DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Os Se7e Selos do Apocalipse em Seis Dias (II)


3º Selo (6.5-6): Cavalo Preto

“Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizendo: Vem! Então, vi, e eis um cavalo preto e o seu cavaleiro com uma balança na mão. E ouvi uma como que voz no meio dos quatro seres viventes dizendo: Uma medida de trigo por um denário; três medidas de cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho”.

Este terceiro selo traz juízo sobre a terra. O segundo selo trouxe infortúnios à política das nações e às relações sociais dos homens. Neste, o castigo recai sobre a terra e os víveres. Devemos considerar este sofrimento como conseqüência do selo anterior, pois a guerra traz conseqüentemente a fome e a morte.

O cavalo negro é símbolo da morte e a balança de dois pratos subentende o racionamento de alimentos. Este tipo de balança era usado para pesar trigo. Segundo Ryrie “em circunstâncias normais com um denário (o salário de um dia na Palestina nos tempos de Jesus, Mt 20.2), se podia comprar oito medidas de trigo e vinte e quatro de cevada. Nestas condições de fome, com o mesmo salário só se poderá comprar uma medida de trigo ou três de cevada. Em outras palavras haverá 1/8 da subsistência de comida”. [1]

G.R. Beasley-Murray (um erudito conservador que combina as escolas preterista e futurista) afirma que “pouco antes de João escrever o livro de Apocalipse, uma falta aguda de cereais, junto com uma abundância de vinho no Império, levou Domiciano a decretar a restrição da vinicultura e o incremento da produção de cereais; o decreto criou um tal furor, que teve que ser abandonado. O texto pode ter em mente uma igual situação”. [2]

O trigo era o alimento principal do mundo antigo e uma medida de trigo correspondia ao consumo diário necessário para uma pessoa. Já a cevada, por ser mais barata, era o principal alimento dos colonos e pobres. A escassez desse tempo fará com que o preço dos alimentos básicos suba a ponto de um pai de família gastar todo o salário com os alimentos primários. O valor dos produtos fundamentais à subsistência estará acima das condições dos trabalhadores assalariados. Em condições normais, com o mesmo denário (dinheiro), comprava-se quase dezesseis vezes a mais daquilo que será adquirido neste período. Tempos de exacerbada carestia.

Não devemos deixar de mencionar o caráter irônico deste período tribulacional, pois o trigo e a cevada – os mais básicos alimentos do período bíblico – custarão, com o aumento da inflação [conseqüência da guerra], um valor abusivo e absurdo, enquanto o vinho e o azeite, que eram artigos mais caros, não escasseariam. Isto significa que a maior parte da população pobre ficará mais pobre, enquanto alguns ricos, principalmente os que não sofreram as conseqüências das guerras, terão ainda seus artigos de luxo: o vinho e o azeite. Porém, à luz da economia atual, podemos entender que estes artigos, cereal, azeite e vinho, necessariamente sofrerão um altíssimo aumento monetário não estando disponíveis ao poder aquisitivo da maioria das pessoas já empobrecidas pela guerra.[3]

Não podemos, entretanto, deixar de considerar a posição de G. LADD. Este considera com base nos textos de Dt 7.13; 11.14; 28.51; 2 Cr 32.28; Ne 5.11; Os 2.8,22; Jl 2.19; Ag 1.11 que “o cereal, o azeite e o vinho” de Apocalipse 6.5-6, é uma frase-chave da Bíblia que representa as necessidades básicas da vida humana, o que leva-o a considerar que este período será de extrema necessidade, mas não de fome catastrófica.

É provável que a globalização da economia desencadeie esta crise por todos os países, além do próprio castigo atingindo os quatro cantos da terra.


Notas

[1] RYRIE, Charles. Apocalipsis, p.46. Apud Harold L. WILLMINGTON. Auxiliar Bíblico Portavoz. Barcelona: CLIE, 1984, p.566.
[2] O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995, p.1461.
[3] Cf. LADD, George. Apocalipse: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1980, p.76 .

Crédito da imagem de abertura
www.livrariadoinfinito.com.br

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Os Se7e Selos do Apocalipse em Seis Dias (I)



1º Selo (6.2): Cavalo Branco

“E, havendo o Cordeiro aberto um dos selos, olhei e ouvi um dos quatro animais, que dizia, como em voz de trovão: Vem e vê! E olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso e para vencer.”

O primeiro selo possui paralelo com Zacarias 1.7-17 e 6.1-8 que tratam do simbolismo dos quatro cavalos. [1] As opiniões acerca da identidade deste cavaleiro têm ocupado diversos biblistas, chegando cada um deles a resultados díspares. Boyer, afirma que este selo representa a “conquista do evangelho no mundo” e que o cavalo branco, representa “a santidade demonstrada e guerreando, deve representar a força irresistível e veloz de Deus”. [2] Gilberto assevera que “este cavaleiro não pode ser Cristo, porque Cristo é quem abre o selo do versículo 1, do qual sai o cavalo e o cavaleiro do versículo 2. Além disso, Cristo sempre tem em seu cortejo, em sua companhia, melhores agentes do que os mencionados neste capítulo: guerra (vv.3,4); fome (vv.5,6); e peste (vv.7,8)”. [3] Isto significa que o primeiro cavaleiro deve ser identificado juntamente com os outros três, isto é, do mesmo tipo. Isto posto, se os outros três cavaleiros são símbolos de destruição e morte, pelos quais Deus executa o seu julgamento, o cavalo branco não pode destoar do conjunto. [4] Assim sendo, o cavalo branco é símbolo de conquistas, o arco [5] não retesado, isto é, que conservava as flechas na aljava, é símbolo de uma guerra não declarada [6], do domínio diplomático do Anticristo.

De acordo com esta corrente de interpretação, o cavalo branco e seu cavaleiro representam o Anticristo em seus primeiros anos de governo político. A cor branca, segundo certos exegetas, é que impõe dificuldade para admitir a possibilidade de se tratar do Anticristo, pois como atesta Ladd, “ (...) no Apocalipse o branco sempre é um símbolo de Cristo ou de algo relacionado com ele, ou de vitória espiritual”.[7] Entretanto, observamos que o cavalo, símbolo de conquista, representa a conquista do Anticristo, e a cor branca símbolo de vitória e da paz, representa a vitória e a falsa paz que será imposta pelo Anticristo. O arco representa o domínio do Anticristo através da diplomacia e da “guerra fria”. A coroa representa o triunfo do Anticristo.

