DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ansiedade: uma visão teológica

Vincent van Gogh

Introdução

Embora a ansiedade seja um sentimento próprio e comum ao homem, Deus não o criou para viver ansioso. O Senhor o fez perfeito, justo e bom. Criado à imagem de Deus, o homem desfrutava de completa harmonia orgânica, mental, espiritual e sentimental. Ele era completo. A natureza do homem refletia à imagem moral e natural do Senhor. A imagem moral diz respeito aos atributos morais (amor, justiça, verdade, bondade, etc), enquanto a natural aos atributos da personalidade e natureza humana (livre-arbítrio, razão, emoção, etc). O equilíbrio entre a imagem moral e natural era a razão da felicidade, saúde, paz e quietude humana. Nem mesmo as obrigações do homem no jardim do Éden ("lavrar" e "guardar") roubavam-lhe a serenidade, pois tudo estava em completa harmonia e integridade. Porém, com a Queda, as imagens natural e moral sofreram profundas mudanças, decorrentes da desobediência do primeiro casal. A harmonia entre espírito, alma e corpo foi terrivelmente afetada. Os desejos do homem opuseram-se à sua vontade. O conflito se estabeleceu; o pecado dominou; e o homem passaria a comer "no suor do teu rosto" (Gn 3.19). Por conseguinte, a ansiedade e os cuidados com a vida humana tornaram-se parceiras indissociáveis do labor humano. A aflição, angústia, e fobia acompanharam, desde então, as realizações humanas. Ainda hoje a natureza humana é estigmatizada por esses dolorosos sentimentos.

Definição

A ansiedade é um estado emocional mórbido, doloroso, marcado por inquietude, medo e perturbação do sistema nervoso central. É um mal-estar físico e psíquico que aflige e afeta as emoções humanas provocando inquietude, preocupação, algumas vezes, indevida. A ansiedade manifesta-se diante de várias situações, entre elas: de um perigo real ou presumido; expectativa; entrevista de emprego; grandes decisões; sentimento de incapacidade, entre outras. Vejamos dois tipos básicos de ansiedade: natural e crônica.

a) Ansiedade natural: Este tipo de ansiedade está intrinsecamente relacionado à natureza humana. Certo grau de ansiedade ajuda o indivíduo a se preparar para certos desafios. Essa ansiedade se caracteriza por um sentimento positivo de preocupação advindo das prementes responsabilidades do indivíduo.

b) Ansiedade crônica: Esta forma de ansiedade é doentia, crônica e responsável pelo mal-estar físico e psíquico do indivíduo. Apresenta diversas reações orgânicas, como a sudorese, fadiga, cefaléia, taquicardia, nervosismo. Como doença emocional, manifesta-se: a fobia, a insônia, o estresse, a confusão mental, a inquietude, entre outros. Mesmo na vida teologal, a ansiedade crônica é um estorvo, pois os sintomas emocionais e físicos, de uma forma ou de outra, afetam a vida espiritual do crente. Entre os sintomas teologais, podemos destacar: dificuldade de meditar na Palavra de Deus, fruto da inquietude; fé vacilante, etc.

Visão Teológica da Ansiedade

Como afirmamos na introdução, Deus criou o homem perfeito. A ansiedade crônica, teologicamente considerada, é fruto do pecado. A desobediência dos nossos primeiros pais afetou a harmonia entre espírito, alma e corpo. A ansiedade não é uma doença do corpo, mas da alma que almeja, que sente, que ama, que teme. É a condição humana após a Queda. Algumas vezes, a ansiedade crônica é acompanhada de um grau de culpa, como por exemplo, a dos irmãos de José, em Gn 42.21. O substantivo hebraico tsar, traduzido pela ARA por "ansiedade", é usado em diversos contextos, mas em Gn 42.21, refere-se a angústia, aflição e ansiedade advindas da culpa, da consciência perturbada pelo erro, pelo pecado. Neste aspecto, temos a ansiedade como produto da culpa, do erro, do pecado. Um outro vocábulo que descreve esse tipo de doença, que agora não aparece mais como sendo do corpo ou da alma, mas do espírito, note bem "do espírito", é mōrek. Este termo aparece em Lv 26.36 no contexto em que Deus "põe sua face contra os judeus" (v.17). O vocábulo significa fraqueza, e procede de uma raiz cujo sentido é "mole", "suave" ou "macio". O castigo divino sobre o povo seria o de "amolecer-lhe" o coração diante dos inimigos de tal forma que teriam fobia do barulho de uma simples folha. A ARA traduz a palavra por "ansiedade", descrevendo o medo incontido oriundo de tal emoção. Os temos que descrevem a ansiedade na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento, são vários: Sl 38. 9 ('ănāchâ – gemer, suspirar [ansiedade/ARA]); Pv 12.25 (de'āgâ – apreensão, cautela, medo [ansiedade/ARA]). Basta apenas conferir em uma boa concordância hebraica para encontrar outros sentidos. Um termo grego usado em Mateus 6.25, merimnaō, traduzido por "cuidadoso" (ARC) e "ansioso" (ARA), significa "estar indevidamente preocupado", "ter ansiedade", ou "estar em ansiedade desnecessária". Nos versículos 25-27, Jesus apresenta a inutilidade desta emoção, mas em 28-33 ensina a confiar na graça diária de Deus para a provisão das necessidades e cura da inútil ansiedade.

