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segunda-feira, 23 de julho de 2012

As Aflições da Viuvez

Prezados professores e professoras de Lições Bíblicas - Jovens e Adultos - segue abaixo uma pequena contribuição para enriquecer a lição do próximo domingo.

1. A Viuvez no Antigo Testamento: etimologia e conceitos

1.1. ’almānâ. Este termo aparece pela primeira vez em Gn 38.11 referindo-se ao estado de viuvez de Tamar, a viúva. Um ponto interessante é que o autor de Gênesis aproveita o ensejo para designar também no versículo 12 a viuvez de Judá. Assim, em apenas duas passagens o literato mostra que o infortúnio da perda do cônjuge acontece a ambos, homem e mulher indistintamente. Outro aspecto notório é o parecer cultural: uma mulher viúva que não tinha filhos e que estava impedida de contrair um novo casamento por meio da lei do levirato, retornava à casa de seu pai (v.11).

Da raiz do vocábulo ’almānâ procedem os termos ’almān e ’almōn respectivamente “enviuvada”, “viuvez”, “ser abandonada(o) como viúva(o). Essas duas palavras são usadas metaforicamente para expressar o estado de abandono de Israel em Jr 51.5 (Is 47.9 – Babilônia). Assim como uma viúva é abandonada pela morte de seu marido, Yahweh enjeita a Israel devido os pecados da nação.

A viúva, por conseguinte, vestia-se conforme o seu estado. Em Gn 38.14,19, o termo ’almānût (viuvez) descreve “os vestidos da viuvez”. O “vestido da viuvez” está relacionado com o estado de luto e, por isso, essas vestes não são muito diferentes ou até mesmo idênticas às vestes usadas no velório.

1.2. Situação das viúvas no Antigo Testamento

(a) Pobreza e vulnerabilidade (1Rs 17.8-15 [A viúva de Sarepta – vide lição]). Na sociedade patriarcal israelita a condição de viúva era um risco social à mulher, deixando-a vulnerável econômica e socialmente. Em Êx 22.21-24 a viúva é classificada juntamente com o órfão e os estrangeiros. Elas são frágeis e vulneráveis, razão pela qual necessitam de proteção legal e profética (Is 1.16-23; Jr 22.3).

Além da angústia que acompanhava a viuvez, a perda da proteção legal do esposo colocava a viúva em situação de pobreza e penúria. Caso o marido deixasse alguma dívida, a viúva era obrigada a assumir os compromissos financeiros do faltoso, o que implicava às vezes na venda dos bens, da entrega dos filhos à servidão, e a todo tipo de exploração da parte dos credores. Em Dt 10.18 o estado de inópia (penúria) da viúva é declarado: falta pão e vestido – elementos básicos à vida e a dignidade humana, enquanto em Jó é denunciado o pecado de se levar da viúva o único boi como penhor (Jó 24.3).

Por conseguinte, de acordo Léon Epsztein (1990, p. 139) a situação das viúvas na Babilônia e na Assíria era muito melhor do que em Israel. Na Babilônia, de acordo com o Código de Hamurábi (137,173,180 a 182), a viúva tinha direito a certa parte da herança do marido e tanto ela quanto a repudiada, em certos casos, podia beneficiar-se com parte da herança igual à do filho.

Todavia, a viúva israelita não usufruía de nenhum direito de sucessão e a herança passava completamente para os filhos ou filhas do falecido – aqui um dos fundamentos pelos quais os filhos devem honrar aos pais, que inclui necessariamente a mãe viúva (ver 1Tm 5.4). Caso não tivesse descendentes, a herança pertencia aos irmãos do pai ou ao parente mais próximo, afiança Epsztein.

Daí a razão pela qual a justiça social do AT interessava-se benevolentemente pelas viúvas e órfãos. E o próprio Senhor coloca-se a favor destes pobres, ora ouvindo-lhes a oração (Êx 22.23), ora indignando-se contra aqueles que os exploram (Êx 22.24). Elifaz acusa a Jó do pecado de desprezar as viúvas despedindo-as de mãos vazias (Jó 22.9)

(b) Injustiça e desprezo. O profeta Isaías (1.16-17; Jr 7.6) acentua que Yahweh não deseja sacrifícios, mas justiça à causa da viúva (ver Mq 6.6ss); e que os israelitas aprendam a fazer o bem às viúvas e órfãos. Assim, J. Ridderbos (1986, p.71) assevera que a administração da justiça no AT servia mais especificamente para atender às reivindicações de viúvas e órfãos, estrangeiros e pobres. Isto se deve ao fato de que os demais podem fazer valer o direito por seus recursos, meios e parentes, mas o mesmo não acontecia com as viúvas (2Rs 4.13).

Os príncipes, segundo Isaías, se recusavam a ouvir as queixas das viúvas e órfãos, para cuja proteção eles haviam sido nomeados (Is 1.23; 10.1ss; ver Jó 24.21 Lc 18.1ss). Eles, na verdade, estavam mais dispostos a atender as demandas daqueles que lhes causavam impressão, cujas famílias eram influentes ou que podiam pagar subornos (Is 1.23).