2º Selo (6.3,4): Cavalo Vermelho

“E saiu outro cavalo, vermelho; e ao seu cavaleiro, foi-lhe dado tirar a paz da terra para que os homens se matassem uns aos outros; também lhe foi dada uma grande espada”.

Este segundo selo contrapõe-se ao primeiro. O arco contrasta com a espada. Enquanto o arco e as flechas estão na aljava, estes cavaleiros estão com as espadas nas mãos. A paz que o cavaleiro branco traz sobre a terra é temporal e falsa. A função deste cavaleiro, montado sobre o cavalo vermelho é tirar a paz da terra. Vermelho é a cor do sangue e geralmente representa a guerra. Nos tempos do apóstolo João, Marte, o planeta vermelho, também era considerado pelos romanos como o deus da guerra
[8].

O cavalo vermelho é símbolo da guerra e do derramamento de sangue que dela advém. A descrição deste selo, no primeiro século da era cristã, deve ter causado bastante impacto entre os crentes daquele período, pois viviam no tempo da Pax Romana, período de paz que atingiu todo o domínio do império romano. [9] Não devemos esquecer da relação deste cavalo vermelho com a profecia de Zacarias 6.2.[10]

No tempo da Grande Tribulação a paz diplomática do Anticristo dará espaço para as mais cruéis e sangrentas guerras. Este selo, desencadeará os sofrimentos relacionados aos outros castigos que se seguem.

Notas
[1] Cf. EPOS, MÓD.IV, vl.4, Antigo Testamento V, 2001,p. 129
[2] Orlando BOYER, Espada Cortante, vl.1, [?], p.216
[3] Antônio GILBERTO, Daniel e Apocalipse, 1985, p.126
[4] Cf. George LADD, Apocalipse – introdução e comentário, 1980,p.73
[5] um instrumento de guerra do mundo antigo.
[6] semelhante a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética.
[7] Id.Ibid.,p.74. Ladd apresenta os seguintes textos para comprovar sua assertiva: “O Cristo exaltado tem cabelos brancos como lã (1.14), os fiéis receberão uma pedra branca com um novo nome inscrito; os fiéis vestirão roupas brancas (3.4,5,18); os vinte e quatro anciãos estão vestidos de branco (4.4); os mártires receberão roupas brancas (6.11), bem como a multidão inumerável (7.9,13); o filho do homem é visto sobre uma nuvem branca (14.14); ele volta montado em um cavalo branco, acompanhado dos exércitos do céu que estão vestidos de branco e montam cavalos brancos (19.11,14); no julgamento final Deus está assentado em um trono branco (20.11)”.
[8] Cf. N.R.CHAMPLIN, O Novo Testamento Versículo por Versículo, vl.6, 1995,p.464
[9] Cf. George LADD, Apocalipse – introdução e comentário, 1980, p.76
[10] Cf. EPOS, MÓD.IV, id.Ibid.,p.129

Crédito das imagens


domingo, 20 de janeiro de 2008

Ensaio sobre a Exegese & Exposição Bíblica

Papyrus 75

Exegese e Exposição Bíblica
Exposição bíblica é o comentário de uma perícope bíblica, seja verbal seja escrita. A essência da exposição é a explicação. Exclusivamente no contexto eclesiástico, a exposição se realiza no cenário da Teologia Prática por meio da pregação ou do ensino. Esses dois momentos indissociáveis da liturgia cristã propõem-se a expor, narrar, explicar e interpretar o texto litúrgico, utilizando-se de variegados métodos que cumpram os propósitos delineados. Geralmente esses métodos e as técnicas envolvidas na exposição bíblica dependem da perícia de quem as usam, e diferem-se entre as técnicas retóricas da pregação e as técnicas e métodos exegéticos.

Neste particular se insere a dicotomia entre o real e o ideal. A experiência tem ensinado que essas duas habilidades nem sempre estão associadas a um mesmo expositor, podendo ser ele um excelente orador sem dominar uma única regra da exegese e ser um excelente exegeta sem a sensibilidade expositiva de um pregador. Estabelecido essa premissa passemos a responder à indagação posterior: O ideal é a osmose entre essas duas habilidades e o completo domínio de ambas as técnicas pelo preletor. Por conseguinte, a exegese e a exposição bíblica, fundem-se nos meandros do exercício do ministério cristão, através da habilidade hermenêutica e exegética do mestre, da perícia homilética do pregador e da ação noutética do pastor (Cl 3.16).

A finalidade do conluio entre a exposição bíblica e a exegese é guiar-nos a uma compreensão adequada de Deus através de Cristo, a Palavra Encarnada. As interpretações dos textos vétero e neotestamentários devem ser o efeito de uma preocupação evangelística e pastoral, mais do que técnica e documental. A exegese deve ser um instrumento que conduza o homem a Deus.[1] Nesta altura podemos tirar uma ilação das características essenciais da exposição bíblica, alicerçada numa exegese responsável e acadêmica. Para cumprir o propósito dessa assertiva fortaleceremos o argumento com os textos de Rm 15.14; Cl 1.28; 3.16; Ef 4.11-16. A saber:

1. A exposição bíblica é acima de tudo, uma explicação da perícope bíblica com o fim de evangelizar, exortar, consolar e edificar o corpo místico de Cristo, a Igreja.

2. A exposição bíblica é exegeticamente fiel ao contexto e a intenção autoral.


3. A exposição bíblica de um texto litúrgico é coesa com o restante das Escrituras.

4. A exposição bíblica baseia-se na exegese crítica de um texto e rejeita as justificativas infundadas concernentes ao texto bíblico.



Dois Níveis de Exposição Bíblica: Científica e Eclesiástica
Para retomar, de outro modo, a generalidade do problema, somos desafiados pela urdidura do comentário anterior, a deslindar os limites e ênfases de duas características essenciais da Exegese Bíblica: A Científica ou Acadêmica e a Eclesiástica ou Pastoral. [2] Embora sejam categorias da mesma ciência, estão sempre em busca do enlace ou do divórcio e, é na prática ministerial que este embate titânico se manifesta.


1. Exegese Científica. Sabedores de que os termos “científico” e “eclesiástico” são polimorfos e, portanto, sujeitos a re-interpretações, julgamos necessário limitar o sentido destes vocábulos dentro do contexto empregado. Por Exegese Acadêmica entende-se a análise que incidi sobre o texto todos os recursos teóricos, lingüísticos, gramaticais e históricos subsidiados quer pela Crítica Textual, quer pela Crítica literária, ou pela Crítica Histórica ou quaisquer meios disponíveis ao saber humano numa base racional que exclui todo e qualquer saber não-racional.


