DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Metodologia da Exegese Bíblica

Jerônimo, exímio exegeta das Escrituras

A primeira função da exegese bíblica é entender a tessitura do texto, compreender a trama que dá azo a mensagem do hagiógrafo. Para o cabal entendimento dessa assertiva, julgo necessário deslindar o significado de tais proposições tendo como base os textos de Mateus 13.36, Atos 8.30-38 e Hebreus 5.11:

1. A exegese envolve uma leitura técnica das Escrituras, nem sempre acessível a um grande número de leitores.

2. Há um hiato entre leitura e compreensão. É possível ler e não entender.

3. A leitura de uma perícope se realiza através de diversos níveis: edificação, liturgia, catequese, dogmática, exegese.

4. O tipo de leitura orienta a práxis interpretativa.

5. Os textos da Escritura apresentam complexidades léxicas, literárias, históricas, culturais, proféticas, litúrgicas e teológicas nem sempre acessíveis ao leitor fugaz.

6. Não é apenas necessário, mas também plausível que se explique a perícope.

7. A explicação do texto deve conduzir a edificação, exortação, consolação e a Cristo.

8. Certas explicações exigem maturidade e disposição de vontade de quem ouve e de quem a explica.

Metodologia da Exegese Bíblica

O emprego do termo exegese não está limitado ao sentido etimológico anteriormente expendido, mas estende-se de seu significado primário à exegese como metodologia aplicada às Sagradas Escrituras. Metodologia da Exegese Bíblica, portanto, é a organização e análise sistemática dos processos que devem orientar a investigação científica da Bíblia. Consiste na aplicação dos princípios racionais de investigação usados em documentos plurisseculares com o propósito de apreender o estilo literário de cada autor, a estrutura da obra, as formas literárias do conjunto, entre outros. É o conjunto de procedimentos científicos empregados com o propósito de explicar o texto em sua diversidade.

O uso de uma metodologia na exegese do texto bíblico não é fortuito, mas cumpre duas funções específicas: viabilizar a obtenção do conhecimento científico da Bíblia e possibilitar a sistematização lógica desse saber. O método em exegese, por conseguinte, requer o emprego de uma ordem com a qual diferentes processos serão empregados para alcançar determinados resultados. Entende-se por processo, a forma como determinada técnica é aplicada, isto é, o modo específico de executar o método.

Tipos de leitores

O leitor crítico da Sagrada Escritura distingui-se do fugaz, que se apressa em sua leitura, e do fugidio, que teme o desafio hercúleo de compreendê-la em seus matizes. Esse leitor operante além de saber o que pesquisar, e como investigar, sabe muito bem como ordenar os conhecimentos obtidos.

O seu conhecimento não está fundamentado única e precisamente nos sentidos, como o leitor fugaz; na experiência, como o leitor fugidio; ou em sua espiritualidade, como insistem os místicos e pneumatikos, mas nos princípios técnicos subsidiados pela razão iluminada que, à maneira agostiniana, recebe a comunicação da luz divina e, através dela, a inteligência é capaz de atingir o verdadeiro conhecimento. A cognoscibilidade disposta e aberta à iluminação divina.

De modo algum essas proposições indeferem a espiritualidade do exegeta, no entanto, não reconhece que esta seja uma autoridade suficiente em si mesma para interpretar o texto bíblico em seus matizes filológicos e histórico-culturais. Espiritualidade e exegese são recíprocos, e ninguém convicto de sua sanidade mental dissociaria uma da outra. A respeito dessa temática falaremos mais adiante, portanto, retornemos à assertiva principal.

A exegese como metodologia bíblica não circunscreve-se a extrair o sentido dos textos através de normas e princípios hermenêuticos, mas como ciência bíblica, além de ensinar os métodos de interpretação de textos e o modo de aplicá-los corretamente, formula, estuda e critica os métodos de interpretação aplicados ao texto bíblico. Temos então um caráter tríplice da ciência exegética: normatização, pesquisa e crítica.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O Coração de Marta no Mundo de Maria



Uma homenagem a minha amável esposa, Ana Paula, e à missionária Eva Maria, mestra por excelelência . Em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres.