Esta entre outras é a razão pela qual (a) Yahweh executa a justiça em favor delas (Dt 10.18); (b) Yahweh ampara as viúvas (Sl 146.9); (c) o Eterno lhe protege a herança (Pv 15.25); (d) o Senhor é juiz das viúvas (Sl 68.5). Não tendo como confiar na justiça dos governantes corruptos de Israel, a viúva confiava única e plenamente no Senhor (Jr 49.11). As condições que Yahweh estabeleceu para que Israel permanecesse na Terra Prometida era “não oprimir o estrangeiro, o pobre e a viúva” (Jr 7.6); o que demonstra a vulnerabilidade destas categorias sociais. Além disto, a mulher viúva, assim como a divorciada, não podia casar-se com um sacerdote (Lv 21.14).

2. A Viuvez nas páginas do Novo Testamento

O Novo Testamento mantém o mesmo contexto cultural e legal em relação às viúvas (chēra, no grego, termo que traz a ideia de deficiência). Ao que parece, a situação delas em nada melhorou após tantos anos. Ainda permanecia uma categoria explorada pelas autoridades religiosas (Mt 23.14), e ignorada pelas autoridades jurídicas (Lc 18.1-8), embora entre elas houvessem muitas piedosas (Lc 8.37; Mc 12.42).

As viúvas, como demonstra o texto de Mc 12.42, estão na categoria dos pobres e infortunadas (Lc 7.12) que desejavam justiça e libertação daqueles que as oprimem (Lc 18.3), mas que os juízes negam-lhes a justa atenção (Lc 18.4).

Dada a natureza da condição social, econômica e cultural das viúvas até mesmo a igreja nascente esqueceu-se delas por alguns instantes. Elas eram “desprezadas no ministério cotidiano” (At 6.1) “Ministério cotidiano”, noutra tradução é “na distribuição diária”, isto é, as viúvas da igreja estavam sendo ignoradas ou esquecidas na ocasião em que a igreja distribuía diariamente os alimentos e outros bens. Por mais estranho que possa parecer, os crentes vendiam suas propriedades, levavam os valores aos pés dos apóstolos, os apóstolos distribuíam aos pobres, mas as viúvas eram esquecidas por motivos vários. Atribui-se a querela, de acordo com alguns estudiosos, ao fato de as viúvas da igreja de Jerusalém ser contempladas no lugar das viúvas helenistas – preconceito racial para alguns. A fim de atender essa demanda, criou-se mais especificamente o cargo de diáconos.

Nas epístolas, entretanto, o tema é retomado. Paulo ordena que as viúvas verdadeiramente viúvas devem ser honradas. O termo honra, no grego timaō, é usado por Lucas em At 28.10 para descrever “tudo o que era necessário à subsistência física” dos missionários. Assim, a ideia de compensação material ou econômica para as viúvas, diz Carl Spain (1980, p.91), é sugerida pelos vocábulos recompensar (amoibē,1Tm 5.4) e cuidado (pronoeō, 1Tm 5.8). O próprio Jesus empregou o vocábulo honra para se referir à recompensa pelo serviço (Jo 12.26); e noutras partes do NT é usado com denotação monetária (Rm 13.6,7; 1Pe 2.17; veja “dobrada honra para os presbíteros em 1Tm 5.17). Paulo, portanto, está tratando acerca do sustento financeiro às viúvas. Mas para isto, o apóstolo específica a identidade da mulher verdadeiramente viúva, a saber:

a) A verdadeira viúva é desamparada. Isto significa afirmar que ela não tem qualquer parente que a socorra em suas necessidades. Se tiver filhos ou netos (v.4) ou ainda parentes que possam cuidar dela (v.16) não pode ser considerada uma viúva verdadeira. Neste aspecto é dever do filho, neto ou parente cristão sustentar a viúva da família. Isto, afirma Paulo, é cumprir o mandamento de honrar os pais e agradável a Deus.

b) A verdadeira viúva é piedosa. Paulo no versículo 5 afirma que a viúva verdadeira é piedosa, “persevera de noite e de dia em rogos e orações”. Ela cumpre, portanto, o dever religioso e se afasta dos pecados e das concupiscências (v.6), uma vez que não tendo família, nem filhos, dedica-se exclusivamente a oração (v.5). Ela está disposta a servir somente a Cristo e aos santos. Ana, em Lc 2.37,38, é um exemplo do tipo de viúva a qual Paulo se refere. Assim como Ana, a verdadeira viúva já provou que não é dada aos prazeres/deleites, no grego, spatalosa, que significa “pessoa estragada que se deleita na sensualidade” (ver Tg 5.6).