2. Exegese Pastoral. No reverso da Exegese Científica temos a Exegese Pastoral. Registre-se, portanto, que, ao diferenciar essas duas formas metodológicas de exegese não se quer dizer que a exegese pastoral seja a-científica, ao contrário, ela possui suas bases metodológicas, mas sua ênfase está estritamente relacionada à vida da comunidade eclesial. Por Exegese Eclesiástica ou Pastoral entende-se a exegese que se ocupa da exposição da perícope bíblica dentro da esfera litúrgica ou catequética, visando, por exemplo, não o destrinchar dos conteúdos do quadrado semiótico [3] que compõem o texto, mas a sua exposição edificante, consoladora e noutética.


A distinção entre essas duas visões nem sempre é clara, havendo mesmo aqueles que negam a distinção entre uma e outra. Simiam-Yofre considera que a distinção entre essa bifurcação dentro da exegese seria equivalente à existente entre pesquisa pura e aplicada:

A pesquisa pura se pergunta sobre o porquê de cada coisa no interior de determinado sistema científico, dela podendo brotar ou não resultados concretos utilizáveis pela técnica. Já a pesquisa aplicada destina-se a resolver problemas concretos. A exegese pastoral se encontraria mais próxima da pesquisa aplicada que da pura, e o problema concreto a resolver seria o do crescimento e maturação da vida cristã no indivíduo e na sociedade.[4]

A exegese bíblica é apenas uma, e a distinção entre acadêmica e pastoral está intrinsecamente relacionada apenas à aplicação e a ênfase, e não necessariamente a metodologia.


O exegeta além de nutrir-se de todos os progressos da investigação lingüística, literária e hermenêutica, bebe na fonte dos gêneros literários acrescentando os saberes da retórica, da narrativa, e do estruturalismo, como ciências auxiliares ao texto bíblico. Se não bastassem esses conhecimentos, vale-se ainda das ciências humanas em suas múltiplas abordagens. Portanto, a ciência exegética está em constante construção adotando o que cada período traz de contribuição à exegese bíblica.

Nem sempre, o eclesiástico cuja atividade está limitada a ação poemênica é capaz de acompanhar os progressos metodológicos da ciência exegética, forçando ainda mais o aparecimento e fortalecimento de uma classe acadêmica cuja entonação é a sistematização desse conhecimento.


Notas
[1] Cf. BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 66.
[2] Simian-Yofre menciona em sua obra que em 1975, o exegeta católico F. Dreyfus escreveu um artigo intitulado “Exégèse en Sorbone, exégèse em Église”, onde o exegeta no afã de criticar o método histórico-crítico procurava estabelecer uma diferença entre a exegese realizada nos centros acadêmicos da exegese aplicada estritamente ao contexto da vida da igreja. Cf. SIMIAN-YOFRE, Horácio (coord.). Metodologia do Antigo Testamento. Coleção Bíblica Loyola 28. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p.13-7.
[3] Método usado pelos estruturalistas criado para estabelecer de modo preciso as isotopias semiológicas e a isotopia semiótica de um texto.
[4] Cf. SIMIAN-YOFRE, Horácio (coord.). Metodologia do Antigo Testamento. Coleção Bíblica Loyola 28. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p.15.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Os Decretos Divinos e a Origem do Mal (Fim)




O Livro de Jó. Ilustração de William Blake



O Mal Natural e o Mal Físico

O mal natural são os males ocorridos por causa da desordem física e decadência do Universo que assolam a humanidade através das calamidades naturais (terremotos, furacões, vulcões), das pandemias (Aids, Ebola) que afetam a existência humana, das enfermidades tanto curáveis quanto incuráveis, dos desastres acidentais, e por fim, o mais doloroso de todos eles – a morte física. [1]
O mal natural está ligado a maldição que Deus pronunciou contra a terra (Gn 3.17,18), como conseqüência da desobediência humana. Embora a humanidade racionalista e afastada de Deus encontre explicações científicas para os diversos tipos de catástrofes naturais, a Bíblia, contudo, declara que o surgimento desses males está ligado diretamente ao pecado original. O Universo deixa a sua ordem original em direção ao caos.


Esta desordem é usada por Deus para afetar o pecado dos homens. É assim que diversas cidades bíblicas foram afetadas por elementos físicos como forma de punição divina, como por exemplo, Sodoma e Gomorra (fogo e enxofre), o mundo pré-diluviano (dilúvio), as dez pragas do Egito, e a morte da família de Coré.[2]


Essas ações demonstram que Deus possui total controle sobre a desordem física do Universo ou mal natural e, desse modo devemos entender o texto de Isaías 45.7: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas”. O texto cuja estrutura é um paralelismo que emprega a antítese [3] entre os vocábulos principais de cada linha e o sinonísmo entre as duas linhas, faz contraste entre luz e trevas, paz e mal, e dentro da direção que o texto conduz, “mal” deve ser entendido como o mal provocado pela guerra, catástrofes, etc., e não aquele que induz o homem ao pecado.[4]

É assim que Jó responde a sua mulher: “Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2.9,10). Jó atribui a Deus todos os seus infortúnios, como sendo ele aquele que permitiu cada uma das suas agruras, embora saibamos que Deus permitiu, mas não o causou.

Aliado ao mal natural está o mal físico. Este é involuntário, resultante da finitude das criaturas. É uma penalidade que o homem sofre como conseqüência do pecado original. Este mal ocorre involuntariamente como um infortúnio à criatura. Pode estar relacionado desde a um mal ou doença congênita até aquele adquirido pelos acidentes ou doenças transmissíveis. Este mal também tem estreita relação com o pecado original, sendo conseqüência deste embora seja distinto. Deus criou o homem em estado de integridade, não apenas espiritual e moral, mas também fisicamente. A morte física é, entre outros males, uma das punições mais severas resultantes do pecado original. É um mal que assola o homem e o mesmo que foi dito a respeito das doenças e infortúnios cabe igualmente nessa proposição. Deste modo entendemos, pois, que toda criação está sujeita à vaidade e à escravidão da corrupção, até que se realize a redenção completa dos filhos de Deus (Rm 8.20-23).

O Mal Moral


O pecado ou mal moral, embora fosse anterior a criação do homem, entretanto, teve sei início na história da humanidade através da tentação. A Bíblia intitula o mal moral de pecado, fracasso, erro, iniqüidade, injustiça, impiedade, transgressão e contravenção. Esse é o problema que assola o mundo e, dele resultam as outras tragédias descritas no mal natural e físico. Podemos observar essas formas de mal operando na experiência humana de modo insofismável.


