DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

PATCH ADAMS: O AMOR É CONTAGIANTE

"UMA INTERFACE COM A LIDERANÇA CRISTÃ"


Ficha Técnica

Título: Patch Adams: o amor é contagiante.

Direção: Tom Shadvac.

Roteiro: Steve Oedekerk.

Produção: Estados Unidos, 1998, 115 min.

Gênero: Comédia dramática.

Elenco: Robin Williams, Daniel London, Monica Potter, Philip Sevmour Hoffman

Idioma: Inglês.

Sinopse Crítica

“Eu te amo sem saber como, nem quando e nem onde. Te amo simplesmente, sem complicações nem orgulho”. O trecho deste poema, extraído de uma das falas de Patch Adams, sintetiza o tema central de todo o filme: amar indistinta e indiscriminadamente a todos.

O filme em epígrafe retrata a vida do médico Hunter Adams, interpretado pelo ator Robin Williams. Após uma tentativa frustrada de suicídio em 1969, Hunter Adams se interna como voluntário em uma “Casa de Orate”, como diz Machado de Assis em O Alienista.

Todavia, Adams percebe que pouco é feito para restaurar os pacientes. É assim que, por acaso, começa ajudar alguns internos, auxiliando-os em sua recuperação. A partir de então, decide abandonar o sanatório para tornar-se médico, a fim de socorrer os necessitados e sarar os doentes. Todo médico parece ter um pouco de louco, e todo louco parece ter um pouco de médico. Seria muito bom se os médicos tivessem um pouco da loucura de Adams.

Ao sair da instituição, matricula-se na faculdade de medicina para dar início ao sonho de tornar-se um médico humanista. Na faculdade, entretanto, percebe a mesma frieza relacional presente no sanatório. Os médicos, observa Adams, tratam seus pacientes como “coisas”, “números”; falta-lhes não o amor pela ciência, mas a paixão pela vida!

Neste ponto crucial do filme, cuja ênfase desenvolve todos os demais conflitos e rupturas do personagem principal, facilmente se percebe uma crítica ao racionalismo e ao cientificismo.

Estes dois postulados da modernidade abandonaram a concepção de homem enquanto sujeito composto por feixes de emoções, crenças e utopias, e abraçaram uma das perspectivas nietzscheriana e darwinista, de que somente os fortes e capazes sobrevivem. A razão e a ciência que espoliam o indivíduo de sua afetividade, esperança, amor, justiça e utopia são perigos para a própria existência humana e sustentabilidade planetária.

As críticas existencialistas de Sartre concernentes à coisificação do homem na modernidade, e as argutas constatações do marxista Eric Hobsbawm a respeito da crise da contemporaneidade, ou da sociedade pós-industrial do sociólogo Alain Touraine, atestam uma modernidade cambaleante e presa pelos tentáculos da ganância, do individualismo e da frieza relacional, que sucateia a identidade do homem e põe em risco o planeta. Resta-nos, na perspectiva da modernidade tardia, um vazio relacional e uma grande inquietação a respeito do valor da vida humana. A verossímil constatação de Adams é a objetiva verificação dos críticos da modernidade.

Adams, contudo, diante do estado de inércia dos médicos e de outros acadêmicos, resolve agir contra o sistema que isola e particulariza o sofrimento do sujeito. Movido por um grande respeito à vida, inicia uma odisséia para conceder ao paciente alguns momentos de felicidade, satisfação e realização, mesmo que seja no instante último da vida. Para isto, emprega métodos pouco ortodoxos, no qual o sorriso, ou a gargalhada, são os eficientes remediadores do sofrimento e dor.

Particularmente neste caso, o sofrimento, a desesperança e a morte abrem espaço para reflexão. Sócrates, prestes a tomar cicuta, afirmara que a ocupação do verdadeiro filósofo é o tema da morte, a thanatologia. O poeta jacobino e pastor inglês John Donne, diante do sofrimento e morte de sua esposa, questiona o homem que se isola de seu semelhante e não considera a dor de outro a sua própria (“Nenhum homem é uma ilha”, dizia). Donne afirma em seu imortal poema: “a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. Talvez Adams fosse mais cônscio de sua mortalidade do que os seus pares. Longe de considerar-se divino, como propôs incorretamente o humanista e antropólogo, Edmund Leach, Adams parecia entender que a morte de cada paciente o aproximava mais ainda de seu divórcio com a vida. Sua humanidade, talvez, procedesse desta insofismável constatação.

Apesar da invectiva e da perseguição do diretor, Adams conquista à uma os profissionais e pacientes do hospital através de seu bom-humor, humanidade e crença na pessoa humana.

Não compreendido por seus pares, que o invejam, e pelo diretor, que o persegue, apesar de ele ser o melhor aluno da turma, Adams inicia um projeto, uma espécie de “hospital solidário”, sem os entraves da burocracia e do materialismo que envolvem os tratamentos de saúde. O projeto avança até que o assassinato de sua amada por um paciente lunático faz com que Adams recue um pouco de seu projeto. A cena, até então multicolorida, é tingida de tons cinzas e outonais. A mensagem é simples: o homem é imprevisível, e, apesar do bem feito a seu favor, possui a mesma natureza do escorpião. Esta parte lembra muito bem, o grito nostálgico de São Paulo quando afirmou aos cristãos de Roma: “Quem me livrará do corpo desta morte?”, dizia a respeito de sua natureza má que é mais forte do que sua vontade. O grito agonizante do santo apóstolo encontra sua resposta em Cristo.

O filme termina com Adams se formando com louvor e brincadeiras. Fica para o telespectador a inspiração para ousar, fazer a diferença, envolver-se em projetos sociais e cuidar de seu semelhante. Afinal, somos todos de um mesmo continente, como afirmara John Donne.


Aspectos relativos à liderança

Assim como Patch Adams, o pastor deve:

  • Estar cônscio de seu lugar e papel no mundo;

  • Investir em sua própria formação acadêmica e crescimento pessoal;

  • Ter um projeto e planejar sua partida, percurso e chegada;

  • Ser movido por sentimentos altruístas, humanitários e solidários que valorizem a pessoa humana e construa uma identidade positiva do sujeito;

  • Despertar e mobilizar as pessoas para a mudança e, junto, fazer o percurso;

  • Resgatar o direito e a cidadania das pessoas em seu entorno;

  • Ser agente de mudança e transformação;

  • Enfrentar os reveses, invejas e calúnias como necessários para testar nossa missão, visão, objetivos e comprometimento com nossos projetos.

  • Ser mediador de uma visão fraterna, mas terminantemente crítica.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Davi na Corte Real - Vivendo com Sabedoria

Este texto é uma pequena parte do livro: "Davi: as vitórias e derrotas de um homem de Deus", editado pela CPAD. Se você gostar desta síntese, adquira a obra e leia o texto na íntegra.

