DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

domingo, 20 de janeiro de 2008

Ensaio sobre a Exegese & Exposição Bíblica

Papyrus 75

Exegese e Exposição Bíblica
Exposição bíblica é o comentário de uma perícope bíblica, seja verbal seja escrita. A essência da exposição é a explicação. Exclusivamente no contexto eclesiástico, a exposição se realiza no cenário da Teologia Prática por meio da pregação ou do ensino. Esses dois momentos indissociáveis da liturgia cristã propõem-se a expor, narrar, explicar e interpretar o texto litúrgico, utilizando-se de variegados métodos que cumpram os propósitos delineados. Geralmente esses métodos e as técnicas envolvidas na exposição bíblica dependem da perícia de quem as usam, e diferem-se entre as técnicas retóricas da pregação e as técnicas e métodos exegéticos.

Neste particular se insere a dicotomia entre o real e o ideal. A experiência tem ensinado que essas duas habilidades nem sempre estão associadas a um mesmo expositor, podendo ser ele um excelente orador sem dominar uma única regra da exegese e ser um excelente exegeta sem a sensibilidade expositiva de um pregador. Estabelecido essa premissa passemos a responder à indagação posterior: O ideal é a osmose entre essas duas habilidades e o completo domínio de ambas as técnicas pelo preletor. Por conseguinte, a exegese e a exposição bíblica, fundem-se nos meandros do exercício do ministério cristão, através da habilidade hermenêutica e exegética do mestre, da perícia homilética do pregador e da ação noutética do pastor (Cl 3.16).

A finalidade do conluio entre a exposição bíblica e a exegese é guiar-nos a uma compreensão adequada de Deus através de Cristo, a Palavra Encarnada. As interpretações dos textos vétero e neotestamentários devem ser o efeito de uma preocupação evangelística e pastoral, mais do que técnica e documental. A exegese deve ser um instrumento que conduza o homem a Deus.[1] Nesta altura podemos tirar uma ilação das características essenciais da exposição bíblica, alicerçada numa exegese responsável e acadêmica. Para cumprir o propósito dessa assertiva fortaleceremos o argumento com os textos de Rm 15.14; Cl 1.28; 3.16; Ef 4.11-16. A saber:

1. A exposição bíblica é acima de tudo, uma explicação da perícope bíblica com o fim de evangelizar, exortar, consolar e edificar o corpo místico de Cristo, a Igreja.

2. A exposição bíblica é exegeticamente fiel ao contexto e a intenção autoral.


3. A exposição bíblica de um texto litúrgico é coesa com o restante das Escrituras.

4. A exposição bíblica baseia-se na exegese crítica de um texto e rejeita as justificativas infundadas concernentes ao texto bíblico.



Dois Níveis de Exposição Bíblica: Científica e Eclesiástica
Para retomar, de outro modo, a generalidade do problema, somos desafiados pela urdidura do comentário anterior, a deslindar os limites e ênfases de duas características essenciais da Exegese Bíblica: A Científica ou Acadêmica e a Eclesiástica ou Pastoral. [2] Embora sejam categorias da mesma ciência, estão sempre em busca do enlace ou do divórcio e, é na prática ministerial que este embate titânico se manifesta.


1. Exegese Científica. Sabedores de que os termos “científico” e “eclesiástico” são polimorfos e, portanto, sujeitos a re-interpretações, julgamos necessário limitar o sentido destes vocábulos dentro do contexto empregado. Por Exegese Acadêmica entende-se a análise que incidi sobre o texto todos os recursos teóricos, lingüísticos, gramaticais e históricos subsidiados quer pela Crítica Textual, quer pela Crítica literária, ou pela Crítica Histórica ou quaisquer meios disponíveis ao saber humano numa base racional que exclui todo e qualquer saber não-racional.


2. Exegese Pastoral. No reverso da Exegese Científica temos a Exegese Pastoral. Registre-se, portanto, que, ao diferenciar essas duas formas metodológicas de exegese não se quer dizer que a exegese pastoral seja a-científica, ao contrário, ela possui suas bases metodológicas, mas sua ênfase está estritamente relacionada à vida da comunidade eclesial. Por Exegese Eclesiástica ou Pastoral entende-se a exegese que se ocupa da exposição da perícope bíblica dentro da esfera litúrgica ou catequética, visando, por exemplo, não o destrinchar dos conteúdos do quadrado semiótico [3] que compõem o texto, mas a sua exposição edificante, consoladora e noutética.


A distinção entre essas duas visões nem sempre é clara, havendo mesmo aqueles que negam a distinção entre uma e outra. Simiam-Yofre considera que a distinção entre essa bifurcação dentro da exegese seria equivalente à existente entre pesquisa pura e aplicada:

A pesquisa pura se pergunta sobre o porquê de cada coisa no interior de determinado sistema científico, dela podendo brotar ou não resultados concretos utilizáveis pela técnica. Já a pesquisa aplicada destina-se a resolver problemas concretos. A exegese pastoral se encontraria mais próxima da pesquisa aplicada que da pura, e o problema concreto a resolver seria o do crescimento e maturação da vida cristã no indivíduo e na sociedade.[4]

A exegese bíblica é apenas uma, e a distinção entre acadêmica e pastoral está intrinsecamente relacionada apenas à aplicação e a ênfase, e não necessariamente a metodologia.