O sofrimento de Jó e o mal. A Escritura também descreve a ocorrência deles simultaneamente. No prefácio do livro de Jó encontramos o mal como uma entidade pessoal (Satanás 1.7-12), o mal moral (a violência cometida pelos sabeus,1.13-15, 17 (caldeus), o mal natural (v.16,18-19, fogo do céu; grande vento), o mal físico (tumores malignos).

O contexto do livro deixa muito claro que embora o homem possa ser tentado pelo mal pessoal, assolado pelo mal natural e físico, pode ele mesmo, manter-se íntegro e evitar o mal moral: “Então, sua mulher lhe disse: Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoas a Deus e morre. Mas ele lhe respondeu: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2.9,10).

O estudo do mal moral nos dirige à origem do pecado na história da humanidade. A Escritura ensina que o mal moral teve início com a transgressão de Adão, e que esse ato foi inteiramente voluntário, como escolha pessoal de Adão e sua esposa Eva. Pelo primeiro pecado, o homem tornou-se “escravo do pecado”. Adão pecou não somente como pai da raça humana, mas também como cabeça representativa de todos os seus descendentes. Logo, todos são pecadores e destituidos estão da glória e graça de Deus. É necessário que o homem aceite a Jesus como seu único suficiente Salvador e Senhor pessoal. Cristo é a solução para o mal moral, físico, natural e espiritual.

Notas


[1] BENTHO, Esdras Costa. Decreto divino: para os que não crêem nenhuma explicação é possível, para os que crêem nenhuma explicação é preciso. Joinville: Verbum Editora, 2000, p.21
[2] Este evento em especial narrado em Números 16.30-34 é significativo. Gordon J. Wenhan, declara que “é possível que as tendas de Coré, Datã e Abirão estavam armadas sobre um Kewir, ou seja, uma placa de lama endurecida na superfície, mas pantanosa por baixo. Se a costa de um Kewir se rompe, as pessoas que estiverem sobre ele são tragadas da forma como descreve Números 16.30-34. Kewis como este se encontram no Arabá, que se estende na direção sul, do Mar Morto até o Mar Vermelho”. WENHAN, Gordon J. Números: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão e Vida Nova, 1985, p.144-5.
[3] É aquele em que o segundo elemento faz agudo contraste com o primeiro. Embora encontremos relação contrastante dentro de cada linha do verso, permanece a sinonímia entre as duas primeiras linhas do discurso.
[4] Uma análise minuciosa do capítulo revelará tratar-se da libertação do povo do cativeiro através da instrumentalidade de Ciro, assim o Senhor foi tanto o responsável pelo mal do cativeiro judaico quanto pela sua libertação (o bem).

Referência Bibliográfica

BERKHOF, Louis. Manual de Doutrina Cristã, 2ª ed., 1992, MG, CEIBEL.
______ A História das Doutrinas Cristãs, 1ª ed.,1992, SP, PES.
______ Teologia Sistemática, 1ª ed.,1990, SP, Luz Para o Caminho.
BROWN, Colin, ed. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, 1ª ed., 1981, SP, Vida Nova.
CHAFER, Lewis Sperry, Teologia Sistemática, VI, 1ª ed., 1986, SP, IBR.
CHAMPLIN,R.N.; BENTES, J.M. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia, 1991, SP, Editora Candeia.
ELWELL, Walter A. ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, 1ª ed., 1988, SP, Vida Nova.
FRIBERG, Barbara; FRIBERG, Timothy, ed. O Novo Testamento Grego Analítico, 1ª ed., 1987, SP, Vida Nova.
GINGRICH, Wilbur F.; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento, 1º ed., SP, Vida Nova.
HARRIS, R, Laird, (et alii), Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, 1ª ed., 1998, SP, Vida Nova.
HORTON, Stanley M. (ed.) Teologia Sistemática, 1ª ed.,1996, RJ, CPAD.
PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, 7ª ed., 1978, SP, Vida.
TEIXEIRA, Alfredo Borges. Dogmática Evangélica, 2ª ed., 1976, RJ, Livraria e Editora Pendão Real.
THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática, 1ª ed.,1987, SP, IBR.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Os Decretos Divinos e a Origem do Mal (VI)

Imagem extraída de: brunnodmontreall.spaces.live.com


O pecado tem sua origem no mundo angélico


O pecado já existia antes mesmo de se tornar uma realidade na experiência humana. O mal moral já havia afetado parte da hoste Angélica. A Bíblia não diz quando, mas afirma que ocorreu no princípio: “... porque o diabo vem pecando desde o princípio...” (1 Jo 3.8). A expressão ap’arkhês ho diábolos hamartánei, traduzido por “o Diabo vem pecando desde o princípio” (NVI); “o diabo é pecador desde o princípio” (TEB) ou “o diabo vive pecando desde o princípio” (ARA), denota que o pecado tem sua origem no plano metafísico.


O termo “princípio”(arkhês) não deve ser entendido como o “princípio da criação” ou a partir da queda do homem, trata-se da antiguidade do pecado, ou a partir do seu surgimento no mundo espiritual. Deus criou os anjos como seres pessoais e livres. Foram criados justos e santos até o dia em que se achou iniqüidade neles: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüidade em ti” (Ez 28.15).


O tempo do termo grego hamartánei (presente do indicativo ativo), indica ação contínua, habitual ou costumeira, como se fizesse parte da natureza do ser. Logo, o diabo não só pecou (passado), ele peca (presente) e continuará a pecar (futuro). É provável que o apóstolo amado, João, esteja fazendo eco as palavras de Jesus registrada pelo próprio apóstolo em Jo 8.44: “...diabo...Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade...porque é mentiroso e pai da mentira”. Este, querubim, anteriormente justo e bom, degenerou-se tornando-se o pai da maldade e do caos. João em sua primeira epístola (2.13) refere-se ao diabo pela epítome “Maligno” (Cf. 1 Jo 3.12). Em 1 Jo 5. 18 o Presbítero o chama de “ho poneros”, que é determinado pelo artigo masculino, não identificando apenas um ser qualquer que pratica a maldade, mas um ser pessoal já conhecido pela comunidade, sendo conhecido como “o Maligno” (Cf. Mt 13.19; Jo 17.15; Ef 6.16).