Introdução

Admitimos como hipótese de trabalho, que a sabedoria e prudência atribuídas a Davi fazem parte de um contexto vivencial (Sitz im Leben) mais amplo do que uma leitura superficial da Bíblia sugere.
Antes de o rei Davi tornar-se o homem mais poderoso de Israel, foi um homem comum, do povo. Viveu as máximas populares extraídas do cotidiano. Seus cânticos e orações eram extratos da realidade de sua gente, de seu povo.
Jó, os Salmos, os Provérbios e Eclesiastes são obras cujo eixo central é o coração humano. Essas obras tratam da experiência religiosa e social do povo hebreu. São literaturas enraizadas nas tradições, vivências e cotidianidade populares. E, de acordo com o biblicista Hermann Gunkel, “a literatura é uma parte da vida do povo e precisa ser compreendida a partir desta vida”[1].
Nesta mesma tradição segue o teólogo Carlos Mesters quando afirma que “na origem da Sabedoria está o povo, refletindo sobre a vida e procurando uma resposta para as perguntas: Como viver? Como fazer para sair-se bem na vida?”[2].

Lembremos que o rei Davi conhecia profundamente a sabedoria popular, as máximas entre seus soldados, e a sabedoria de seus conselheiros, conforme o Sitz im Volksleben (situação na vida do povo), para usar a expressão do próprio Gunkel. A validade dessa metodologia pode ser confirmada nas palavras do biblicista Rolf Rendtorff que atesta: “a dedução do Sitz im Leben permite reconhecer uma forma, descrever sua função e extrair disso critérios para a interpretação do texto”.
[3] Existe em cada texto um contexto histórico-social que alimenta a verve literária do hagiógrafo.


Estrutura da Sociedade Hebréia

No Antigo Testamento, a relação do sujeito dentro de seu grupo social correspondia à estrutura social que o cercava. Em nosso livro A família no Antigo Testamento: história e sociologia, explicamos com detalhes o funcionamento desses círculos comunitários.
a) O primeiro deles, bayît ’āb, representava o núcleo familiar básico, ou as pessoas de uma mesma casa (Gn 24.38,40; 28.21; 41.51; 46.31).
b) O segundo, formado pelo clã ou mishpāhâ, é a unidade familiar mais ampla liderada pelos mais velhos ou “anciãos”. Os anciãos, do hebraico zāqēn, faziam parte de uma categoria social entre os hebreus, conhecidos pelos sábios conselhos, prudência, vivência e capacidade para julgar situações embaraçosas (Êx 3.16,18; 12.21; 17.6; 19.7; Nm 11.24).
c) E por último, a tribo, do hebraico matteh, correspondia ao conjunto de clãs (1 Sm 18.18).
Durkheim classifica esse modelo social como solidariedade mecânica. Nesta, os indivíduos possuem sua identidade por meio da família, da religião, da tradição e dos costumes da tribo. Todos reconhecem e vivem os mesmos valores de acordo com a tradição ancestral, do qual a coletividade procede. Uma “família-tronco” perpetua-se em torno do chefe de família pela instituição de um “herdeiro associado”. Os indivíduos nesse modelo social vivem sob a coerção dos fatos sociais, ou das normas coletivas que obrigam o sujeito a agir conforme o costume e tradição local.[4]

A personalidade, o caráter, a sabedoria e os valores vividos por Davi, por exemplo, têm como fundamento sua formação na “casa de seu pai” ou bayît ’āb, e, conforme afirma Carlos Mesters, “o ambiente de origem da sabedoria é a educação familiar: os pais a fazerem com que os filhos abram os olhos para a realidade e vejam, de modo objetivo, as coisas da vida”
[5].
Em 1 Samuel 16, observamos nitidamente os elementos acima descritos. Deus ordena que Samuel proceda com a unção de um dos filhos de Jessé, o belemita, para o reino de Israel (v.1). Jessé é o chefe da casa (ver 1 Sm 18.2, 18; 22.1), enquanto Israel é a totalidade das famílias que formam a nação emergente (ver 1 Cr 16.28). Ao chegar a Belém, os anciãos dirigem-se ao profeta para o saudarem e inteirarem-se dos motivos da visita (v.4). Os fatos sociais estão presentes em todo tempo: o culto, o sacrifício, a ordem de apresentação dos filhos de Jessé, o modo como Samuel julga pela aparência, etc. Esses elementos constituem-se o Sitz im Leben que fundamentam nossa interpretação.

Os Sábios e o Gênero Sapiencial na Antiguidade

O estudo da sabedoria nas Escrituras Hebraicas não deve limitar-se apenas aos israelitas, mas incluir a sabedoria dos povos vizinhos que interagiam com o povo judeu. Os grandes impérios da antiguidade possuíam sua classe de sábios ligados tanto a religião quanto ao governo (Dn 1.20).
Os egípcios, babilônicos, assírios, fenícios, edomitas e muitos reinos do Oriente ufanavam-se de sua sabedoria e de seus sábios (Gn 41.8; Is 19.11,12; 47.10; Jr 49.7; 50.35; Ez 27.9; 28.3-6; Dn 2.48; 4.6; Ob 8; At 7.22).
Israel também possuía uma classe de sábios que, dado a sua importância, era citada juntamente com os profetas e sacerdotes (Jr 18.18; Is 29.14). Essa classe desenvolvia aforismos (Nm 21.27; Sl 105.22; Pv 24.23; Ec 12.9) e literatura de sabedoria prática, além de aconselhar os nobres (2 Sm 15.12; 16.20; 2 Cr 22.4; Ed 7.15; Pv 15.22; 24.6; Is 1.26, etc.). Na estrutura social hebraica os anciãos, zāqēn , eram os sábios conselheiros (Êx 3.16,18; 12.21; 17.6; 19.7; Nm 11.24; Sl 105.22). Esta composição social de sábios também era comum entre os moabitas e midianitas (Nm 22.7).[6]

Fohrer afirma que “a doutrina sapiencial tinha sua origem principalmente no Egito, onde era acima de tudo a moral de classe e a norma da vida dos funcionários do faraó”
[7] (ver Is 5.21; 19.11,12). A ética, a moral e a sabedoria prática proviam das classes que dominavam o saber da época. Nesses reinos havia uma linha muito tênue entre a sabedoria, a ciência, e a matemática com a astrologia, a feitiçaria e adivinhações (ver Gn 41.8; Êx 7.11; Is 44.25).