c) A verdadeira viúva é anciã. Paulo afirma que sejam inscritas somente as viúvas com mais de sessenta anos (v.9). Lembremos que no AT 70 anos era considerado a duração de uma vida; 80 anos uma possibilidade (Sl 90.10); e 60 anos “velhice” (Lv 27.3-7). “Inscrita” nessa perícope significa “ser colocada em uma lista para ser honrada com uma compensação permanente durante os últimos dias ou anos de sua vida” (Carl Spain, 1980, p.92). É claro que o fato de ser de idade avançada coloca a viúva em uma situação muito mais difícil do que a viúva mais nova. Primeiro porque um novo casamento torna-se mais difícil. Segundo porque a idade a impede de obter seu próprio sustento.

d) A verdadeira viúva não contraiu novas núpcias. De acordo com Paulo, a viúva deve ter sido “esposa de um só marido”, assim como os presbíteros (1Tm 5.9; 3.2).

e) Veja outras qualidades importantíssimas (v.10). Hospitaleira, servidora, misericordiosa e praticante de boas obras.

Bom, professores e professoras outras coisas poderíamos dizer, mas ficamos com esses dados. Boa aula e continue participando do Teologia & Graça.

Referências citadas
EPSZTEIN, L. A justiça social no antigo Oriente Médio e o povo da Bíblia. São Paulo: Edições Paulinas, 1990.
RIDDERBOS, J. Isaías: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1986.
SPAIN, C. Epístolas de Paulo a Timóteo e Tito. São Paulo: Editora Vida Cristã, 1980.

5 comentários:

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Um forte abraço,
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Samuel da Silva disse...

Deus te Abençoe Pr. Esdras

Anônimo disse...

Show!! Maravilhoso.

Apologeta disse...

Paz do Senhor pastor Esdras Bentho! Bem venho com mais uma suposta afirmação por parte de membros da CCB usando livros evangélicos:

1) “O mandamento “saudai-vos uns aos outros com ósculo santo” não é uma simples sugestão para quem quiser praticá-lo, mas uma exortação ao povo cristão para que lhe obedeça.” (Kauffman, Daniel. Doutrinas da Bíblia, pág. 332. Publicadora Lâmpada e luz - com permissão para - Literatura Monte Sião do Brasil. Boituva – SP).

2) “A maioria das igrejas evangélicas tem, por suas ações, aceitado implicitamente que alguns mandamentos bíblicos não devem ser adotados por atacado em nosso tempo e cultura. Por exemplo, o mandamento de saudar uns aos outros com ósculo santo aparece cinco vezes no Novo Testamento, e não obstante poucas são as igrejas que observam esta ordem hoje”. (Virkler, Henry A. Hermenêutica Avançada – Princípios e Processos de Interpretação Bíblica; págs. 171,172. Editora vida, São Paulo – Brasil).

3) “O “beijo” ocorria entre pessoas do mesmo sexo”. (Vine. W. E; F. Unger Merril; White Jr. Dicionário Vine – O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento. Pág. 432. CPAD. Rio de Janeiro – Brasil).

4) “Descoberta
Akatakaluptos, ( “descoberto” (fornecido de a, elemento de negação, e katakaluptõ, “cobrir”), é usado em I Cor. 11.5,13 (“descoberta”), com referência a injunção proibindo as mulheres estarem sem “véu” ou “descobertas” nas reuniões da igreja. ¶Pouco importando que tipo de cobertura seja, deve estar na cabeça como “sinal de poderio” (I Cor. 11.10), e cujo significado é indicado em 1 Cor. 11.3 no assunto de supremacia, e cujas razões são dadas em 1 Cor. 11.7,9 e na frase “por causa dos anjos” (1 Cor. 11.10), indicando o testemunho e interesse deles naquilo que indica a supremacia de Cristo. As injunções não eram nem judaicas, que exigiam que os homens cobrissem a cabeça na oração, nem gregas, pelas quais homens e mulheres ficavam igualmente com a cabeça “descoberta”. As instruções do apóstolo Paulo eram “mandamentos do Senhor” (1 Cor. 14.37) e eram para todas as igrejas ( 1 Cor. 14.33,34).” (Dicionário Vine – O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento, pág. 547. 2ª Edição, 2003. Rio de Janeiro, Brasil. CPAD).

Diante do exposto, realmente os adeptos da CCB estão certos? E quanto ao Dicionário Vine (aprovado pelo Conselho de Doutrina da CPAD)? E quanto às igrejas que não praticam tais mandamentos???

Grato e aguardando sua resposta...

Apologeta

Joabe disse...

A Paz do Senhor!
O comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal sobre Gálatas 6.16 afirma que “Israel de Deus” se refere a todo povo de Deus debaixo do novo concerto, tanto judeus como gentios. Já o Norman Geisler, na pagina 851 da Teologia Sistemática,volume IV, afirma que se trata dos israelitas que são crentes verdadeiros. Qual a interpretação correta?

Geisler também defende o sensus unum em detrimento do sensus plenior. Qual sua posição sobre isso?

Grato,

Joabe FERREIRA

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



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