tarefa de evangelização dos gentios ainda é uma das maiores responsabilidades da igreja moderna. Quando Israel falhou em anunciar a salvação do Senhor entre as nações pagãs, Deus levantou a igreja, formada por gentios e judeus crentes em Jesus. Mas se nós, a igreja do Senhor, não anunciarmos o evangelho aos povos, quem irá? Deus o chama para ser atalaia nesse mundo perverso (Mc 16.15-18).

CONCLUSÃO

A salvação dos gentios sempre foi propósito do Senhor. Ele deseja que todos os homens sejam salvos, pois ama a todos indistintamente. Em pleno século 21, muitos ainda não ouviram falar do evangelho de Jesus. Não queres hoje ir aos gentios e anunciar-lhes a salvação em Cristo?

Se você gostou desse artigo, não se esqueça de adquirir nossa obra Igreja: Identidade e Símbolos, onde tratamos de vários outros detalhes a respeito do estabelecimento e formação da igreja entre os gentios.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

TEOLOGIA PARA LEIGOS


“Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus; antes, falamos de Cristo com sinceridade, como de Deus na presença de Deus” (1Co 2.17).

by Esdras costa bentho[1]

TEOLOGIA E TEÓLOGO

Modernamente, a Teologia é o discurso racional da revelação de Deus, dos fundamentos da fé, dos credos cristãos ou da tradição religiosa. Na acepção do vocábulo grego, o teólogo é tanto o que fala a Palavra de Deus quanto aquele a quem o Eterno fala. Confunde-se assim, com os profetas da antiguidade bíblica. Todavia, há tantas teologias que é difícil saber quando realmente Deus fala por meio de um teólogo!

CLASSIFICAÇÃO DA TEOLOGIA

A Teologia está classificada em cinco principais ramos: Exegética, Histórica, Bíblica, Sistemática e Prática. O Teólogo deve conhecer essas cinco áreas para desempenhar adequadamente suas funções docente, eclesiástica, pastoral e editorial.

A FUNÇÃO DA TEOLOGIA PARA O MUNDO

A Teologia, designada como ciência, cumpre uma função interdisciplinar em uma época de grande interesse religioso. Ela, juntamente com outras ciências como a Antropologia, a Sociologia e a Filosofia, procura responder ao homem moderno o sentido de “ser-no-mundo”, a importância e necessidade do sagrado, e os dilemas humanos nem sempre explicados adequadamente por apenas uma área do conhecimento. A Teologia enquanto ciência da religião não possui caráter dogmático, mas reflete sobre a religiosidade humana em um mundo plural e multicultural.

A FUNÇÃO DA TEOLOGIA PARA A IGREJA

A Teologia como explicação da fé e da Sagrada Escritura é um discurso acerca dos mistérios da fé e das doutrinas cristãs. A explicação da doutrina é uma narração teológica dirigida à comunidade da fé com vistas à edificação coletiva. Na igreja, a docência teológica é realizada pelo magistério local, por meio de seus obreiros, e pela cooperação de ensinadores leigos.

FALSOS ARGUMENTOS CONTRA O ESTUDO DA TEOLOGIA

Falsos argumentos têm sido usados contra o estudo da Teologia. Muito embora esses argumentos procedam de pessoas bem intencionadas e consideradas santas ou piedosas em suas igrejas não é verdade que:

1) A Teologia impede a manifestação do Espírito Santo;

2) A Teologia destrói a fé do crente;

3) A Teologia “apaga” o fervor espiritual;

4) A Teologia divide os crentes em vez de os unir;

5) A Teologia é desnecessária ao conhecimento de Deus;

6) A Teologia se opõe às Escrituras;

7) A Teologia e a experiência cristã se contradizem;

8) A Teologia “forma” pessoas que só sabem criticar.

ARGUMENTOS A FAVOR DO ESTUDO DA TEOLOGIA NA IGREJA

A Teologia é o estudo e o discurso organizado da doutrina cristã. Muito embora as doutrinas estejam contidas nas Sagradas Escrituras, elas não estão organizadas sistematicamente para o estudo e compreensão. Assim, a Teologia é necessária para:

a) Organizar sistematicamente as doutrinas das Escrituras;

b) Demonstrar a lógica, progresso e harmonia das Escrituras, sua história e ensinos.

Ao contrário do que os céticos e críticos pensam, o Cristianismo é uma religião letrada. A maioria dos cristãos leem regularmente as Escrituras e muitos já leram a Bíblia mais de uma vez. Isso sem falar nas Universidades, criadas desde a Idade Média, cujos ensinos baseavam-se na veracidade e autoridade das Escrituras. Ora, é de supor que uma religião letrada explique sua fé inteligentemente. É a Teologia que explica inteligentemente a fé e as doutrinas das Escrituras. A Teologia fortifica a fé através da razão. Isto posto, a Teologia é necessária para:

c) Os crentes explicarem os fundamentos da fé;

d) Os crentes compartilharem dos ensinos de forma lógica e metódica;

e) Os cristãos crescerem no conhecimento das Escrituras.

A Teologia é o alimento da alma do crente e um dos fundamentos da fé. A Palavra de Deus é o alimento da alma, da vida contemplativa. Assim, a Teologia fortalece a alma e a fé à medida que descortina os mistérios de Deus e das Escrituras. A Teologia procura, portanto, um equilíbrio entre emoção e razão, conhecimento e fé, vida teologal e pública. Por esta razão a Teologia é necessária à:

f) Edificação, exortação e consolação do crente;

g) Vida teologal, íntima, de comunhão com Deus através do Espírito e das Escrituras;

h) Visão ministerial.

É claro que a Teologia é importante e necessária à outras instâncias da fé e da esfera pública da religião, no entanto, para os fins a que esse texto se destina bastam as razões apresentadas.


[1] Esdras Costa Bentho é formado e Licenciado em Teologia, Pedagogo com habilitação em Educação Infantil e Fundamental, Pós-Graduando em Docência do Ensino Superior, Chefe do Setor de Bíblias da CPAD e autor dos livros: Hermenêutica Fácil e Descomplicada; A Família no Antigo Testamento; Davi: as vitórias e derrotas de um homem de Deus, e Igreja: Identidade e Símbolos, todos editados pela CPAD. Além de comentarista do Novo Currículo de Escola Dominical da CPAD, a qual ajudou a elaborar, o autor é professor de Hermenêutica Bíblica na FAECAD, RJ. Contado: esdrascb@yahoo.com.br

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