A Sabedoria no Antigo Testamento

Como anteriormente expendido, o tema da sabedoria no Antigo Testamento é vasto e profundo. Entre os vários vocábulos usados para descrevê-la, provavelmente, chokmâ, traduzido literalmente por “sabedoria”, seja o mais significativo. O termo procede de chākam, “ser sábio” ou “agir sabiamente”.

Sabedoria, como habilidade técnica. O primeiro emprego do termo chokmâ no Antigo Testamento refere-se à sabedoria como habilidade, capacidade e técnicas especiais para a realização de alguma coisa. Em Êxodo 28.2,3, pessoas “sábias de coração” (ARC), quer dizer “hábeis” em sua arte e ofício; capaz de confeccionar as vestes sacerdotais, conforme a recomendação divina. Esses profissionais foram cheios do “espírito de sabedoria”, isto é, de habilidade, capacidade estética e técnica para confeccionarem as vestes sacerdotais. No capítulo 31 de Êxodo, esses operários são identificados, trata-se dos artífices do Tabernáculo, Bezalel e Aoliabe (vv.6-11; 35.30-35; cf. 1 Rs 7.14).

Sabedoria como execução de governança e estratégias militares. Essa sabedoria é um desdobramento da anterior, uma vez que enfatiza a capacidade e habilidade na execução de governança e estratégias militares. Por duas vezes essa sabedoria é descrita em sentido negativo (Is 10.13; Ez 28.3-7). Todavia, encontramos vários textos positivos, como por exemplo, Gênesis 41.33-40 (chākām); Deuteronômio 34.9 e Isaías 11.1-5. No texto de Deuteronômio 34.9, a tarefa de conduzir o povo passara de Moisés para Josué. Este líder recebeu o “espírito de sabedoria”, isto é, a capacidade de governar e conduzir o povo de Israel. A sabedoria era estritamente necessária aos reis, líderes e encarregados dos assuntos pertinentes à governança, diplomacia, política e assuntos sociais.

Sabedoria, o agir com prudência e entendimento: A sapiência vétero-oriental atribuía singular importância à experiência cotidiana. As máximas ou provérbios, do hebraico māshāl, eram ditos sapienciais breves extraídos do Sitz im Volksleben (situação na vida do povo), e expressos através dos sábios [mestres] por meio de alegorias, enigmas, aforismos, parábolas, metáforas, ditos satíricos, motejos e, até mesmo, em forma de discursos.
[8]
O background que dava azo às máximas de sabedoria era o cotidiano da família, da tribo, e da comunidade local ou cidade. É claro que nem todas as experiências individuais e coletivas tornaram-se ditos breves de sabedoria, mas não se pode negar que a lista de provérbios dispostas em toda a Escritura Hebraica seja extraída pelos sábios ou mestres de Israel da cotidianidade campestre, citadina e palaciana (1 Sm 10.12; 19.24; Sl 32.9; 49.20; Pv 24.30).

Já o substantivo “prudência” traduz alguns termos hebraicos, entre eles:

a) ta‘am: significa “gosto”, “sabor”. O conceito procede da capacidade de distinguir os sabores por meio do sentido gustativo. O vocábulo é traduzido em Êxodo 16.31 por “sabor”, no episódio do maná, cujo “ta‘am, [era] como bolos de mel”. Daí passou à literatura com o significado de “discernir”, “julgar”, “ser capaz de julgar e discernir”. É com esse significado que é usado em 1 Samuel 25.33, traduzido por “prudência” (RA) ou “conselho” (ARC), no episódio que narra a sabedoria de Abigail.

b) śākal: emprega-se em 1 Samuel 18.5, com o sentido de “agir sabiamente”, “ter sucesso” ou “agir com prudência”: “E saía Davi aonde quer que Saul o enviava e conduzia-se com prudência”. De acordo com Louis Goldberg, śākal “designa o processo de pensar como uma disposição complexa de pensamentos que resultam numa abordagem sábia e bastante prática do bom senso”.
[9]
O vocábulo é usado mais uma vez em 1 Samuel 18.14: “E Davi se conduzia com prudência em todos os seus caminhos”. A RA traduz por “lograva bom êxito”, uma vez que acentua o resultado no lugar da causa. O “bom êxito” de Davi resultava de sua prudência ou sabedoria, não apenas diante dos homens, mas principalmente perante o Senhor, razão pela qual o “Senhor era com ele” (cf. vv.15,28).
Notas Bibliográficas (No texto original há 33 referências bibliográficas)

[1] Apud RENDTORFF, Rolf. Antigo Testamento: uma introdução. São Paulo: Academia Cristã, 2009, 123.
[2] MESTERS, Carlos. Deus, onde estás? Uma introdução prática a Bíblia. 9.ed., Rio de Janeiro: Vozes, 1991, p.113.
[3] Id.Ibid.,p.125.
[4] DURKHEIM,E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2001, pp. 92,93. Ver BENTHO, Esdras C. A família no Antigo Testamento: história e sociologia. 3.ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
[5] MESTERS, Carlos. Deus, onde estás? Uma introdução prática a Bíblia. 9.ed., Rio de Janeiro: Vozes, 1991, p.114.
[6] BENTHO, Esdras Costa. A família no Antigo Testamento: história e sociologia. 3.ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2007, pp. 30-3.
[7] FOHRER, Georg. Estruturas teológicas fundamentais do Antigo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1982, p.126.
[8] Quanto à classificação dos provérbios (históricos, metafóricos, parabólicos, didáticos, enigmáticos entre outros) veja BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada. 10. ed., Rio de Janeiro: CPAD, 2009, pp.289-92.
[9] Goldberg, Louis. Verbete: śākal. In: HARRIS, R. L. (et al) Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1478.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Davi e sua Vocação


Introdução
O nome Davi, do hebraico dāwid (דּוד), literalmente, “amado”, está associado à adoração, ao louvor, ao culto, ao canto, à poesia, à liturgia e à oração. No livro de Neemias (12.36) há duas peculiaridades a respeito de nosso personagem que desejo usar como eixo norteador de nossa análise.

A primeira é o fato de o hagiógrafo associar o nome do rei aos instrumentos musicais, “instrumentos músicos de Davi” – expressão que no contexto remoto refere-se tanto aos instrumentos criados por Davi para adorar a Javé (1 Cr 23.5; 2 Cr 29.26) quanto ao mandado e os salmos de Davi referentes à adoração (2 Cr 29.25-30).

A segunda descreve o rei como dāwid ’îsh hā ’Ĕlōîm (דּויד אישׁ האלהים), “Davi, homem de Deus”, expressão que no profetismo israelita identifica o sujeito como profeta, enviado especial de Deus ou alguém que está na presença do Senhor (Dt 33.1; Jz 13.6; 1 Sm 12.27; 2 Rs 1.10ss.). Estas duas características de Davi, músico e homem de Deus, resumem adequadamente o biografado, bem como a singular vocação do jovem Davi.