Ao lermos embevecido as magistrais páginas do Novo Testamento, encontramos personagens que inspiram-nos a viver a vida cristã em sua dimensão mais profunda. Dentre esses destacam-se intrépidas mulheres que, apesar de viverem na sociedade patriarcal hebraica, demonstraram ousadia em professar a sua fé. Os nomes das que se assentam na galeria neotestamentária somam-se às dezenas, os das anônimas, às centenas. Nem mesmo a história de um povo e de uma época machista, pode apagar as pegadas históricas da mulher que teme e ama a Deus (Mt 26.13).

Marta, a Anfitriã de Betânia (Lc 10.38-42)

Nos limítrofes de nossa inquirição exala o perfume adocicado de uma rara flor denominada ‘Marta’. Seu nome, procedente da língua aramaica (Martâ’), persiste através do idioma grego ou koinê (Martha). O declínio das duas línguas que perpetuam o nome da irmã de Lázaro não foi capaz de eclipsar o intenso brilho de seu testemunho e serviço ao Messias.

De significado vigoroso, Marta ou senhora, era a irmã mais velha entre os seus irmãos (Lc 10.38). Seu nome, longe de ser um apelativo, a situava dentro do papel social da família judaica daqueles dias. Era a ‘senhora’ responsável por todo o formalismo cerimonial da recepção judaica ao se receber em casa um conviva. Esse fato tem sido incompreendido por aqueles que vêem na amorosa admoestação de Jesus em Lucas 10.41,42, uma repreensão acre ao caráter pragmático de Marta. Receber um rabino em casa era uma tarefa hercúlea que exigia esforço e completa dedicação.

Não se pode roubar o perfume de uma flor, muito menos extinguir os méritos sacrificiais de uma mulher que ama ao Senhor através de seus serviços. Marta, semelhante a sua irmã, Maria, assentava-se aos ‘pés de Jesus’ e ‘ouvia a sua palavra’, mas sua responsabilidade como anfitriã a distraia (Lc 10. 39,40). Estava bifurcada em dois sentimentos opostos: o de adorar através de seu serviço, ou similar a Maria, por meio de seu amor atencioso. Marta, a senhora, estava só e sobrecarregada de afazeres impostos pela etiqueta social, não era vilã, mas cordial e principesca (Lc 10.40).

O serviço de Marta garantia a tranqüilidade da adoração de Maria, assim como as ocupações litúrgicas de várias mulheres cristãs anônimas permitem a adoração daqueles que adentram a nave dos templos evangélicos. As filhas de Marta são como as colunas dos grandes edifícios modernos, não aparecem, mas sustentam toda a estrutura. Assim como Jesus amava a Marta, ama as mulheres cristãs que se consagram ao seu serviço: “Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro” e a você, filha de Marta (Jo 11.5).

A Confissão de Marta (Jo 11.19-30)

O hálito gélido do vento leva o perfume das pétalas da flor, assim como Marta foi levada a Jesus pelo falecimento de seu irmão Lázaro (Jo 11.19,20). Os ventos outonais da vida, assim como o aluvião das chuvas de verão, não apenas trazem consigo a dor, mas também disseminam as sementes da esperança. O mesmo vento que arrasa e a mesma inundação que arrasta, são os mesmos que levam a vida a solos estéreis.

O caráter, idoneidade e fé da “senhora de Betânia” são provados diante da ruptura da vida e do laço com a morte. Um rio em condições normais deposita sedimentos não visíveis aos olhos desatentos, mas agitando-se a água todo o resíduo emerge de suas profundezas. Dificilmente se reconhece a fé e firmeza de uma mulher cristã, quando esta apenas recebe bênçãos, mas vindo a adversidade todo o substrato do seu interior se manifesta, que pode ser tanto límpido quanto turvo.

A Maria coube-lhe o mérito do amor sacrifical demonstrado pelo seu gesto profético em João 12.3, mas a Marta o de na tempestade articular a segunda declaração de fé cristológica, semelhante a do apóstolo Pedro em Mateus 16.16: “Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao Mundo”.