Nas ciências que estudam a psique humana é comum atribuir uma relação de afinidade e relação de causa e efeito entre a alma e o corpo, orgânico e psíquico, chamado de psicossomático (psychē [mente, alma], sōma [corpo; físico]). Esta relação já demonstrou-se incontestável. Todavia, teologicamente, a Bíblia reconhece, mas não se limita à relação entre o orgânico e o psíquico, entre a psychē e a sōma, pelo contrário, avança. No episódio de 1 Samuel 16.14-23, naturalmente, a psicologia moderna apontaria Saul como um maníaco-depressivo-criminógeno, e na verdade o era. Contudo, as causas de sua doença não são resultados apenas dos aspectos orgânicos e psíquicos, mas espirituais.

Teologicamente considerada, a doença de Saul era de origem espiritual; para usar um neologismo, não era apenas psicossomática, mas pneumatosomapsicológica (pneuma/espírito; sōma/corpo; psychē/alma). Os problemas orgânicos e psíquicos eram procedentes de "espíritos" que o atormentavam, refletindo sobre todo o ser do rei Saul. A experiência cristã tem confirmado sobejamente esta constatação.

Ansiedade: uma meditação

O melhor e mais eficaz antídoto contra a ansiedade é a confiança inabalável nas palavras de nosso Senhor Jesus. Ele ordenou: "Não vos inquieteis". A gélida lágrima e o frio soturno da desesperança se dissiparam ante o sussurro da fé de Ana (1 Sm 1.10,13,15). Enquanto orava, o Espírito a confortava: "Não vos inquieteis" (Rm 8.26). A latente dor de Ana era manifestada apenas no altar da oração, refúgio dos oprimidos e ansiosos (Ap 8.3,4). Ela perseverava diante de Deus, mesmo quando as lágrimas e os verbos lhe faltaram (Cl 4.2). O cicio melancólico foi rompido e vencido pela convicção interna de que Deus a ouvira (1 Sm 1.18,19). "Não vos inquieteis"! O mesmo Deus que socorreu e confortou a Ana é o mesmo que o toma pela mão direita e diz: "Não vos inquieteis"! (Sl 73.23).

18 comentários:

Herlon Charles V. Carvalho disse...

Pr, Esdras, venho por meio desta simples palavras parabenizá-lo por sua contribuição Teológica a tantos que não tem a oportunidade de frenquêntar um seminário ou qualquer tipo de Educandário, devido muitas vezes a falta de recurso financeiro, como é o meu caso. Louvo a Deus pois, temos aprendido e nossas vidas tem sido enriquecidas através de seus tratados. Que Deus o abençõe.
Herlon Charles

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene
Prezado Pr. Herlon Charles, sou grato por sua participação no Teologia com Graça e pelas palavras motivacionais.
Nosso propósito é contribuir com a difusão do conhecimento teológico.
Esperamos que o Teologia com Graça seja um estímulo ao saber teológico de todos.

Um abaço
Esdras Bentho

Elizabeth Pacheco disse...

Prezado Pr.Esdras,
Salomão, homem mais sábio de sua época escreveu em Eclesiastes que "Nada tem valor debaixo do sol". Ele quis dizer que uma vida materialista excluindo Deus é uma vida sem sentido, pois Ele criou todas as coisas. Esse deve ser o verdadeiro significado da vida, viver para o Criador.
A Paz do Senhor.

Onésimo Mesquita disse...