Uma graciosa lição que aprendemos do texto de Neemias e da vida de Davi é que a vocação divina para o ministério cristão, às vezes, envolve mais de uma ocupação, algumas associadas à principal. Davi foi ungido rei, no entanto, a unção real deu-lhe muitas outras competências e habilidades para a poesia, música, engenharia, guerra, etc., tornando-o um líder completo.

As relações sociais de Davi


Davi não era o primogênito, mas o caçula, o oitavo filho de Jessé. Se tomarmos como base que o rei Davi ascendeu ao trono de Judá em 1011 a.C., com cerca de trinta anos (2 Sm 5.4), e, que provavelmente nascera em 1041 a. C., pouco tempo depois de Saul sagrar-se rei, concluímos que Davi não possuía mais de 13 anos quando foi consagrado rei de Israel. Logo, a vocação ministerial não se limita à condição social e à idade do escolhido. É o Senhor quem escolhe. Ele é soberano em suas escolhas!

Todavia, a menoridade de Davi ante seus irmãos colocava-o como o último na hierarquia familiar e tribal (1 Sm 16.5,11-13). O termo “menor” (ARC), ou o “mais moço” (RA), do hebraico qātōn (קטן), significa “ser pequeno”, mas também “ser insignificante”, ou “ser jovem insignificante”.
Essa condição independia do jovem Davi. Ele era o menor dentre seus irmãos, não apenas na hierarquia familiar, mas também nos direitos sociais e tribais que pertenciam primeiramente ao primogênito. O fato de o Senhor escolher a Davi dentre os seus irmãos, significa que Deus, embora respeite, pouco se preocupa com as condições sociais do escolhido. É o Senhor quem habilita e capacitada o eleito independente da classe social do sujeito. Deus não vê como o homem!

O Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamente afirma que a raiz qtin “denota pequenez de quantidade ou qualidade”. Davi era o mais moço (1 Sm 17.14, 33) e, segundo a tradição do núcleo familiar (bayît ’āb), seus irmãos tinham a proeminência (veja 1 Sm 17.28, 29). Esta é a principal razão pela qual eles são chamados ao sacrifício e à mesa enquanto Davi permanece no pastorício (v.11; 17.15). Deus, porém, honrou a Davi diante de seu pai e de todos os seus irmãos (vv.12,13; 17.12,13). Se você é um servo ou serva de Deus, chamado ou escolhido pelo Senhor, saiba que suas condições sociais não são entraves para a realização da obra de Deus.

Na magnífica história contada por Max Lucado, Hermie é uma lagarta comum que sempre está a se queixar de sua vulgaridade: não era colorido como as borboletas, não era forte como uma formiga, não possuía uma casa como um caracol, não era belo como uma joaninha. Hermie era tão comum que até mesmo entre os da sua espécie ele era o mais sem graça. Algumas lagartas tinham pintas, mas Hermie não; algumas lagartas possuíam listras, mas Hermie não. Diuturnamente Hermie reclamava em suas orações dizendo: “Deus, por que o Senhor me fez tão comum?” Um dia Deus respondeu as orações de Hermie dizendo: “Não se preocupe Hermie. Eu amo você. E eu ainda não terminei o trabalho em você!”

Assim como Hermie, muitos vocacionados acham-se uma pessoa comum, no entanto, Deus ainda não concluiu a obra na vida do escolhido. Da chamada de Davi até sua ascensão, o jovem passou por muitas vicissitudes. Do poço até o trono do Egito, José sofreu muitas agruras. No final, enquanto dormia, Deus fez uma grande transformação na vida de Hermie. A pequena lagarta transformou-se numa bela e voante borboleta. Deus ergueu Hermie do chão, deu-lhe asas para voar e alçar os mais belos jardins.

A unção de Davi
O versículo 11 de 1 Samuel 16 é o clímax dos versículos antecedentes: Davi é ungido “no meio dos seus irmãos”. Esta perícope também marca uma nova fase na vida de Davi: “desde aquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apoderou de Davi”.
Esta santa e magnífica unção é realizada após uma cerimônia ritual para escolher o ungido. À uma, os irmãos de Davi, a partir do primogênito, foram rejeitados. Eles eram belos, fortes, guerreiros, mas por alguma razão não agradavam a Deus. Naquele instante, Samuel manda buscar o garoto Davi; apenas treze anos, com um cajado e uma harpa nas mãos e os altos louvores no coração. Davi trazia o cheiro das ovelhas e a pele crestada pelo sol palestinense. Foi ali, na presença de todos que o garoto comum tornou-se o ungido, mas a obra do Senhor ainda não estava completa em Davi. A unção de Davi outorga-lhe a presença do RUACH YHWH. O menino transforma-se no ungido do Senhor e futuro rei teocrático de todo o Israel. É assim quando Deus nos tira de nosso lugar comum!

O versículo 12 apresenta um movimento oposto na vida do rei Saul: “E o Espírito do Senhor se retirou de Saul”, o que corresponde à loucura, à imprudência e ao devaneio (1 Sm 18.10-12). De acordo com o hagiógrafo, o sucesso de Davi doravante é conseqüente à presença do Espírito Santo nele (Is 11.2), enquanto a loucura de Saul resulta da falta da presença do Espírito de Deus.
Recordemos que em Gênesis 41.8, a o sucesso de José equivale à presença do Espírito de Deus; o mesmo também se diz do Messias e seu reinado e ministério gloriosos (Is 11.2 ver Sl 45; 110; Is 9.1-7; 61.1-11). A força de Sansão também é atribuída à presença do Espírito de Deus (Jz 14.19; 15.14), assim como a fraqueza do juiz resulta da ausência do Espírito de Deus (Jz 16.20).
Ser ungido, portanto, significa ser o escolhido de Deus. Todo vocacionado é ungido por Deus para realizar os propósitos e desígnios divinos no mundo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Texto Inconcluso de Uma Reflexão Inacabada

"Criança geopolítica observando o nascimento do homem novo" - S. Dali, 1943.


"Em sua estrutura concreta, o homem é, antes de mais nada, um ser-no-mundo que, contudo, transcende o mundo não somente no plano horizontal mas também em uma trans-ascendência – uma abertura para Deus”.

Com esta sentença, o eminente teólogo holandês, Edward Schillebeeckx, procurou resgatar, diante da ameaça do secularismo e do existencialismo, a dimensão religiosa do homem de seu tempo, pois como afirmava: “há um aspecto sacramental na religião cristã que não pode ser cancelado”.