Um sentimento acre-doce, pesar e esperança, apropriou-se de Marta. Estático, não muito distante de sua casa, o cheiro de morte, forçava a rocha sobre o túmulo. Em movimento crescente exalava o perfume da vida em direção a Marta (Jo 11.20). Maria, sua irmã, permanecia ouvindo as lamúrias das carpideiras, enquanto Marta vai ao encontro de Jesus. Duas coisas a “senhora de Betânia” sabia: que tudo quanto Jesus pedisse ao Pai, Ele o faria, e que haverá ressurreição no último dia (Jo 11.22,24).

Marta na adversidade, não se recolheu, mas creu. No sofrimento não ficou estática - essa é a posição de quem está morto -, porém superou as intempéries, e foi em direção à vida que não estava distante dela, assim como não estava de Maria (Jo 11.20,28). O sofrimento revelou que no íntimo de Marta, havia muito mais do que aquilo pelo qual ainda hoje ela é medida – serviço. Este, ao contrário, não era impulsivo, mas movido por plena fé e urgência sacrifical.

O Verdadeiro Culto Cristão (Jo 12.1-11)

Os elementos necessários a um verdadeiro culto evangélico podem ser percebidos na passagem joanina em epígrafe. O local é a aldeia de Betânia, conhecida como “casa de tâmara”, que representa em João, a comunidade dos restituídos.

A primeira restituição e a de Simão, o anfitrião da ceia. Este, anônimo no Evangelho de João, é conhecido pela comunidade dos discípulos por “Simão o leproso”. Uma leitura despretensiosa de Levítico 13 demonstra como o leproso está desqualificado a viver em comunidade: afastado de sua família e da comunhão religiosa. Entretanto, este homem é restituído não somente à saúde física, mas também à comunidade, através de seu encontro com Jesus. Ele nos ensina o primeiro elemento necessário ao culto cristão: a gratidão. Verdadeiros adoradores agradecem ao Senhor em todo o tempo (Sl 103).

O segundo personagem é Lázaro, o ressuscitado. Este foi reintegrado à vida. O cheiro de morte é dissipado pela fragrância da vida. Está reclinado à mesa com Jesus, ensinado-nos que numa verdadeira adoração, os adoradores têm expectativa. Lazáro está atento às palavras de Jesus. Na oração dominical somos ensinados a orarmos com expectativa: “Venha a nós o teu reino” (Mt 6.10).

Marta, a “senhora de Betânia”, serve. A verdadeira adoração não se limita ao amor de Maria, a gratidão de Simão, ou a expectativa de Lázaro, mas transcende através do serviço: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás” (Mt 4.10). É por esta razão que Paulo afirma que aquele que recebeu o dom de serviço deve servir (Rm 12.7).

Marta serviu ao Senhor, assim como você o serve, quando prepara na cozinha o alimento para aqueles que adoram, ou quando cuida da higiene do templo para receber a igreja de Cristo.

É uma honra para a mulher cristã ser Marta.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Ler e Compreender: Atos necessários à Exegese

Papiro 75a

A “exegese bíblica é a extração, explicação, narração ou interpretação dos textos bíblicos”. No entanto, o comentário da perícope bíblica, tradicionalmente chamado de exegese, somente é realizado pelo exegeta após a compreensão do texto em análise. Portanto, antes de explicar o texto é necessário compreendê-lo. Essa dimensão da interpretação foi captada maestricamente pelo filósofo do sentido, Paul Ricoeur, quando afirmou que “a exegese se propõe a compreender um texto a partir de sua intenção, sobre o fundamento daquilo que esse texto significa”.[1] Logo, a exegese quanto ciência da interpretação, se ocupa da compreensão e explicação do texto; isto é, do entendimento, elucidação do cuntextum, de sua trama, contextura e das conexões lógicas que existem entre as diferentes partes do texto a fim de torná-lo coerente. De acordo com James R. White, a exegese é o processo de compreender o texto da Bíblia em seu próprio contexto.[2] Isto posto, dois binômios são necessários à tarefa da exegese: compreender e explicar. O primeiro procede da investigação metódica e conscienciosa do exegeta, enquanto o segundo, do resultado derivado da análise.