No Iluminismo a Humanidade proclamava sua maioridade,pouco tempo depois Nietzsche anuciava a "morte de Deus".Mais isso era apenas uma ilusão e das piores, esperava-se o aparecimento do "super-homem" de Nietzsche e o q aconteceu foi duas gerras mundiais q abalaram as estruturas do homem moderno.Tudo isso é fruto dos efeitos noéticos do pecado.
E um dos frutos do pecado q esteve presente nesse tempo foi a ansiedade,a inquietãção causada pelo pecado que levou o homem a tentar salvar-se a si mesmo.

Mais uma grande postagem que só torna seu blog cada vez mais um dos meus favoritos.

Quero só lembrar q ainda há tempo do homen deixar de viver somente de pão e voltar a alimentar-se da PALAVRA DE DEUS.

Um abraço!

Daladier Lima disse...

É um prazer ler seus posts. Sempre acrescentam algo novo e saem do lugar comum de muitos blogs da blogosfera evangélica.

Quanto à ansiedade eu enxergo o problema da seguinte forma: é uma tentativa de exercer o controle da situação. Apesar da tentativa o ser humano não consegue resolver seus problemas existenciais.

Parabéns!

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Prezada irmã Elizabeth, muito obrigado por mais esta participação no Teologia com Graça.
O verdadeiro significado da vida, como a querida bem o expressou, está em Deus. A alma humana anela por Ele!

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Prezado irmão Onésimo, a condição pós-moderna do homem, nesta fase do capitalismo, é de completa ansiedade pelos bens materiais. Os anelos da alma humana, enquanto estiverem sendo preenchidas apenas pelo hedonismo ou qualquer forma de filosofia estóica, somente encontrará o vazio e a espera.
Um abraço

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene
Prezado Pr. Daladier, obrigado por sua participação no Teologia com Graça.

Os problemas existenciais do homem também é fruto de sua premente ansiedade, como bem frsiou o amigo.
A solução está em Cristo.
Um abraço

cursos de teologia disse...

Foi um prazer ler seus maravilhosos e abençoados posts!!!

Um abraço e continue na abundante Graça!!!

Tânia Almeida disse...

A Paz de Cristo, pastor.
Parabens pelo seu Blog, tenho certeza que ele está abençoando diversas pessoas.
É muito bom ter páginas abençoadoras na net, lugar que infelizmente circulam muitas e muitas coisas que não edificam.
Glorifico a Deus, por ainda conseguirmos ler, algo com conteudo e que nos edificam.
Deus o abençoe sempre.
Tania

rogerio brum rodrigues disse...

A paz do Senhor pastor Esdras, tenho sido abençoado e para glória de Deus peço que Ele continue o inspirando, pois tudo que o adversário deseja é nos ver cabisbaixo e desanimados, Deus continue te abençoando!!

Faculdade Teológica disse...

Parabens muito bom seu Post!!!!
Abs!
Faculdade Teológica

Faculdade Teológica disse...

Que Deus continue abençoando seu trabalho e nos edificando com seus post Fica Na Paz!!!!
Abs!
Faculdade Teológica

Faculdade de Teologia disse...

Parabens muito bom seu Post!!!!Fik c paz d cristo!!!
Abs!
Faculdade Teológica

rose disse...

a paz do senhor PASTOR ESDRAS que o nosso DEUS continue abençoando este ministério tão lindo.Quero pedir-lhe o favor se estiver em vosso alcançe fazer comentários sobre a revista da escola dominical dos juvenis pois a C.P.A.D,dar muito pouco e nós professores necessitamos de um subsidio.para nos edificar mais.fik na paz.

ailton disse...

a paz do senhor irmao esdras,voce ja pregou na minha igreja aqui em joinville eu participei do eboj na ocaziao que o irmao lecionou hermeneutica.este assunto sobre ansiedade parece que foi escrito pra mim,depois de vinte anos de ministerio e dirigir quatro igrejas eu me sinto cansado,sinto dor em todo corpo o medico falou que è ansiedade generalizada, como consequencia minha pele desenvolveu psoriase è uma uma imflamaçao na pele, estou me tratando com um especialista,continue escrevendo sobre o assunto. fik com Deus.

Nivaldo Filgueira disse...

Tenho o seu livro de Hermeneutica, agora subitamente encontro seu blog. Deus continue lhe abençoando pr. Esdras

Fabiana Melo disse...

Excelente! Poucas pessoas tem tanto conhecimento sobre o real significado das palavras gregas e hebraicas. Abre-se um leque ao entendimento quando nos deparamos com essas traduções.

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



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