As teorias filosóficas, psicológicas, sociológicas ou antropológicas, entre muitas outras correntes do pensamento humano, de fato, à parte das Sagradas Escrituras, não são capazes de responder as mais profundas indagações existenciais do homem moderno. Muito menos, ignorando a doutrina bíblica do pecado e da salvação, lograr êxito nos projetos sociais, econômicos, políticos, educacionais e jurídicos.

O problema não se circunscreve à exterioridade: falta de moradias, de educação, de trabalho, de cultura, mas à interioridade, ao distanciamento do homem de seu Criador. Longe do Criador restaram ao homem apenas o vazio e a espera. O vazio em razão de perder o sentido da vida autêntica dada por Cristo, e a espera, porque vive na expectativa de amuletos tecnológicos e religiosos que preencham o vazio existencial. Aqui, surge uma nova seita a cada dia, ali, pululam movimentos messiânicos, acolá, se infestam de pseudoprofetas, mas o vazio é latente e premente!

O homem, para ser verdadeiramente curado das mazelas que o afligem, necessita ser curado definitivamente da doença ignorada pela ciência, não reconhecida pela psicologia e desprezada pela educação, o pecado. Os homens continuam buscando soluções na educação, na ciência, na tecnologia, na psicologia, na cultura, no direito, na filosofia, e, alguns, na religião para as principais doenças que flagelam nosso século: ansiedade, medo, depressão, consumismo, ambição, angústia, culto ao corpo, drogas, inversão de valores e mundanismo.

Embora não possamos discordar do valor intrínseco de algumas dessas escolhas, se comparadas ao que Cristo realiza espiritual, psíquica, e moralmente no homem, elas são apenas muletas. Cristo é a única solução, segura e definitiva, para este século enfermiço!

As doenças de nosso século e o mundanismo. O vocábulo mundanisno procede do latim mundu que por sua vez reflete o sentido de kosmos no grego. Este último, como afirmamos na obra Hermenêutica Fácil e Descomplicada (p.155-9), aparece com diversas acepções no texto neotestamentário e somente o contexto imediato delimita o significado específico. O termo kosmos, em sentido elástico, designa “ordem”, “beleza” “mundo”, “humanidade”, “terra habitada”. O kosmos é governado por leis uniformes, universais e inflexíveis. Deste conceito, extrai-se o sentido de “sistema” oposto ao caos (kháos), isto é, a desordem e flexibilidade. Mas o uso regular nas Escrituras cristãs em João 7.7; 15.18; 15.19; 1 Coríntios 2.12; Efésios 2.2; Filipenses 2.15; Tiago 4.4 e 1 João 2.15-18, designam um sistema organizado e rebelado contra Deus. Este sistema, mundo-ordem injusta é o mundo-humanidade alienado de Deus pela rejeição às leis do Reino e do Messias Encarnado (Jo 8.7; 17.25). Nos escritos joaninos, o mundo-ordem injusta, possui seus próprios valores, sistemas e governo (Jo 8.44; 12.31; 14. 30; 16.11).

Ao considerarmos as possíveis definições da palavra mundanismo, julgo necessário considerar uma outra acepção do termo com base em duas outras perícopes bíblicas: Marcos 4.19 e 2 Timóteo 4.10.

Na parábola do Semeador, a semente que cai entre os espinhos representa aqueles que foram seduzidos pelos “cuidados deste mundo” (Mc 4.19). A expressão hai merimnai tou aiōnos, traduzido por “os cuidados deste mundo”, literalmente significa “as preocupações do século”.

Na segunda epístola de Paulo a Timóteo, o apóstolo se queixa de que Demas, “tendo amado o presente século”, o abandonou (4.10). De acordo com as duas últimas referências podemos definir mundanismo como amor e ocupação exacerbados com tudo aquilo que é terreno ou material. Esta definição não é muito distinta da oferecida pelo dicionário Aurélio que explica o termo nos seguintes tons: hábito ou sistema daqueles que só procuram gozos materiais.

Todavia, o sentido pretendido pelas Escrituras avança ao proposto pelas duas definições anteriores, corroborando com o conceito joanino de “sistema organizado e rebelado contra Deus”. Satanás, o “príncipe deste mundo” (Jo 12.31; 1 Jo 5.19), dissemina seus valores mundanos e maléficos através das falsas filosofias, das heresias e da nova moralidade. Para lograr êxito em seus propósitos utiliza a cultura, a indústria de entretenimento, os governos, as músicas, entre outros.

A presente geração está presa ao relativismo, ao materialismo e às doenças emocionais, espirituais e morais – crises de nossa contemporaneidade assistida pelo mundanismo que as geram. A crise é tão profunda que as pessoas desconfiam das instituições e das autoridades públicas, privadas e religiosas. Tateiam de um lado a outro à procura de um porto ou de águas tranqüilas para aportar, mas encontram apenas o individualismo, a ganância, a violência, o descaso e a opressão. Em quem confiar? Em que porto deve ancorar as esperanças do homem? Na filosofia? Quantas existem e mesmo assim não se sabe em qual delas acreditar. No desenvolvimento tecnológico? Guerras, destruição em massa e do meio-ambiente são facilitados pelo mau uso dela. Nos homens? Estes perderam os rumos da ética, misericórdia, bondade e respeito pelo outro. Na ciência? Parece que ela serve mais aos propósitos das grandes corporações do que ao interesse do grande público. No misticismo religioso? Este tornou-se irracional, incapaz de sustentar a razão e a fé nos pêndulos de suas doutrinas. A constatação simples e incontestável é: O homem sem Deus vive sem esperança ou em esperança vã (Jó 8.13; 11.20; 27.8; Ef 2.12; 1 Ts 4.13). A única esperança para esta geração enfermiça é o nosso Senhor Jesus Cristo, Deus Único e Salvador Todo-Poderoso (1 Tm 1.1).

O mundanismo na pós-modernidade diferencia-se da forma violenta como os cristãos do período greco-romano foram perseguidos ou da inquisição atroz. As estratégias estão mais sutis, difíceis de serem detectadas e não pretendem aniquilar o Cristianismo, mas impedir o seu avanço, atenuar a sua mensagem, e enfraquecer a identidade cristã. A mentira está disfarçada de verdade; a verdade está sob suspeita. Os valores morais e bíblicos perdem espaço para a moralidade hedonista e egocêntrica. Não se trata de mera ação humana, mas de nova roupagem para velhos pecados sob a batuta da antiga serpente.

A cultura e a Queda.