Ao afirmarmos que a Exegese é a ciência da compreensão e explicação de textos, isto quer dizer que devemos acima de tudo entender que na prática existe um abismo entre “ler” e “compreender”, embora no grego neotestamentário as duas palavras estejam etimologicamente relacionadas. É possível ler um texto das Escrituras e não compreender o sentido ou a mensagem do mesmo. O eunuco de Atos 8.30-35 lia mas não compreendia. Vejamos rapidamente esse pormenor. Embora não perceptível na língua portuguesa, no grego do Novo Testamento, Filipe usa dois verbos cognatos: ginōskeis traduzido pela ARA e TEB por “compreender”, NVI por “entender”, mas por extensão “ter ou tomar conhecimento”; e, anaginōskeis , procedente da preposição ana que em composição inclui o sentido de “sobre”, e ginōskō , traduzido em diversas passagens por “saber”, “conhecer”, “vir a conhecer”, “entender”, “compreender” (Mt 13.11; Mc 4.13; Jo 8.32, 43; 14.7). O significado primário de anaginōskeis é “lendo em voz alta” e, o uso do verbo no imperfeito no versículo 28 (aneginosken), descreve uma ação inacabada, que está em curso ou duração; por essa razão, Filipe ouvi-o lendo o profeta Isaías (v.30) – não é sem razão que os gregos ainda hoje usam o termo anagnostikós como referência ao gosto pela leitura.

À semelhança da leitura orante da Bíblia, à maneira de Carlos Mesters [3], Filipe interroga o eunuco: “Compreendes o que vens lendo?” O termo que define o sentido de “compreender” participa do mesmo campo semântico do vocábulo que determina o significado de “leitura”; pressupondo que a leitura deve nos conduzir a uma compreensão do texto, e que o próprio ato de ler leva-nos ao de compreender. Compreender, portanto, é alcançar por meio da inteligência o significado daquilo que se está lendo. Quando compreendemos o que estamos lendo, percebemos as intenções de quem escreveu e entendemos aquilo que está contido no texto.

A resposta do etíope não deixa de ser menos esclarecedora. Principalmente pelo vocábulo que o historiador usa para descrever a resposta do leitor interessado. O termo grego, traduzido por “explicar” na ARA e “ensinar” na ARC, é hodēgēsei, procedente do verbo hodēgeō, que significa “guiar”, “liderar”. O texto ipsis litteris quer dizer: “Como posso entender se alguém não me guiar”. “Guiar” na compreensão do texto. “Guiar” na exata interpretação do conteúdo, tal qual traduziu a TEB: “E como poderia eu compreender, se não tenho guia?”. Nunca é demais repisar que a leitura de um texto é o primeiro passo para compreendê-lo.

Por conseguinte, a leitura exegética do texto bíblico é, inicialmente, diacrônica, pois está interessada no desenvolvimento histórico do texto, depois, sincrônica, pois situa-se no centro de origem lingüística, histórica e social a que está inserido.

Por fim, apresenta ao homem e a igreja contemporânea a mensagem das Escrituras conforme as suas interrogações e dilemas. Filipe explica o texto ao eunuco etíope e, a partir do contexto do profeta Isaías, “anunciou-lhe a Jesus” (At 8.34,35).

Exegese e a Evangelização

A explicação e narração do texto sagrado foram além do invólucro dos sinais semânticos e das sínteses culturais, que às vezes estão longe da cultura e dos problemas daquele que ouve. Essa superação interpretativa na prática da evangelização mostra-nos que uma leitura significativa das Escrituras não é apenas documental e acadêmica, mas também, e, principalmente, evangelística e pastoral.

A leitura e comp reensão das Sagradas Escrituras devem conduzir o homem a Deus,por meio de Cristo, o LOGOS ENCARNADO. Qualquer leitura crítica da Bíblia que afaste o homem de Cristo ou da fé apostólica não cumpre os propósitos pelo qual o Verbo de Deus se manifestou (Jo 1.14).

Shökel sabiamente afirma que "a Palavra de Deus não é apenas uma informação religiosa, uma informação sobre Deus; é Deus mesmo se autocomunicando, mais ainda se auto-revelando". [4] Deus revela-se por meio do Verbo Encarnado, o Logos Theou, como também mediante a Sagrada Escritura, a revelação epistemológica. Filipe, a partir das Escrituras, anunciou o nosso Senhor Jesus ao etíope (At 8.35). O propósito pelo qual interpretou a Palavra de Deus segue-se imediatamente ao fechamento da narrativa lucana: "desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e o batizou" (At 8.38). A interpretação das Escrituras nessa perícope cumpriu certos propósitos evangelísticos e poemênicos. Isto não quer dizer que a exegese e hermenêutica bíblica limitam-se à evangelização e ao pastoreado, pelo contrário, mas que a ciência bíblica de análise e interpretação do texto sagrado não deve omitir-se na tarefa de conduzir o homem a Deus, por meio de Cristo, pois a Palavra de Deus não é conceito para a mente, mas vida para o coração.