À luz destes textos compreendemos que o mal deve ser entendido não apenas no sentido natural, físico e moral, mas também como uma entidade pessoal. Esse título “Maligno” não se refere apenas ao caráter de Satanás, mas também à sua própria natureza maligna. O que provém dele não presta. O termo correspondente no hebraico (ra‘) quer dizer “maldade”, “mal”. O termo é usado em Gênesis 37.20 para designar um animal feroz ou perigoso. João usa o equivalente grego “poneros”, para afirmar que Satanás, a besta fera (Ap 13.2-4) não nos toca (1 Jo 5.18).


Entre os seus atos malignos encontramos: lança dardos inflamados contra os fiéis (Ef 6.16); enche os homens de sua maldade (Rm 1.29); introduz seus filhos entre os fiéis (Mt 13.18); e envia seus mensageiros para atormentar os homens (Lc 8.29;9.39,42).


O pecado neste ser foi o orgulho: “subirei ao Céu, acima das estrelas de Deus” e “serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14.13,14). A raiz “lh” (“subir ou ascender” - adjetivo superlativo derivado do verbo subir) usada na declaração altiva de Satanás é a mesma para referir-se a ‘Elyôn (Altíssimo). Cada uma das afirmações “subirei, assentar-me-ei, subirei acima” é um trocadilho com o nome do Altíssimo. A criatura afirmava arrogantemente o desejo de ser semelhante ao seu Criador, através de um jogo de palavras (Is 14. 12-15).

O Problema Do Mal

O problema atual no estudo sobre o pecado prende-se em seu aspecto mais radical - a sua origem. Esboçar uma distinção entre algumas formas de mal pode ser útil ao estudo em apreço. Há diferenças essenciais entre o mal natural e físico, o mal moral, e o mal como entidade pessoal. Este último já analisamos sinteticamente no tópico anterior.

Continua...


NÃO SE ESQUEÇA: EM FEVEREIRO CURSO AVANAÇADO DE HERMENÊUTICA BÍBLICA E FILOSÓFICA.




quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Os Decretos Divinos e a Origem do Mal (V)






Para abordarmos o tema sobre a origem do pecado e o problema do mal é necessário percorremos os corredores lexicográficos das Escrituras. Entre os vários vocábulos hebraicos que correspondem ao termo mal em português encontramos:

a)‘Āsôn
, literalmente “dano”, “mal”, “prejuízo”, “ferimento”. O termo é traduzido por “desastre” (Gn 42.2, 8) e “dano” (Êx 21.22,23), e refere-se não ao dano físico-congênito, mas ao provocado ou procedente das catástrofes naturais.

b) Chāmās
, literalmente “violência”, “mal”, “injustiça”. Embora o vocábulo seja usado cerca de 67 vezes, o contexto sempre refere-se à violência. Esta palavra tem sido assinalada com o sentido de “violência pecaminosa”. Chāmās não se refere à violência das catástrofes naturais, muito menos às ocasionadas por desastres, mas a extrema impiedade. Essa forma de violência foi responsável pela destruição do povo pré-diluviano (Gn 6.11,13).[1] E sem dúvida, prenuncia a destruição da geração presente.


Nossa geração no mesmo instante em que está febril se decompõe moral, social e espiritualmente na violência extrema e impiedosa. Por todos os lados ouve-se, através da mídia, a respeito da violência praticada na sociedade. Lembro-me que, ao evangelizar em uma comunidade (favela) no Rio de Janeiro, entreguei um folheto para um jovem que estava bebendo cerveja com os companheiros em um botequim. Enquanto o evangelizava, fui interrompido e o evangelizando disse-me: “ – Você salvou uma vida, e o preço que eu cobrei para tirá-la foi essa cerveja que estou bebendo”! Esses sintomas são o megafone divino que anuncia a aproximação da parousia.


A expressão cunhada pela filósofa política Hannah Arendt, "a banalidade do mal", mais uma vez reveste-se de contemporaneidade! Após discutir a respeito da complexidade da natureza humana, a mais importante aluna de Heidegger, abismada com as violentas mortes de seus compatriotas israelitas na Segunda Guerra, alerta para a necessidade de que cada homem evite e esteja atento à "banalidade do mal". Pessoas normais, assevera Arendt, à semelhança de Adolf Eichmann, são capazes de agirem com extrema crueldade!

c) Ra’. Segundo William White, a raiz deste termo tem conotação tanto passiva quanto ativa: “infortúnio”, “calamidade”, de um lado, e “perversidade” do outro. Pode ocorrer em contextos profanos, “ruim”, “repulsivo”, e em contextos morais, “mal”, “impiedade”.[2] O termo, em seus diversos usos, designa as atividades contrárias à vontade de Deus. O Senhor rejeita o mal em qualquer sentido, seja ele físico, filosófico, moral ou metafísico. Nesse aspecto a fórmula técnica “fez o que é mal aos olhos do Senhor” (literalmente, “fazer mal aos olhos de Iavé”) está basicamente associada as deficiências morais dos indivíduos: “Os olhos do Senhor estão em todo lugar contemplando os maus e os bons” (Pv 15.3). Embora o mal moral seja inato ao indivíduo, ele não é a única opção. O bem contrasta com o mal, e mesmo que a natureza humana vil procure sempre aquilo que é mal “aos olhos do Senhor”, o bem deve ser o ideal pelo qual o homem aspira. Deus exortou ao povo de Israel a se desviar do mal, não somente isto, mas uma vez “entrado” nele, ordena ao povo que “saia” do turbilhão de maldade e regresse ao supremo bem: “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois que haveis de morrer, ó casa de Israel?” (Ez 33.11 cf. Dt 13.12; 2 Rs 17.13; 2 Cr 7.14; Zc 1.4).


De onde procede o pecado? Qual a sua origem?

Ao tratarmos o tema “A Origem do Pecado” se faz necessário considerar algumas proposições pertinentes ao tema, ao mesmo tempo em que somos conduzidos por essas considerações dogmáticas em nossas perquirições a respeito desse tema controverso.

1. Deus não é o autor do pecado

Ao considerar o surgimento do pecado no cenário das criaturas espirituais e humanas perguntamos “Como Deus pôde permitir o pecado?” Devemos considerar essa pergunta e outras correlatas com duas respostas básicas: a primeira que trata da natureza de Deus e a segunda com base nos decretos ou planos divinos.

1.1. A Natureza de Deus

A primeira resposta a respeito da origem do pecado afirma que Deus não é o responsável ou autor do mal. Esta proposição está de conformidade com as santas e verossímeis doutrinas das Escrituras. A Bíblia ensina que Deus é:

Santo: “Ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou SANTO e separei-vos dos povos, para serdes meus” (Lv 20.26); “Fala a toda a congregação dos filhos de Israel e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o SENHOR, vosso Deus, sou SANTO” (Lv 19.2 cf. 1 Pe 1.16 ).