  • A cultura é a soma dos valores morais, das crenças, dos costumes e dos padrões éticos e de comportamentos transmitidos coletivamente por uma sociedade. Ela compõe a visão de mundo de um povo, de uma época, e de uma sociedade organizada. Naturalmente, a cultura e a visão de mundo de uma sociedade não cristã, presa aos tentáculos do mundanismo, são opostas aos valores ensinados pela Palavra de Deus. Por isso, o cristão deve discernir, julgar, avaliar e confrontar os valores ensinados pela sociedade de nosso tempo com os ensinos da Bíblia Sagrada. Tudo o que for contrário aos ensinos da Sagrada Escritura deve ser rejeitado e rechaçado pela Igreja. Charles Colson afirmou que "o nosso chamado não é só para ordenarmos a nossa própria vida por princípios divinos, mas também para exortamos o mundo" (O cristão na cultura de hoje, CPAD, p.10). A Igreja deve convocar a sociedade ao arrependimento e exortá-la a deixar a cultura e os valores mundanos.

O homem é um ser que produz cultura. Antes da Queda, a cultura produzida pelo homem era subordinada aos princípios morais e sociais estabelecidos pelo caráter, natureza e palavra do próprio Deus. A cultura antes da Queda refletia a grandeza da imagem moral de Deus no homem (Gn 1.27-31; 2.15,16, 18-24). Após a Queda, não apenas a criação foi afetada pelo pecado, mas também a natureza ética e moral do homem. Consequentemente, toda a cultura desenvolvida pelo homem pecador estava condicionada à desobediência e rebelião contra a moral e natureza de Deus (Gn 3.17-19,21,23; 4.7,19,23). Em um curtíssimo período, a moral e os valores se degeneraram e a cultura produzida pelo homem refletia a sua própria natureza pecaminosa (Gn 6.1-7; Rm 1.18-32; 3.23). Uma sociedade dominada pelo Maligno, produz, naturalmente, aquilo que está relacionado à natureza vil do Diabo (Jo 12.31; 1 Jo 5.19).

O mundo está passando profundas transformações religiosas. O cristão, portanto, é convocado a discernir o seu tempo, a sua geração.


terça-feira, 8 de setembro de 2009

Igreja: Identidade e Símbolo


Prezados amigos da blogsfera cristã, neste post compartilho com vocês o texto introdutório de nossa mais recente obra: Igreja: Identidade e Símbolos, que será lançada pela CPAD ainda neste ano.

Grandes teólogos e biblicistas de nosso tempo escreveram a respeito da eclesiologia. Emil Brunner, Karl Barth e Jürgen Moltmann, por exemplo, deixaram letras lapidárias na história da doutrina da igreja cristã.

Brunner insistira que a essência da igreja neotestamentária era a comunhão do crente com Cristo, por meio da fé, e a fraternidade cristã no amor. O tom ácido da eclesiologia do teólogo dialético dirigia-se contra o “eclesiasticismo clerical”. Condenava ferreamente o clericalismo e a forma de poder e domínio advindos desta forma de governo cristão. Para o teólogo suíço, o Espírito Santo não cria cargos por meio dos quais o homem governa, mas serviços através dos quais o líder serve.

Outro teólogo dialético, Karl Barth, ocupou-se mais especificamente com o ministério da igreja no mundo. De acordo com Barth, a igreja efetua sua missão mediante a palavra e a ação. O primeiro termo desse binômio congrega a missão querigmática da igreja: pregação, catequese, evangelização, missões, teologia e adoração. O segundo concentra-se nas ações da igreja a favor da restauração completa do ser humano, como por exemplo, a diaconia, a intercessão, e a ação profética da igreja no mundo.

À semelhança de J. Moltmann, Barth acreditava que a igreja é a comunidade de Deus quando é comunidade para o mundo. O que justifica a existência da igreja no mundo é o cumprimento da missão que Deus a delegou para cumprir. Se a igreja não cumprir o mandato de Cristo, deixará de ser o seu corpo glorioso e tornar-se-á mera instituição. Se cumprir parcialmente sua missão, jamais desfrutará da essência de sua natureza e identidade.

Jürgen Moltmann, patrono da teologia da esperança e da teologia da cruz, justificara que a natureza e a função da igreja ocorrem no entrecruzamento de sua identidade com Cristo, na obediência à missão, na apostolocidade, e na práxis cristã nas áreas política, econômica, educacional e cultural. A igreja é agente de transformação espiritual e social.

Teólogos do quilate de A. Strong, Lewis Chafer, Stanley Horton, Charles Hodge, Wayne Grudem, entre outros ilustres brasileiros, já lapidaram a doutrina da igreja com tanta mestria que, talvez, não se justifique mais uma obra sobre eclesiologia.

Todavia, a obra que o leitor tem em mãos não é um tratado sistemático e histórico da eclesiologia. Igreja: Identidade e Símbolo é uma análise conscienciosa a respeito do termo ekklēsia nas páginas do Novo Testamento, com interface no texto hebraico do Antigo Testamento e do grego da Septuaginta. Trata-se de uma obra cujo objetivo não é substituir os manuais de eclesiologia, mas servir de leitura complementar aos estudantes de teologia interessados em conhecer o contexto, a semântica e o desenvolvimento do termo até os dias hodiernos.

O método usado e predominante nesta obra é o léxico-sintático, entretanto, quando necessário, empregamos alguns recursos do método histórico-crítico, a exegese e o Sitz im Leben Kirche (contexto vital da igreja).

Essa última abordagem iniciou-se mais concretamente com o exegeta germânico Hermann Gunkel quando aplicara aos estudos de Genesis e dos Salmos o método dos gêneros literários, Formgeschichte, ou Críticas das Formas. Nesta tarefa, além de classificar os Salmos em seus principais gêneros (hinos de louvor, lamentações nacionais, reais e messiânicos, lamentos individuais, ação de graças individuais, etc.), também inquiriu a respeito do contexto histórico, cultural e religioso do Saltério (Sitz im Leben), bem como do lugar dos salmos na vida do povo (Sitz im Volksleben).

A razão do emprego do método deve-se ao fato de que a criação de qualquer gênero literário pretende responder alguma situação específica do povo, ou ainda, atender certa necessidade da existência humana. Logo, o método é um excelente recurso ao estudo do vocabulário do Novo Testamento, pois vivifica o significado estático, gélido e impessoal dos vernáculos bíblicos.

Neste opúsculo despretensioso, também encontra-se implícito no texto algumas abordagens semióticas, baseadas na articulação entre as três camadas de sentido textual proposta pelos teóricos do discurso.

O primeiro é o semântico, que estuda as relações entre os termos e os diversos significados textuais. Nesta etapa verificamos o sentido, a morfologia intencional, e a significação, definido por Jacques Fontanille, como o “conteúdo de sentido atribuído a uma expressão a partir do momento em que essa expressão foi isolada (por segmentação) e que se verificou que esse conteúdo lhe é especificamente inerente (por comutação)”.[1]

O segundo é o sintático, etapa que procura compreender a estrutura do termo-chave e a relação semiológica deste com o restante do texto, da oração, da frase, ou do discurso. Busca-se compreender a função e disposição da palavra no texto e da oração no período.