A exegese, como metodologia da ciência bíblica, deve promover, por meio da interpretação, o encontro entre o homem e Deus. No dizer de Weiller, "a dialética da distância e da proximidade" devem ser aproximadas:

O texto escrito só produz seu verdadeiro sentido como Palavra do Deus vivo no encontro e na tensão destes dois pólos históricos. Uma releitura fiel e engajada da Bíblia, a partir do Espírito que a anima (cf. Jo 14.26), faz explodir o potencial criador da Palavra de Deus, fonte geradora da verdadeira vida. [5]

Uma leitura bíblica que podemos chamar de eficaz ou científica é aquela que usa uma metodologia capaz de conduzir o leitor ao correto significado do texto. Assim sendo, tal qual Filipe, a exegese se propõe a conduzir, liderar, ou guiar o estudante das Escrituras na compreensão ou entendimento do texto bíblico. Conforme a concepção de Schnelle, a exegese é um processo de leitura, aprendizado e compreensão dirigido metodologicamente, cujo objetivo é realizar um inventário das dimensões históricas e teológicas dos textos.[6]


[1] RICOEUR, Paul. Hermenêutica y estructuralismo. Buenos Aires: Ediciones Megápolis, 1975, p.7.

[2] WHITE, J.Robert. Scripture alone: exploring the Bible’s accuracy, authorith, and authenticity. Minesota: Bethany House Publishers, 2004, p. 80.

[3] MESTERS, Carlos. Reflexões sobre a mística que deve animar a leitura orante da Bíblia, p.100-4. In ESTUDOS BÍBLICOS 32. ANTONIAZZI, A.;GRUEN, W. (orgs.). Métodos para ler a Bíblia. Petrópolis, São Leopoldo: Vozes, Editora Sinodal, 1991.

[4] SCHÖKEL, L.A.;SICRE DIAZ, J.L. Profetas. Madri: Ediciones Cristiandad, 1980, Comentário – 1, p.17.

[5] WEILLER, L. A mulher na Bíblia

[6] SCHNELLE, Udo. Introdução à exegese do Novo Testamento. São Paulo: Edições Loyola, 2004, Bíblica Loyola – 43, p. 178.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Os Se7e Selos do Apocalipse em Seis Dias (Fim)


5º Selo (6.9-11): Clamor dos Mártires

“Quando ele abriu o quinto selo, vi, debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam. Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? Então, a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram”.

Enquanto o quarto selo ocupa-se com os acontecimentos lúgubres na Terra, o quinto descortina o clamor dos mártires nos céus. Este selo é um pedido tanto por vingança como por justiça (v.10). João afirma que, como resposta a essa imprecação, foi lhes dado uma veste branca cumprida e ordenado que repousassem ainda por um pouco de tempo, até que se cumprisse o número dos irmãos que haviam de ser mortos como eles o foram. Este selo revela tempos de perseguição religiosa sem igual. Todos que não professarem a religião do Falso Profeta serão mortos.

6º Selo (6.12-17): Terremoto

“Vi quando o Cordeiro abriu o sexto selo, e sobreveio grande terremoto. O sol se tornou negro como saco de crina, a lua toda, como sangue, as estrelas do céu caíram pela terra, como a figueira, quando abalada por vento forte, deixa cair os seus figos verdes, e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola. Então, todos os montes e ilhas foram movidos do seu lugar. Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?”.

Este selo descreve em linguagem descritiva e poética uma catástrofe cósmica. Esta linguagem é própria dos textos apocalípticos, por exemplo, Joel 2.31: “O sol se converterá em treva, e alua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor” (3.14-15). Ageu descreve nos seguintes termos: “Ainda uma vez dentro em pouco, farei abalar o céu, a terra, o mar e a terra seca” (2.6). Isaías também participa desta tradição de textos apocalípticos: “Todo o exército dos céus se dissolverá, e os céus se enrolarão como um pergaminho; todo o seu exército cairá, como cai a folha da vide e a folha da figueira” (34.4). Esta linguagem de catástrofes cósmica também se encontra nos lábios de Jesus: “o sol se escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento e os poderes dos céus serão abalados” (Mt 24.29).

