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terça-feira, 21 de outubro de 2008

História e seus Pressupostos

Angelus Novus - Paul Klee

História. O termo história, procede do grego histōr cujo significado literal é “instruído”; “aquele que sabe”; “juiz”. O histōr, como chamavam os gregos, era um sábio ou mestre que compartilhava o seu saber sobre o passado com outros. O conteúdo ministrado era conhecido como histōria. Desde então, o termo história tem sido definido ambiguamente como “registros do passado” ou “o estudo dos acontecimentos que se passaram”. Segundo Borges, o termo se refere aos “acontecimentos históricos” (a história-acontecimento) que são objetos de análises do conhecimento histórico (da história-conhecimento).[1] História, portanto, é tanto a descrição dos eventos passados quanto o estudo desses mesmos eventos.

Revolução Francesa. Mas, de acordo com Reis, somente após a Revolução Francesa, a história foi redescoberta “seja como produção do futuro, seja como reconstrução do passado”.[2] Nesta acepção, história não se limita a reconstituição do passado, mas a produção do futuro. De um lado temos os historiadores que vêem a história como uma reconstituição fiel do passado e fidelidade à tradição, enquanto de outro, os filósofos, que a viam como uma ruptura com o passado e uma construção do futuro. No entanto, o sentido histórico, “deveria articular conhecimento do passado e produção do futuro, sem romper estas duas dimensões”.[3] Assim sendo, só a história explica qualquer fenômeno humano – fora dela ou do exterior dela, nada que lhe é interior pode ser explicado.[4] Portanto, passado, presente e futuro não são elementos contraditórios, mas interdependentes. A história do presente é uma indagação feita pelo historiador concernente aos problemas contemporâneos. É preciso conhecer o presente e, em história, o fazemos, sobretudo, através do passado, remoto ou próximo. A história e o futuro, são elementos especulativos sob o ponto de vista humano, em que se discutem as tendências e probabilidades e não suas certezas.

Heródoto. Atribui-se ao grego Heródoto, considerado por alguns como o “pai da história”, o emprego do vocábulo para designar o estudo ou a investigação do passado. Todavia, em nossa abordagem, “história”, além de possuir o significado acima expendido, restringe-se ao desenvolvimento e transformações históricas nas quais o próprio Deus intervém. E, a transformação, como afirma Borges, “é a essência da história”.[5]

Historicismo Religioso

O termo historicismo foi empregado por Karl Werner, em 1881[6], na obra Giambatista Vico como Filósofo e Pesquisador Erudito, a fim de se referir às principais correntes de pensamento que evidenciavam a estrutura histórica da realidade humana. Entre essas escolas destacavam-se as teorias dialética, hegeliana e religiosa. A primeira é descrita como a história da matéria, do trabalho e da técnica humana. A segunda, da manifestação do Absoluto. Filósofos e historiadores como Wilhelm Dilthey, Karl Mannheim e Arnold Toynbee compreenderam a história como a “essência da condição humana”. O homem, como todos sabemos, é um ser finito, temporal e histórico; é o agente humano que faz a história. A terceira corrente, historicismo religioso, foco de nossa análise, refere-se à história enquanto conhecimento, relato, ou transcrição dos fatos, mas não se limita apenas a estes dados, mas a interpretá-los, apreender a sua significação.

Do ponto de vista cristão, história é o diálogo da graça divina e da liberdade humana, o processo ao longo do qual à vontade e o amor de Deus se manifestam não só na criação do mundo e do homem, mas na sua redenção, na encarnação do Verbo divino, na vida, morte e ressurreição de Cristo e sua vinda, revelada e visível. Portanto, a história visível, concreta, revela o plano divino, os desígnios da santa providência – história e meta-história.

A História como Disciplina Teológica

A História como disciplina auxiliar da Teologia, tem sido amplamente inserida nos currículos das Faculdades e Seminários evangélicos em função de sua relevância à compreensão das ciências bíblicas. Essa realidade e metodologia não são estranhas ao contexto acadêmico, muito menos à História de Israel no Antigo Testamento deve ser considerada uma pseudociência por ser tratada fora de seu macro conjunto. Assim como se estuda a História do Direito, da Educação e da Filosofia, sem a pretensão de afirmar que essas abordagens sejam contrárias à História Universal, a História de Israel ou Bíblica é uma contribuição às Ciências do espírito ou ciências histórico-sociais (Geisteswissenschaften). Assim também estudamos:

a) História de Israel no Antigo Testamento;
b) História da Igreja;
c) História das Missões;
d) História da Teologia.