O terceiro é o pragmático, que estuda o valor do signo no contexto do narrador e do leitor, bem como a forma como interpretamos e descrevemos os signos textuais. Perfazendo assim, três níveis de significação de um discurso de acordo com Algirdas J. Greimas: o fundamental, o narrativo e o discursivo.

Será evidente para aqueles que se aplicam ao estudo da semiologia que fitamos apenas alguns aspectos desses níveis da análise; não espere, por exemplo, encontrar o “quadrado semiótico” exemplificado. Porém, o leitor deve estar cônscio que ao adotarmos certos aspectos da semiologia neste estudo, não seguimos todos os pressupostos desenvolvidos pela filosofia estruturalista, principalmente quando esta nega os sujeitos e a referência extra-textual. O emprego da semiótica no estudo das Escrituras parte de minha percepção de que o futuro da hermenêutica bíblica está relacionado ao progresso dessa ciência.

Nosso objetivo ao articular esses métodos fora compreender o texto bíblico e o termo-chave de nossa pesquisa em sua dimensão lexical, cultural, bíblica e teológica com vistas à interpretação da identidade e natureza da ekklēsia neotestamentária.

Quanto à estrutura deste opúsculo, a obra está dividida em seis breves capítulos.

No primeiro, discutimos os diversos significados do termo ekklēsia no contexto secular e religioso, intermediando entre à compreensão clássica dos gregos em Homero e a religiosa dos judeus, através da Septuaginta, do Antigo Testamento, e dos livros apócrifos.

No segundo, descrevemos a distinção e relação entre a Igreja universal e a igreja local, acentuando-lhes o caráter pneumatológico e antropológico.

No terceiro, estudamos o vocábulo nas epístolas paulinas e nos Atos dos Apóstolos, com ênfase na identidade, natureza e símbolos das igrejas citadinas.

No quarto capítulo, nos ocupamos com a pesquisa do logion mateano de 16.18, incluindo uma breve pesquisa historiográfica desse perícope e sua interpretação entre os teólogos pentecostais.

No quinto, concentramo-nos nas epístolas joaninas, especificamente no problema de tradução e interpretação da identidade da igreja na segunda carta. Ousamos apresentar outra possibilidade, mas sem interesse em dogmatizar nosso ponto de vista.

No último capítulo, discutimos os vários sentidos de ekklēsia da modernidade à pós-modernidade.

Nossa sincera oração é que esta obra cumpra o propósito pela qual foi criada: atender as necessidades dos estudantes de teologia que desejam se aprofundar no sentido sincrônico e diacrônico de ekklēsia nas páginas do Novo Testamento e nos dias atuais.

Soli Deo Gloria

Esdras Costa Bentho

Inverno de 2009.


[1] FONTANILLE, J. Semiótica do discurso. São Paulo: Editora Contexto, 2007, p.31.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O MAVIOSO MÚSICO DE JAVÉ, EM PERSPECTIVA



A CPAD, sempre na vanguarda, edita mais uma obra para auxiliar os professores de Escola Dominical nas Lições de Jovens e Adultos, do 4º trimestre de 2009. A lição, “DAVI: AS VITÓRIAS E AS DERROTAS DE UM HOMEM DE DEUS”, é de autoria do pastor e professor José Gonçalves, escritor já conhecido pelo público das Assembléias de Deus.

Todavia, numa iniciativa de vanguarda, a CPAD traz à lume o primeiro livro das Lições Bíblicas com a parceria de outros renomados escritores, entre eles, Pr. César Moisés, um dos ganhadores do Prêmio Aretê (2007), e atual chefe do Setor de Educação Cristã da CPAD. Debuta nesta obra, o chefe do Setor de Livros da CPAD, Alexandre Coelho, responsável pelo subsídio das lições que acompanham a revista trimestral Ensinador Cristão. O terceiro autor é este paraibano que vos escreve, que gosta de teologia e pimenta, educação e farinha, peixe e hermenêutica.

Os temas estão distribuídos no livro conforme as coautorias a seguir:

Lição 1: Davi e sua vocação: Pr. Alexandre Coelho
Lição 2: Davi enfrenta e vence o gigante: Pr. José Gonçalves
Lição 3: Davi na corte real: vivendo com sabedoria: Esdras Bentho
Lição 4: Davi e o tempo de Deus em sua vida: Pr. César Moisés
Lição 5: Davi e sua equipe de liderados: Pr. Alexandre Coelho
Lição 6: Davi unifica o reino de Israel: Pr. José Gonçalves
Lição 7: A expansão do reino davídico: Esdras Bentho
Lição 8: O pecado de Davi e suas conseqüências: Pr. César Moisés
Lição 9: A restauração espiritual de Davi: Pr. Alexandre Coelho
Lição 10: Davi e o preço da negligência na família: Pr. José Gonçalves
Lição 11: Davi e a restauração do culto a Jeová: Esdras Bentho
Lição 12: Davi e seu sucessor: Pr. César Moisés
Lição 13: Davi: um homem segundo o coração de Deus: Pr. José Gonçalves

Esta obra, entretanto, não está restrita ao contexto dominical. O professor consciencioso perceberá, a cada farfalhar de páginas, que o livro, apesar de subordinado à lição do trimestre, transcende os limítrofes da Escola Dominical. Isto porque, a pesquisa que os autores empreenderam lança a obra para além de seu público-alvo e do contexto que a gerou.

Se o leitor empreender uma pesquisa bibliográfica a respeito do rei Davi, perceberá que poucos livros foram dedicados à vida desse personagem. Por esta razão, a presente obra tem potencial não apenas para preencher essa lacuna, como também de participar das discussões acadêmicas a respeito do “mavioso salmista de Israel”.

A presente obra abrange os seguintes gêneros:

a) Biográfico;
b) Devocional;
c) Histórico;
d) Exegético;
e) Crítica Textual e Histórica;
f) Bíblico.


Há, nalguns capítulos, mapas, tabelas e gráficos correspondentes à história de nosso personagem principal.

Todavia, não pense o leitor que se trata de uma obra apenas descritiva, isto é, que descreve o episódico, mas omite a prescrição. Pelo contrário, de acordo com o estilo e método de cada autor, são impingidas reflexões a respeito da vida cotidiana, da liderança cristã, do papel do cristão no mundo, entre outras importantes intervenções no modo de viver pós-moderno.

Trata-se, portanto, de uma obra que agradará tanto ao professor da Escola Dominical quanto ao acadêmico, pois será útil à devoção e à pesquisa.