Murray adverte que estes sinais escatológicos são por demais “regulares para considerá-los figurativos. Contudo, que eles não devem ser considerados demasiadamente literais, parece evidente do quadro do céu que foge ante o trono celeste, no desfecho da era milenária...” [1]. LADD, afirma que nestes textos a: “forma de se expressar é “semi-poética”, isto é, a linguagem é simbólica e dificilmente pode ser tomada muito ao pé da letra. Por exemplo: Como, à luz do nosso moderno conhecimento da astronomia, podemos conceber estrelas caindo sobre a terra? Se sabemos que a abóbada celeste azul na realidade é uma ilusão ótica, como podemos imaginar o céu sendo enrolado como um pergaminho? A linguagem, no entanto, não é somente poética ou simbólica de realidades espirituais, mas descreve uma catástrofe cósmica real de caráter inconcebível para nós”.[2]

Segundo as linhas mestras destes textos encontramos:

O Maior Terremoto da História: A humanidade tem sido vítima de grandes terremotos. O mais destrutivo, segundo a opinião dos estudiosos, ocorreu em janeiro de 1.556 na China – quase um milhão de pessoas morreram vitimadas por esta catástrofe natural. O terremoto de São Francisco (EUA) de 18 de abril de 1906, foi igualmente terrível, matou setecentas pessoas e deu um prejuízo de mais de 500 milhões de dólares. Porém, este será o pior de todos. Neste período milhões de pessoas serão mortas nas cidades e nos campos. Será um dia de grandes desastres e prejuízos à sociedade organizada. No entanto, no final da Grande Tribulação, haverá um terremoto pior do que o do sexto selo (cf. Ap 16.18).

O Maior Transtorno Cósmico da História: É possível que o abalo cósmico descrito nestes textos seja resultado de uma guerra nuclear. O teólogo Hal Lindsey disse a respeito desta passagem que: “Sabe o que sucede numa explosão nuclear? A atmosfera retrocede sobre si mesma. É esta tremenda pressão do ar que volta a encher o vazio o que causa muita da destruição numa explosão nuclear. As palavras de João neste versículo apresentam um quadro perfeito de uma guerra nuclear total. Quando isto ocorrer, João afirma que cada monte e ilha serão fortemente sacudidos. Todo o mundo vai ser literalmente abalado”.[3]

O sol torna-se negro, provavelmente devido às modificações atmosféricas – resultado das armas nucleares. Lembre-se que o saco de crina era feito de pêlos de cabra. Este tecido era usado tanto em dias de luto (Gn 37.34; Jl 1.8), como nos momentos de penitência pelos pecados cometidos (1 Rs 21.27). As ilhas e os montes serão transtornados pelo poder destruidor destas potências nucleares.

A Maior Reunião de Oração da História: Este selo também descreve o quanto os homens deste período não aprenderam, através dos juízos divinos, a render a Deus o arrependimento devido. Eles reconhecem que Deus é o agente causal destes juízos, mas são incapazes de render-Lhe culto (vs.16,17). Todos são conclamados a orar, entretanto, evocam um clamor equivocado – aos montes. Possuem mais medo de Deus do que da morte. Clamam não pelo livramento divino, mas pela morte para que seus sofrimentos terminem. Mesmo em dor, a civilização da Grande Tribulação preferirá mais a morte a retornar a Deus em sincero arrependimento. Isto mostra o quanto são iníquos.

Se entendermos este texto literalmente, talvez esteja implícito que o culto à natureza, tão difundido pela Nova Era e pelo misticismo oriental nos dias hodiernos, será um dos fundamentos da religião do Anticristo naqueles dias. Pois em vez de os homens direcionarem seus pedidos a Deus dirigem-se a natureza.