Justo: “Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é JUSTO e reto” (Dt 32.4); “Porque o SENHOR É JUSTO, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face” (Sl 11.7; 1 Jo 1.5; Tg 1.17).

Deus a ninguém tenta: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13).

Não se agrada do Mal: “Pois tu não és Deus que se agrade com a iniqüidade, e contigo não subsiste o mal. Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam a iniqüidade. Tu destróis os que proferem mentira; o SENHOR abomina ao sanguinário e ao fraudulento”. (Sl 5.4-6; cf. 7.11; Rm 1.18).

NÃO ESQUEÇA:
EM FEVEREIRO CURSO DE HERMENÊUTICA BÍBLICA E FILOSÓFICA.

Notas
[1] Cf. HARRIS, R. Laird (et all). Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 485.
2]
Cf. WHITE, William. Ra’, mal, aflição; mau, ruim. In HARRIS, R. Laird (et.all). Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1441.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Os Decretos Divinos e a Origem do Mal (IV)

“Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste;
cheia está a terra das tuas riquezas”

A Natureza dos Decretos Divinos


Antes de verificarmos o alcance dos decretos divinos é necessário compreendermos a estreita relação entre os decretos e a natureza de Deus. Os decretos são:

Imutáveis, pois baseiam-se na onisciência, presciência, sabedoria e imutabilidade divina: “que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antigüidade, as cousas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.10; 14.26-27; Sl 33.11). O Senhor não muda o seu plano, pois é fiel e verdadeiro. De acordo com Agostinho:

“Deus não deseja uma coisa agora e outra, daqui a pouco; mas de uma vez só, e imediatamente, e sempre, Ele deseja todas as coisas que Ele deseja; não repetidas vezes, agora isto, depois aquilo; nem deseja depois o que antes não queria; nem não deseja o que antes desejava; porque tal tipo de vontade é mutável; e nenhuma coisa mutável é eterna”.
[1]

Exeqüíveis, pois tudo o que Deus, no seu eterno conselho decretou, é factível: “ Eu o disse, eu também o cumprirei; tomei este propósito, também o executarei.” (Is 46.11b; 14.26-27).

Inquestionáveis, “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes.” (Dn 4.35).

Absolutos, o decreto não depende, em nenhuma de suas particularidades, de qualquer coisa que lhe seja externa, como, por exemplo, das ações livres das criaturas morais e racionais, da desobediência ou fé previstas. Deus não só determinou o que vai acontecer, mas também em que condições será realizado (At 2.23; Ef 2.8; 1 Pe 1. 2). [2]

Fundamentados na sabedoria divina, “.. segundo o propósito daquele que faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11; cf 3.10,11). Embora o estudo dos decretos divinos leve-nos a muitos labirintos, é certo que Deus elaborou Seu plano com sabedoria. O poeta entoa no Salmo 104.24: “Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas”
[3].

Eternos, isto é, Deus criou o seu decreto na eternidade, embora a sua execução seja no tempo. Sendo o decreto eterno, todas as suas partes são, na mente de Deus, uma única intuição, embora na sua realização haja sucessão. É assim que o decreto, aparece sempre no singular, uma vez que Deus tem apenas um único plano todo inclusivo. O decreto é antes do princípio do tempo, mas sua realização acontece no curso da historicidade humana. É nessa projeção que Pedro vê a efetuação do plano salvífico em Cristo: “Conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (1 Pe 1.20). No entanto, o decreto não é eterno, no sentido em que Deus é eterno, pois resulta da livre e soberano vontade de Deus. Tudo o que transpirou no tempo foi decretado desde a eternidade por Deus. Alguns eventos decretados ocorrem mediante a agência divina, tais como a eleição, a criação, a regeneração, e a encarnação do Verbo. Outros são realizados na história mediante a atuação direta do homem, como por exemplo, na crucificação de Jesus Cristo.

Livres, as Escrituras asseveram: “Quem guiou o Espírito do Senhor? Ou, como o seu conselheiro, o ensinou? Com quem tomou conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho do entendimento?” (Is 40.13,14).
Suas determinações não foram influenciadas por nenhum outro ser.
Permissivos no campo moral e espiritual. Podemos afirmar que o decreto divino – considerando aquilo que é bom em oposição àquilo que é mal – pode ser dividido em dois aspectos: por designação e permissão divina. É a segunda categoria que trata do chamado decreto permissivo. O decreto de Deus com relação ao pecado é chamado de permissivo, porque não podemos admitir:

Que Deus tenha desejado o mal para suas criaturas. O ato de Deus saber que o homem pecaria não o faz responsável pelo pecado ou mal moral. Se Deus não é o autor do pecado, então de onde procede o mal? Na verdade, o ato de você saber que uma pessoa vai errar não lhe faz responsável pelo erro. Suponhamos que você observa um indivíduo que constantemente atravessa uma rodovia movimentada sem respeitar a sinalização de trânsito. Você sabe que isso é errado, mas, se num desses dias, ele atravessar e sofrer um acidente, você se sentiria culpado por isso? Ou você dirá: “eu sabia que isto, um dia ou outro, iria acontecer”. O ato de Deus saber que o homem iria pecar, não o faz responsável pelo pecado, visto que o pecado é anterior a criatura humana, mas não à criação. Não é parte da criação perfeita de Deus, mas uma realidade introduzida na criação pela própria criatura. É a rebelião voluntária da criatura contra a vontade revelada de Deus (Tg 1.13,14). Assim mesmo, como poderia ser Deus o autor do pecado e daí condenar o homem a um inferno sem fim por fazer aquilo que Ele o havia induzido? A filosofia de que Deus é o autor do pecado porque sabia que o homem haveria de pecar, é antibíblica e repugna a perfeição dos atributos divinos. Mas, como afirma Thiessen:

“Baseado em Seu sábio e santo conselho, Ele decretou permitir que o pecado viesse. Isto Ele fez à luz do que sabia que a natureza do pecado viria a ser; do que sabia que o pecado faria à criatura; e do que sabia que teria que fazer para salvar quem quer que fosse” .[4]

Se é correto o decreto permissivo acerca do pecado, também o é, da derrota do pecado. Ele decretou permiti-lo, mas também derrotá-lo pelo bem (Gn 50.20; Sl 33.10,11; Sl 76.10; Dn 3.19-30; Fp 1.19,20). Em cada um destes textos, o pecado é derrotado pelo bem. Conforme Berkhof:

“O decreto de Deus com referência ao pecado é comumente chamado decreto permissivo. Torna o ato pecaminoso futuro absolutamente certo, mas não significa que Deus, por Seu próprio ato, o fará acontecer. Deus decretou não impedir o ato pecaminoso da auto-determinação da criatura, mas regular e controlar os seus resultados (Sl 78.29; 105.15; At 14.16; 17.30)”. [5]

Para abordarmos o tema sobre a origem do pecado e o problema do mal é necessário percorremos os corredores lexicográficos das Escrituras.