Esdras Bentho.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Avaliação e Aprendizagem

Cartoon de Augusto Cid

Nesse breve estudo, desejamos ressaltar que uma avaliação inteligente, acolhedora e amorosa não se restringe ao que o educando aprendeu, mas ao que precisa ser aprendido. Não vislumbra apenas o final, mas o processo.

1. Perspectivas da LDB
A expressão "avaliação da aprendizagem", designação comum entre os professores, de acordo com Luckesi, foi cunhada em 1930 pelo educador norte-americano Ralph Tyler. Conforme a LDB (9394/96) a avaliação deve ser "contínua", "cumulativa", "com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos" e "dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais" (Art. 24, V,a). Esse processo avaliativo é chamado na Pedagogia de Avaliação Formativa, que se opõe à Avaliação Somativa. Esses dois aspectos da avaliação serão estudados mais adiante.

2. Definição
a. Avaliação, como ato docente e o aluno como sujeito. De acordo com Soraia Cunha, a "avaliação é uma forma de juízo de valor da aprendizagem, atitudes e habilidades dos alunos, realizado pelo professor." Por ser "juízo de valor" requer julgamentos de méritos, de valores, o que pressupõe, subjetividade da parte do avaliador. César Coll reafirma a definição acima considerando a avaliação como "ênfase à valorização das aquisições realizadas pelos alunos como conseqüência de sua participação em determinadas atividades de ensino e aprendizagem."

b. Avaliação, como ato docente e os procedimentos de ensino como objeto. Conforme a perspectiva de Campbell, "avaliar sugere ação, tomada de decisão e viabiliza um ensino melhor e, portanto, só é válida se for instrumento para correção dos procedimentos utilizados pelo professor para ensinar de forma a conduzir à efetiva aprendizagem."

Na primeira definição a avaliação é uma ação do professor, enquanto na segunda, essa atividade é usada para avaliar não apenas a aprendizagem do aluno, mas também para corrigir os procedimentos metodológicos empregados pelo professor. Quanto ao objetivo primário, os usos dos instrumentos de avaliação visam conduzir o educando à efetiva aprendizagem.

Dessas definições podemos aferir e inferir a respeito da prática da avaliação. Por aferir entende-se "o grau de assimilação do conhecimento por parte do aluno" – o sujeito da avaliação é o aluno e a "quantificação" do que sabe. Por inferir compreende-se "à validade ou não dos métodos técnico-pedagógicos empregados pelo educador" – os sujeitos a serem avaliados são o educador e os resultados de seus procedimentos técnico-pedagógicos.

c. Avaliação como componente da prática pedagógica. Enquanto componente da prática pedagógica a avaliação possui:
Intencionalidade;
Meios;
Condições;
Resultado.

3. Tipos de Avaliação

a. Avaliação Inicial. Essa forma de avaliação é chamada de "avaliação diagnóstica" ou "avaliação preditiva". Ela ocorre no início dos processos de ensino-aprendizagem e tem como objetivo, segundo Coll, "obter informação sobre as necessidades educacionais e de formação dos alunos nos momentos iniciais do ensino." Trata-se, portanto, de uma pré-avaliação que tem por objetivo:

Avaliar: adaptar as características do ensino às necessidades educacionais dos alunos;

Orientar: orientar os alunos para o tipo de ensino de acordo com suas necessidades educacionais.

b. Avaliação formativa. O primeiro a empregar a expressão "Avaliação Formativa", foi o americano Michael Scriven, na obra Metodologia da Avaliação (1967). De acordo com o educador norte-americano, somente por meio de uma observação sistemática do educando, o educador conseguirá aperfeiçoar as atividades em classe e garantir que o alunato aprenda em igualdade de condições. Na abordagem de Scriven a avaliação compreende um processo ininterrupto e o emprego de métodos apropriados para avaliar o educando. Scriven classifica a avaliação de acordo com duas funções prioritárias: a formativa (no dia-a-dia da ação pedagógica) e a somativa (classificatória) e, somente depois, discute as metodologias empregadas na avaliação.

Essa avaliação também é chamada de "contínua" ou "reguladora". De acordo com Coll, "tem como finalidade relacionar as informações relativas à evolução do processo de aprendizagem dos alunos com as características da ação didática, à medida que se desdobram e avançam as atividades de ensino e aprendizagem."

c. Avaliação Somativa. Essa avaliação, às vezes chamada de "final" ou "classificatória", é realizada ao final de um programa de ensino, a fim de estabelecer ou definir um conceito ou nota. Mediante a nota obtida pelo educando, o educador concluiu se os estudantes aprenderam ou não o conteúdo ensinado durante o respectivo período. Um dos papéis sociais que a avaliação somativa cumpre é o de "natureza essencialmente social", chamada por Coll de "avaliação cumulativa atestadora". Assim sendo, parafraseando Luckesi, a escola, que recebe o mandato social de educar, responde a esse mandato obtendo de seus educandos a manifestação de suas condutas aprendidas e desenvolvidas por meio do histórico escolar.

4. Princípios e pressupostos da Avaliação

1. A avaliação deve facilitar a troca de informação relevante sobre o processo de ensino-aprendizagem.

2. A avaliação deve maximizar as oportunidades de que os alunos mostrem a aprendizagem e as capacidades que alcançaram, empregando atividades diversas nas quais possam participar de maneira ativa e adquirir cotas elevadas de responsabilidade.

3. A avaliação deve ter um valor de ensino; o uso de certa estratégia de avaliação deve poder ser justificada de acordo com objetivos de ensino pertinentes, e a avaliação deve ajustar-se às características de um ensino adequado da disciplina.

4. A avaliação deve ser desenvolvida e selecionada com o propósito de informar a ação subseqüente de professores e alunos; deve informar os professores quanto à melhoria de seus processos de ensino e deve mostrar aos alunos o que sabem, indicar-lhes o melhor caminho para continuar aprendendo e torná-los mais responsáveis e protagonistas de sua própria aprendizagem.


5. Considerações necessárias à avaliação.
O professor ao avaliar os educandos deve considerar:

1. Os estilos de aprendizagem do educando;
2. Às múltiplas inteligências;
3. Os múltiplos contextos histórico-sociais;
4. A relação entre avaliação e comunicação;
5. As teorias de ensino-aprendizagem
.

O professor deve avaliar a si mesmo, sua prática pedagógica e, principalmente sua relação com o educando, antes de efetuar a avaliação de seus alunos. Sua comunicação com os estudantes deve ser clara, sintética e objetiva. Acima de tudo, deve considerar que "avaliar deve ser um ato de amoroso em vez de punitivo."

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



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