DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O Ancião na Bíblia: Exegese e Fundamentos

Subsídio exegético para a lição 9


Considerações gerais. A Bíblia honra o velho, mas não o velhaco. O Senhor ordenou que os anciãos fossem honrados e respeitados: "Diante das cãs [śêbâ] te levantarás, e honrarás a face do velho [zāqēn], e terás temor do teu Deus. Eu sou o Senhor" (Lv 19.32). Um dos maiores símbolos de infelicidade, desventura e declínio nacional para o povo de Israel era um menino opor-se a um ancião. O profeta Isaías usa essa figura para retratar a desgraça espiritual e política da nação: "E o povo será oprimido; um será contra o outro, e cada um, contra o seu próximo; O MENINO SE ATREVERÁ CONTRA O ANCIÃO [zāqēn], e o vil, contra o nobre" (Is 3.5).

O ancião é tão importante em Israel que aparece juntamente com o valente, o soldado, o juiz, o profeta, o conselheiro, o respeitável, etc. (Is 3.2). Embora o contexto de Isaías seja negativo do ponto de vista profético, resguarda-se à respeitabilidade das categorias envolvidas.

De acordo com Jesus, sustentar os pais na velhice era tão importante quanto ofertar (Mc 7.11-13). A responsabilidade de sustentar os pais na velhice era dos filhos e não do templo ou dos oficiais do templo. O Novo Testamento ensina o apreço e consideração pelos anciãos. Timóteo foi proibido por Paulo a repreender asperamente um ancião. Deveria admoestar os idosos como a pais e mães (1 Tm 5.1,2) e, as viúvas, com mais de sessenta anos deveriam ser registradas na lista oficial de viúvas da igreja (vv.9,11). Entretanto, a responsabilidade de cuidar dos pais idosos era dos parentes próximos: "Mas se alguém não tem cuidado dos seus e principalmente dos da sua família, negou a fé e é pior do que o infiel" (v.8).

Ancião no Antigo Testamento. No Antigo Testamento há várias palavras para definir o termo "ancião", "velho", ou "velhice", alguns com matizes teológicos, outros nem tanto. Por conseguinte, pretendo destacar um vocábulo hebraico (zāqēn) e outro aramaico ('ătîd), muito embora façamos referências a outros termos. Cabe aqui, portanto, uma breve distinção: os anciãos como classe e como um estado de maturidade.

Ancião como um estado de maturidade. Zāqēn aparece em inúmeras passagens (Gn 43.27; Lv 19.32; Is 3.2,5) e, figuradamente, algumas vezes é chamada de cãs (Gn 21.7; 42.38; 1 Sm 12.2; Pv 16.31). A estes anciãos justos e tementes a Deus, a Sagrada Escritura promete longevidade feliz e frutífera: "Os que estão plantados na Casa do Senhor florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice [śêbâ] ainda darão frutos; serão viçosos e florescentes, para anunciarem que o Senhor é reto" (Sl 92.13-15 – ARC).

Observe, professor, o verbo "estar", reforçado pelas figuras "plantar" e "florescer", traduzidos pela ARA por "cheios de seiva" e "verdor". É uma promessa para os anciãos justos, que temem a Deus e, particularmente, vivem na Casa do Senhor. "Plantar", ou "cheio de seiva" é a tradução do termo hebraico dāshēm, vocábulo estudado na lição anterior neste blog (vide) que se refere à prosperidade abundante. "Florescer", ou "verdor", no original, é ra'ănān, literalmente "exuberante", "viçoso" ou "fresco". Procede de rā'an, "vicejar", "ser viçoso", "reverdecer". Este vocábulo é usado em Jó 15.32 designando o infortúnio e a velhice infeliz dos ímpios: "Antes do seu dia ela se consumará; e o seu ramo não reverdecerá" (ARC).

O termo śêbâ, traduzido por "velhice" no Sl 92 [cf. Gn 15.15; 25.8; Jz 8.32; 1 Rs 14.4], procede da raiz śîb, isto é, "ser grisalho". Em 1 Samuel 12.2, o profeta e juiz afirma: "Já envelheci (zāqēn) e encaneci (śîb)", o que significa "já estou velho e meus cabelos gri
salhos". Em Jó 15.10, a relação entre śîb, "cabelos grisalhos" e velhice é patente. No entanto, encontramos nesse texto mais um vocábulo para "velhice". Trata-se de yāshîsh, isto é, "homem muito idoso" (Cf. Jó 12.12; 15.10; 29.8). No Salmo 71.9 o poeta clama ao Senhor dizendo: "Não me rejeites na minha velhice; quando me faltarem as forças, não me desampares" (ARA). Neste verso, "velhice" é a tradução da palavra 'ēt, isto é, "tempo". A tradução da ARC, neste texto, é muito melhor do que da ARA. ARC traduz/interpreta por "Não me rejeites no tempo ['ēt] da velhice". Tanto este vocábulo quanto yôn, "dia", "tempo", "ano", em Jó 15.10 ("mais idoso do que teu pai"), referem-se à longevidade, à velhice que supera a de outros anciãos. Outros termos para velhice são encontrados no Antigo Testamento, e muito embora sejam de raízes distintas das palavras até aqui analisadas, pouco acrescentam ao significado já perlustrado.