Notas

[1] Confess. XII, xv.
[2] L.BERKHOF. Manual de Doutrina Cristã, p.84 .
[3] Ibid.
[4] Teologia Sistemática, p. 101
[5] Manual de Doutrina Cristã, p. 85Notas

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Os Decretos de Deus e a Origem do Mal (III)



Mysterion

Fabris [1], traduz mysterion por “projeto secreto”. Este projeto oculto é especificado em Colossenses pelo genitivo “mistério de Deus, Cristo” (2.2) e “mistério de Cristo” (4.3). Em 1.27, Paulo explica esta fórmula técnica dizendo: “isto é, Cristo em vós, a esperança da glória.” Segundo Paulo (Cl 1.26), esse mistério esteve “ oculto dos séculos e das gerações”, mas sempre existiu no plano divino. A esse projeto existente, anterior a criação do próprio tempo é que chamamos de decreto divino, pois “vindo, porém, a plenitude do tempo (ou seja, cumprindo-se o tempo determinado por Deus), Deus enviou seu Filho” (Gl 4.4), “o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos” (Cl 1.26).

Os protagonistas do mistério são: Deus, que tem a iniciativa de projetar ou decretar o plano salvífico; o Messias que está no centro do mistério revelado, constituindo ele mesmo, o "mistério oculto-revelado"; os cristãos aos quais é revelado o mistério, ou que dele devem tomar “conhecimento”; e o apóstolo Paulo como mediador histórico encarregado por Deus de revelar e proclamar o mistério [2]. O mysterion, de fato, está associado a duas áreas semânticas bem definidas: a da “revelação”, delimitada pelos verbos afins – “manifestar” (ephanerothe - Cl 1.26); “dar a conhecer” (gnorísai – 1.27) – e a do “anúncio ou proclamação”, delimitada pelos verbos “anunciar” (katangelo – 1.28 [4.3]), e “falar, proclamar” (laleo – 4.3,4).

Isto posto, o decreto divino foi auto-revelado na pessoa de Cristo, anunciado aos homens, e registrado nas Escrituras, ao cumprir-se o tempo determinado, isto é, “a plenitude dos tempos”.


Proorizo
O semantema
[3] do vocábulo proorizo (pro), significa “prévio”; o verbo proorao quer dizer “ver previamente” (At 21.29), “prever” (At 2.31;Gl 3.8), “ver adiante de si; ter à frente dos olhos” (At 2.25). Proorizo traduz-se literalmente por “decidir previamente”, ou ainda, “predestinar” (At 4.28; Rm 8.29s; 1 Co 2.7; Ef 1.5,11)[4].

Fabris, traduz a expressão de Ef 1.5, por “Ele tinha estabelecido tornar-nos seus filhos”[5]. O vocábulo indica uma atividade ou um plano que foi feito antes de sua execução. Deus, por um ato livre de sua incomensurável bondade, determinou previamente que todos os que foram eleitos em Cristo, participassem da co-filiação com o Filho (Ef 1.5 [6]). Essa participação depende da posição do indivíduo em Cristo, e não independente dEle, pois a preposição genitiva diá, isto é, “por meio de” subordina o acusativo “adoção”, ao genitivo Jesus Cristo.

Portanto, em Cristo, fomos:

a) Escolhidos ou eleitos, “antes da fundação do mundo” - que equivale a dizer que a eleição se alicerça sobre a vontade divina, ou seja, é estabelecida segundo o projeto divino e não sobre o mérito humano, pois a escolha foi feita antes do tempo, na eternidade, a fim de sermos “santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1.4);

b) Predestinados para sermos filhos de adoção (adoção, filiação, herdeiro) – Deus estabeleceu previamente que todos os eleitos em Cristo seriam também filhos, gozando da mesma relação filial que possui o Primogênito, “modelo e fonte da filiação de todos os demais filhos” (Ef 1.5). Esta “predestinação filial”, não se baseia em qualquer ato e mérito humano, ao contrário, “segundo o beneplácito de sua [Deus] vontade”. Dois termos sinonímicos são combinados a fim de reforçar a posição de que a “predestinação filial” baseia-se unicamente num ato soberano de Deus: beneplácito (eudokian), pode ser traduzido por “boa vontade” (Fp 1.15; 2.13) ou “favor” (Mt 11.26; Lc 10.21; Ef 1.5) e, thelêmatos, que significa “vontade” (Mt 6.10; Ef 1.9), ou “desejo” (1 Co 7.37). O vocábulo boule é termo geral para designar os decretos de Deus, indicando o fato de que baseiam-se no propósito e desígnio do próprio Deus, isto é, ato deliberativo (At 2.23; 4.28). O termo thelema, entretanto, aplicada aos decretos de Deus, dá ênfase ao elemento volitivo em vez do deliberativo. O vocábulo eudokia, por outro lado, acentua, segundo Berkhof [7], “mais particularmente a liberdade do propósito de Deus”. Por conseguinte, a predestinação consiste no estabelecimento do propósito do próprio Deus. Origina-se do amor divino, sendo mediada pelo Senhor Jesus e, sua aplicação recai sobre aqueles que estão em Cristo. Somos, então, predestinados gratuitamente para o Senhor através de Cristo, segundo a vontade do próprio Deus e louvor da sua glória.

c) Redimidos e remidos dos nossos pecados. A terceira bênção concedida pela iniciativa de Deus em nos eleger em Cristo, é a redenção através do sangue de Cristo.

Natureza e Alcance dos Decretos Divinos
Os atributos de Deus classificam-se em transcendentes e imanentes. Os transcendentes pertencem a Deus como Espírito Infinito e Eterno, enquanto os imanentes, chamados também de morais, revelam-se no mundo moral e existencial. Enquanto os transcendentes caracterizam-se, em essência, naquilo que Deus é internamente e, por isso, incomunicáveis – apesar da obra da criação vir a existência através da ação de alguns destes – os imanentes, manifestam-se externamente no trato com as obras da criação, sobretudo, o homem. No que diz respeito a obra geral da criação, os decretos divinos estão relacionados com essa segunda ordem de atributos.