7º Selo (8.1-11.19): Sete Trombetas

O sétimo selo desencadeia sete trombetas. Estas implicam em sofrimentos piores do que aqueles desencadeados pelos selos, e designam a intensificação dos juízos divinos. Vejamos a estrutura das sete trombetas:

1º TROMBETA (8.7): 1/3 da vegetação é destruída

2º TROMBETA (8.8): 1/3 da vida oceânica é destruída

3º TROMBETA (8.10): 1/3 da água doce é envenenado

4º TROMBETA (8.12): 1/3 do sol, da lua e das estrelas se escurecem

5º TROMBETA (9.1): abre-se o abismo, sofrimento sobre os homens

6º TROMBETA (9.13): solto os quatros anjos presos junto ao Eufrates

7º TROMBETA (11.15): declaração do domínio de Cristo

Espero que vocês tenham gostado dessas breves meditações. Quem sabe possamos discutir as sete trombetas.

Um abraço


Notas

[1] G.R.BEASLEY-MURRAY, Id.Ibid., p.1462
[2] Georg LADD, Id.Ibid.,p.81-2
[3]
Hal LINDSEY, There’s a New World Coming, p.110 apud WILLMINGTON, op.cit., p. 570

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Os Se7e Selos do Apocalipse em Seis Dias (III)

"E eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro era chamado Morte"

4º Selo (6.7-8): Cavalo Amarelo

“Quando o Cordeiro abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente dizendo: Vem! E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, sendo este chamado Morte; e o Inferno o estava seguindo, e foi-lhes dada autoridade sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a peste e por meio das feras da terra”.

A guerra, a carestia e a escassez de alimentos, trazendo conseqüentemente a fome, prepararão a terra para o castigo do quarto selo – a Morte. O cavalo amarelo representa a morte por meio da fome, da peste e das feras. O termo “amarelo” não significa um amarelo de cor viva, mas pálida [1], simbolizando a palidez característica da morte. Este cavaleiro, diferente dos outros três, é identificado como Morte e é seguido pelo Hades [a]/dhj] ou inferno. Não está claro, como observa Ladd, “se o inferno estava montado em outro cavalo ou andando a pé atrás da morte, ou no mesmo cavalo com esta”. [2] A Morte vitima os homens através da espada, fome, peste e das feras, enquanto o Hades, isto é, o “mundo dos mortos” [3] recolhe todos os que são ceifados pela Morte. Morte e Hades referem-se aparentemente a morte física e espiritual. [4]

Estas quatro catástrofes - a espada, a fome, a peste e os animais selvagens - são chamados em Ezequiel 14.21 de “os quatro maus juízos de Yahweh”. Estas catástrofes destruirão a quarta parte da terra. Se naquele período houver cerca de seis bilhões de habitantes no mundo, quase dois bilhões de pessoas seriam mortas.

Nunca é demais repisar a relação que existe entre essas pragas e a justiça e o castigo de Deus mencionado em Ezequiel 14.12-21, que trata da “fome” (v.13), “animais selvagens” (v.15), “espada” (v.17), e “peste” (v.19).

Os danos causados por estes cavaleiros.

Morte através da espada: Neste caso, espada assim como na metáfora do texto de Mateus 10.34, significa “contenda”, “dissensões”, daí morte causada por intrigas, contendas, dissensões, assassinato e violência. Um dos pilares que leva-nos a interpretar desta forma, além do uso metafórico de espada, distribuído por toda a Escritura, é que o segundo selo traz a guerra, enquanto, “para matar com a espada”, provavelmente esteja se referindo a morte causada por dissensões, violência, intrigas. Assim sendo, a violência urbana, os assassinatos, seqüestros, estupros e toda mazela inominável de violência contra o ser, será aguerrido neste período. Isto sugere um aumento da violência acima dos limites sociais observáveis nos dias hodiernos.

Morte através da fome: O que temos visto e ouvido sobre a fome na Etiópia, na região do nordeste brasileiro, ou em qualquer outro canto do mundo vitimado pela fome, não se compara à mortandade que se seguirá através da fome nesses dias tribulacionais. O terceiro selo trouxe o racionamento de alimentos sobre a terra, este quarto, a morte através da fome. Será uma crise de víveres que atingirá toda a pirâmide social da terra.