O exegeta além de nutrir-se de todos os progressos da investigação lingüística, literária e hermenêutica, bebe na fonte dos gêneros literários acrescentando os saberes da retórica, da narrativa, e do estruturalismo, como ciências auxiliares ao texto bíblico. Se não bastassem esses conhecimentos, vale-se ainda das ciências humanas em suas múltiplas abordagens. Portanto, a ciência exegética está em constante construção adotando o que cada período traz de contribuição à exegese bíblica.

Nem sempre, o eclesiástico cuja atividade está limitada a ação poemênica é capaz de acompanhar os progressos metodológicos da ciência exegética, forçando ainda mais o aparecimento e fortalecimento de uma classe acadêmica cuja entonação é a sistematização desse conhecimento.


Notas
[1] Cf. BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 66.
[2] Simian-Yofre menciona em sua obra que em 1975, o exegeta católico F. Dreyfus escreveu um artigo intitulado “Exégèse en Sorbone, exégèse em Église”, onde o exegeta no afã de criticar o método histórico-crítico procurava estabelecer uma diferença entre a exegese realizada nos centros acadêmicos da exegese aplicada estritamente ao contexto da vida da igreja. Cf. SIMIAN-YOFRE, Horácio (coord.). Metodologia do Antigo Testamento. Coleção Bíblica Loyola 28. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p.13-7.
[3] Método usado pelos estruturalistas criado para estabelecer de modo preciso as isotopias semiológicas e a isotopia semiótica de um texto.
[4] Cf. SIMIAN-YOFRE, Horácio (coord.). Metodologia do Antigo Testamento. Coleção Bíblica Loyola 28. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p.15.

9 comentários:

Gutierres Siqueira, 19 anos disse...

Parabéns pastor Esdras pelo artigo. A exegese pastoral e científica é uma necessidade para os nossos púlpitos. Vemos hoje grande oradores, homens eloqüentes, mas desprovidos de uma exegese cuidadosa. Esse é um dos males atuais da igreja brasileira.

Gutierres Siqueira
www.teologiapentecostal.blogspot.com

Giselle disse...

A paz Pastor Esdras,

Que benção seu blog!
Gostaria muito de ler o comentário bíblico sobre Daniel, comparando-o com a vida de um jovem em cidades grandes. Mas não encontrei o post no seu blog. Por acaso você poderia me mandar o link?
Obrigada.
Grande abraço!

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Prezado Gutierrez muito obrigado por suas palavras motivacionais. Infelizmente, como afirmamos, às vezes falta ao exegeta o carisma do orador e ao preletor o rigor exegético do hermenêuta.
Um abraço

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene
(Graça e Paz)
Prezada irmã Gissele, o artigo, na verdade, faz parte do comentário que fizemos para a revistas de Escola Dominical da CPAD. Posso enviar o arquivo, uma vez que não disponibilizei o texto no blog.

Um abraço

Valmir Nascimento Milomem disse...

Pr. Esdras.

Um dos grandes problemas que vejo em parte do nosso pentecostalismo é a aversão que se tem à exegese e à hermenêutica bíblica, o que vale, como se percebe, é a experiência mística, como afirma Stott.

Quando alguém sobe no púlpito e tenta ensinar sobre exegese, o mesmo só não é vaiado por uma questão de ética, mas no fundo, o povo não recebe, afinal, não barulho.

Precisamos aprender exegese bíblica e disseminar o seu ensino em nossas igrejas.

Valmir

Pb Wanderley disse...

OBRIGADO PR ESDRAS,COMO SOU OBREIRO NOVO NO MINISTÉRIO, É DE MUITA VALIA ESTE ASSUNTO.UMA VEZ QUE SOU APAIXONADO PELA HERMENÊUTICA (JA TENHO SEUS DOIS LIVROS EDITADOS PELE CPAD)E TAMBEM HOMILÉTICA,COMO SOU PRESBÍTERO,ME PREOCUPO COM O ENSINO GENUÍNO DA PALAVRA,UM GRANDE ABRAÇO.MEU DESEJO E ORAÇÃO É QUE DEUS CONTINUE TE USANDO COM ESTA SABEDORIA....

Faculdade Teológica disse...

Parabens muito bom seu Post!!!!
Abs!
Faculdade Teológica

Faculdade Teológica disse...

Parabens muito bom seu Post!!!!
Abs!
Faculdade Teológica

Faculdade de Teologia disse...

Parabens muito bom seu Post!!!!Fik c paz d cristo!!!
Abs!
Faculdade Teológica

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



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