Vejamos, inicialmente, o significado aramaico de 'ătîd e posteriormente o hebraico zāqēn.

'Ătîd: o Legislador eterno. O vocábulo aramaico 'ătîd é usado apenas no livro do profeta Daniel (7.9, 13,22) e designa unicamente a Deus. Convencionalmente as Bíblias portuguesas traduzem 'ătîd por "Ancião de Dias" (ARA), "ancião de dias" (ARC) e "Ancião" (NVI/TEB), entretanto, literalmente quer dizer "um avançado em dias". A Septuaginta (LXX), versão grega do original hebraico, traduz 'ătîd por palaios hēmerōn, "Ancião de Dias", conforme as traduções ARA e ARC.

Um termo semelhante, "Cabeça de dias", foi usado na literatura apócrifa (Enoque 47:3) para designá-lo como "a fonte do tempo". Trata-se de uma teofania (manifestação divina) cuja representação era, de acordo com Mesquita, "não propriamente um velho, mas uma pessoa idosa, respeitável e venerável, como cabe a um magistrado."
[1]

O simbolismo reflete a importância do ancião na cultura semita. Seus cabelos alvos refletem seu caráter, sabedoria e idoneidade para executar o juízo e reger o universo, razão pela qual está assentado sobre o trono. Lembremos que, Provérbios 20.29, atribui ao jovem como ornato "a força", mas aos anciãos, "as cãs", ou "cabelos brancos". Este último são símbolos de dignidade, ornato de longevidade, sabedoria, experiência e capacidade para exercer liderança.

Zāqēn: Idoneidade e sabedoria provenientes de uma vida farta de dias. O termo hebraico mais comum para ancião ou velho nas Escrituras Hebraicas é zāqēn; vocábulo que procede do cognato zāqān, cujo significado básico deste último é barba. Em função de os idosos usarem barbas crescidas é que a palavra começou a designar a "velhice", ou "ancião". Este termo, zāqēn, é muito comum nas Escrituras da Antiga Aliança, sendo por diversas vezes traduzido pela Septuaginta (LXX) por presbyteros.

Os anciãos como uma classe. Na ARA, o plural anciãos aparece cerca de 167 vezes enquanto o singular, ancião, nove vezes. Este grupo social hebreu, como afirmamos em nossa obra, A Família no Antigo Testamento, liderava o clã (mishpācha), sendo os líderes ou cabeças das famílias hebréias. Essa categoria social era conhecida pelos sábios conselhos, prudência, vivência e capacidade para julgar situações embaraçosas. Estes são chamados de “anciãos de Israel” (Êx 3.16,18; 12.21; 17.6), “anciãos dos filhos de Israel” (Êx 4.29;), “anciãos do povo” (Êx 19.7; Nm 11.24), “anciãos da congregação” (Lv 4.5), “anciãos da cidade” (Dt 19.12; 21.3). Esta composição social também era comum entre os moabitas e midianitas (Nm 22.7). Os anciãos auxiliavam na resolução de problemas ligados à virgindade (Dt 22.15), homicídios (Dt 19.12; 21.1), in passim. Números 11.25 menciona setenta anciãos que profetizaram quando sobre eles o Espírito do Senhor desceu. Segundo H. Schmidt, o clã, dos quais os anciãos são os líderes, parece incluir um grupo de mil homens com capacidade para guerrear (Mq 5.1; 1 Sm 8.12; 23.23).
[2]

Portanto, os anciãos, como uma classe na pirâmide social hebréia, eram líderes consagrados por Deus para auxiliarem a Moisés na liderança do povo de Israel e administrarem os territórios divididos entre as doze tribos em Canaã, entre outras importantes funções. O uso do termo como uma classe, designa a sabedoria que procede da idade madura.

O caráter dos anciãos encontra-se expresso nas palavras de Jetro, sogro de Moisés: "E tu, dentre todo o povo, procura homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; e põe-nos sobre eles por maiorais de mil, maiorais de cem, maiorais de cinqüenta e maiorais de dez; para que julguem este povo em todo o tempo, e seja que todo negócio grave tragam a ti, mas todo negócio pequeno eles o julguem" (Êx 18.21,22 ver Dt 31. 9, 28; 32.7). Os anciãos participavam integralmente da liderança do povo, recebendo para isto autoridade divina. Setenta deles receberam um derramamento sobrenatural do Espírito Santo, dando-lhes, também, funções carismáticas (Nm 11.16-26).

Notas
[1] MESQUITA, A. Neves de. Estudos no livro de Daniel. Rio de Janeiro: JUERP, 1978, p. 55.
[2] SCHMIDT, Werner H. Introduccion al Antiguo Testamento. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1983, p. 49.

4 comentários:

Faculdade Teológica disse...

Parabens muito bom seu Post!!!!
Abs!
Faculdade Teológica

Faculdade Teológica disse...

Parabens muito bom seu Post!!!!
Abs!
Faculdade Teológica

Faculdade de Teologia disse...

Parabens muito bom seu Post,muito interesante!!!!Fik c paz d cristo!!!
Abs!
Faculdade Teológica

Pastor Enéias disse...

Gostei muito. FOi de bastante auxílio. Prossiga

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



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