Morte através da peste: Se alguns homens sobreviverem à espada ou a fome, muitos não resistirão a morte através das pragas. Cabe lembrar o quanto é eficiente o poder de destruição aqui evocado. A Europa e a Ásia do século XIV foram quase varridas pela peste bubônica – a morte negra. Esta doença, provocada pela pulga dos ratos, foi responsável pela morte de quase um quarto da população (cerca de 25 milhões de pessoas) da Europa e Ásia do final da Idade Média. Se tomarmos como exemplo, o rato, além da peste bubônica, esta criatura, transmite o tifo, enfermidade que segundo estimativas, em quatro séculos matou mais de duzentos milhões de pessoas.[5] Segundo Phillips, “os ratos ameaçam o abastecimento de alimentos para os homens, pois devoram e contaminam, além de que se destruirmos noventa e cinco por cento dos ratos que habitam um determinado local, eles se recuperam no prazo de um ano”. [6]

O Dr. Franck Holtman, chefe do Departamento de Bacteriologia da Universidade de Tennessee, afirma que: Ainda quando a maior parte de uma cidade poderia ser destruída por uma bomba atômica, o método bacteriológico poderia eliminar facilmente a todos em apenas uma semana. O vírus que causa a febre de parrot, uma das mais mortíferas enfermidades humanas, é considerado pelos cientistas como o mais apropriado para este propósito....enquanto o custo de uma bomba psitacosis poderia ser comparativamente barato, sua potência é extremamente alta..., mas se requer menos de um centímetro cúbico do vírus para infectar 20 milhões de seres humanos quando se libera na atmosfera em quantidade infinitesimal...[7]

Devemos lembrar que estas pestes não são apenas a ocorrência de pragas já conhecidas pela ciência. É provável que surjam pragas desconhecidas pelos homens, que exterminarão milhares de pessoas. Muitas destas pestes serão resultado das mortes ocasionadas pela espada e a fome. A peste não causará apenas doenças que levarão os homens à morte, mas será responsável pela contaminação dos víveres e pela poluição das águas. O suprimento dos homens será destruído e poluído por estas e outras pestes. Em nossos dias, vivemos o pavor dos vírus e doenças cada vez mais mortais que surgem à medida que a qualidade da vida humana vai diminuindo por culpa de um crescimento insustentável. Nada, porém, pode ser comparado a este tempo.

Morte através das feras: A natureza sofrerá tanto pelos itens acima que os próprios animais invadirão os habitares dos homens fazendo muito deles suas vítimas.



Notas

[1] No texto grego chloros, de onde procede o nosso termo cloro (alvejante)] pode significar verde pálido ou verde como em Mc 6.39,Walter BAUER, A Greek-English Lexicon of the New Testament and other early Christian Literature, apresenta o significado de Ap 6.8, como “amarelo esverdeado” ou “pálido, como uma pessoa doente”, Chicago, 1979,p.882. LADD, op.cit.p.77, admite como tradução possível “a palidez amarelada da morte”. CHAMPLIN, op.cit., p.467, citando o período clássico da língua grega, a firma que Homero usou o termo para indicar a “palidez” do rosto de uma pessoa atemorizada, indicando “ausência de cor”, cita ainda Hipócrites, usando o termo com o sentido de “carne descolorida de pessoa gravemente enferma”.

[2] G.LADD, op.cit.,p.77. CHAMPLIN, ao contrário, identifica apenas um cavaleiro, chamado Morte e também Hades, visto que a morte é companheira inseparável do Hades. No entanto, a Morte e o Hades são claramente identificáveis como distintos um do outro, principalmente quando se observa que o texto usa o pronome na terceira pessoa [ele] para se referir a Morte.
[3] Hades [a]/dhj] entre os gregos era o deus do mundo subterrâneo, corresponde ao deus mitológico romano Plutão, o deus do mundo inferior.
[4] WILMINGTON, op.cit.,p.568.

[5] John PHILLIPS, Exploring Revelation, p.116 apud WILMINGTON, id.Ibid.,p.568
[6] Id.Ibid.p.568

[7] Ibidem

Crédito das imagens

1. http://www.blogoteca.com
2. O Triunfo da Morte" de Otto Dix
3.O quadro Triunfo da morte (1562), do pintor belga Peter Bruegel (1525-1569), retrata o horror que a peste negra causou na Europa

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