Continua...

Notas
[1] Ibid. p. 147
[2] Ibid., p.115
[3] é o elemento significativo da palavra, isto é, a raiz.
[4] Gingrich & Danker, Léxico do N.T. Grego/Potruguês
[5] As Cartas de Paulo (III), passim
[6] Fabris, p.151
[7] Teologia Sistemática, p.103

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Os Decretos Divinos e a Origem do Mal (II)



Terminologia Bíblica para os Decretos de Deus

Apesar de não encontrarmos nas Sagradas Escrituras a expressão “decretos de Deus”, a doutrina e sua sistematização não deixa de ser correlativo a elas. Seguindo a logia de Berkhof , “Não são descritas abstratamente na Escritura, mas são colocadas diante de nós em suas concretização histórica” [1]. Os decretos divinos são observados em conluio com a revelação progressiva de Deus na história e, não independente dela. Só podemos saber, portanto, através de uma revelação especial de Deus na historicidade humana.

Termos Bíblicos
A Escritura vetero e neotestamentária emprega diversos vocábulos que traduzem corretamente o sentido doutrinário e teológico dos decretos de Deus.

No Antigo Testamento
Os vocábulos no AT são usados em dois sentidos básicos: os que acentuam o elemento intelectual do decreto e, os termos que salientam o elemento volitivo [2].

Etsah, de ya’ats, lit. aconselhar, dar aviso. O lexema é usado em Jó 38.2, é traduzido na ARA por desígnio, na ARC por conselho e, na TEB por providência. Desígnio refere-se ao plano, providência de Deus ou ao conselho dado por um sábio [3]. Em Isaías 46.11 o Senhor afirma: “ O que eu disse, eu o cumprirei; formei o plano, e o executarei”. (ECR).
Sod, de yasad, lit. sentar-se junto para deliberação. Particularmente, Jeremias 23.18,22 fala-se de decisões tomadas na corte celestial ignoradas pelos falsos profetas.

Mezimmah, de zamam, lit. meditar, ter em mente, propor-se a. É o que ocorre em Jeremias 4.28 “..porque falei, resolvi e não me arrependo, nem me retrato” (cf. 51.12).
Hõq, lit. mandamentos, decretos. É um dos termos mais próximos na Bíblia, àquilo que os teólogos chamam de “decretos divinos”. O termo aparece em diversos textos das Escrituras das quais as mais importantes estão no Salmo acróstico 119. 5,8.12,: “Tu ordenaste os teus mandamentos, para que os cumpramos à risca”; “Cumprirei os teus decretos”; “ensina-me os teus preceitos”.

Cada um dos termos acima acentuam o elemento intelectual do decreto divino, a seguir observaremos os que salientam o elemento volitivo.

Shophet, lit. inclinação, vontade, beneplácito. Em Isaías 53.10 o termo é usado para designar o ato da vontade permissiva de Deus que permitiu que Cristo sofresse a favor dos pecadores: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo”. A idéia corrente por trás desse texto é que ao sofrer, o servo sofredor e, seus carrascos, estavam cumprindo um propósito determinado anteriormente por Deus (vide v.6).

Ratson, lit. agradar, deleitar-se. Deus só pode se satisfazer com aquilo mesmo que ele determinou para seu deleite. Isto denota vontade soberana, deleite ou beneplácito (Sl 51.19).

Novo Testamento
O texto grego do Novo Testamento contém numerosos e significativos vocábulos, entre eles:
Boule. Este termo ocorre em diversos textos neotestamentários significativos ao estudo em apreço. O significado primário deste lexema é conselho, resolução, desígnio, propósito e projeto. O vocábulo é usado principalmente para referir-se à crucificação como parte do plano divino relativo ao Messias.

Em Atos 2.23, Pedro afirma: “ Sendo este entregue pelo determinado desígnio (boule) e presciência (prognosei) de Deus”. ARC, traduz por “determinado conselho”, a NVI por “propósito determinado e pré-conhecimento de Deus” , a TEB por “plano bem-determinado da presciência de Deus”.

Neste texto o desígnio ou propósito de Deus está associado com a sua presciência. A presciência de Deus é o conhecimento prévio que Deus possui de todas as coisas, tanto finitas quanto eternas, de modo que nada do que ocorre acontece sem o conhecimento d’Ele. Pela sua presciência, ele determinou e projetou a redenção humana. Pedro usa o termo prognoseimais uma vez em 1 Pe 1.2, referindo à eleição dos santos.
Tanto boule quanto prognosei aludem ao eterno propósito divino (Is 53.10) de entregar Jesus à crucificação. A crucificação de Jesus era, ao mesmo tempo, parte necessária do destino do Messias e, parte do plano divino de Deus; porém, paralelamente a isso, aqueles que agiram de conformidade com o plano divino, fizeram-no por impulso de sua própria vontade maliciosa. No entanto, os personagens que assim o crucificaram, estavam, mesmo sem saber, cumprindo um projeto arquitetado por Deus desde a eternidade. A oração do crentes primitivos (At 4.27,28), testificava de que Herodes, Pôncio Pilatos, os gentios, e os povos de Israel, fizeram “ .. tudo o que a tua mão e o teu conselho predeterminaram que se fizesse”.

O apóstolo Paulo, em Efésios 1.11, usa o termo boule, ao contrário, para referir-se ao projeto salvífico, elegendo, predestinando, filiando e redimindo aos que crêem (vs. 4, 5,,7); “nele fomos também escolhidos, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade.” (NVI).

Rinaldo Fabris [4], traduz o texto grego como se segue: “Nele, também nós participamos da salvação. Deus, que tudo realiza segundo sua decisão, nos integrou gratuitamente em seu projeto,” Aqui, o projeto ou plano de Deus, está relacionado às “bênçãos espirituais em Cristo” (Ef 1.3) concedida gratuitamente aos eleitos. Assim como, boule aparece com o termo prognosei, clareando e ratificando o “desígnio de Deus”, no texto de Atos, também aparece com outros dois termos significativos no texto de Efésios. O primeiro deles é mystêrion, v.9, e o segundo é predestinar, proorízo, vs.5,11.

Notas
[1] Louis BERKHOF,. Teologia Sistemática, p.102
[2] Ibid., p.102
[3] Francis I.ANDERSEN, Jó- Introdução e Comentário, p. 272-3
[4] As Cartas de Paulo (III), p. 147

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



Related Posts with Thumbnails