Portanto, ao estudarmos a história de Israel e os costumes religiosos judaicos, reconhecemos que o desenvolvimento de cada sociedade é único, singular, cujas alterações são próprias da ação dos próprios indivíduos, sujeitos e agentes da história, excetuando-se, logicamente, a meta-história. Mesmo que alguns autores neguem a existência de “uma força superior”, externa aos homens, que dirija a história, cremos na providência divina na história de seu povo.

Concepções da História

1. Concepção positivista: Considera a história como uma sucessão de fatos ordenados, de acontecimentos retilíneos, em direção a maturidade da humanidade, ao seu ápice, ao seu progresso, que será atingido quando a humanidade alcançar o estado perfeito ou absoluto. Este estado segundo Chauí é "caracterizado pela renúncia do conhecimento absoluto, das causas últimas, passando então a dirigir as forças intelectuais para a compreensão das leis e das relações que se podem constatar entre os fenômenos por meio da observação e dos instrumentos teóricos." [7]

2. Concepção marxista: Rompeu com a concepção anterior e colocou o centro da história no homem e o cerne da ciência na história.[8] Para Marx e Engels todo homem precisa estar em condições de viver e poder “fazer história”. Para eles o primeiro ato histórico é engendrar os meios para a satisfação das necessidades humanas, como beber, alimentar-se, vestir e morar.[9] Para esses dois pensadores a história é intrinsecamente sociológica, determinada por fatores econômicos. [10]Uma vez que essas necessidades sejam satisfeitas, entra a terceira circunstância, a reprodução humana.

3. Concepção dos Annales. Esta concepção pode ser entendida nas palavras de Lucien Febvre, um de seus mais insignes representantes, que afirmou: "Para fazer história, virem resolutamente as costas ao passado e antes de mais vivam. Envolvam-se na vida."[11] Deve-se a essa concepção o “reconhecimento da ligação indissolúvel e necessária entre passado e presente no conhecimento histórico, reafirmando-se as responsabilidades sociais do historiador”.[12]

4. Concepção da História Nova. De certa forma segue a linha traçada dos Annales. No entanto, segundo Lopes, repousa sua novidade em três processos: novos problemas – põe causa a própria história; novas contribuições – enriquecem, transformam os setores tradicionais da história; novos objetos – aparecem no campo epistemológico da história.[13]

5. Concepção cristã. Esta concepção já ficou demonstrada ao longo do artigo, entretanto, merece um tratamento exclusivo. Infelizmente, já ultrapassamos o limite de caracteres, ideal para uma boa leitura na internet. A abordagem cristã contemporânea da história sempre esteve em busca do enlace e do divórcio. Haja vista as concepções de Oscar Culmann, Jürgen Moltmann, Paul Tilich entre outros. Atualmente, a Teologia Aberta trouxe novos confrontos ao entendimento da ação de Deus na história. Numa outra ocasião trataremos especificamente da abordagem cristã da história, trazendo, se possível for, uma nova perspectiva teologal do dispensacionalismo.


[1] BORGES, Vavy Pacheco. O que é história. São Paulo: Brasiliense, 1993, p. 48.
[2]REIS, José Carlos. Wilhelm Dilthey e a autonomia das ciências histórico-sociais. Biblioteca Universitária. Londrina: Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2003, p.1.
[3] Id.Ibid, p.2.
[4] Id.Ibid., p.11.
[5] Op.cit. p.50.
[6] E. Imaz, na obra El pensamiento de Dilthey: evolution y sistema, atribui a data de 1879 para o surgimento do emprego do termo historicismo, exclusivamente relacionado ao historicismo filosófico de Vico.
[7] CHAUÍ, Marilena (et al.). Primeira filosofia: lições introdutórias. 3.ed., São Paulo: Brasiliense, 1985, p.113.
[8] LOPES, Eliane Marta T. Perspectivas históricas da educação. 2.ed., São Paulo: Ática, 1989,p. 24.
[9] MARX. K.; ENGELS. F. A ideologia alemã. In: FERNANDES, F. (org.) Marx, Engels: História. São Paulo: Ática, 1983, p. 194 e 31.
[10] Id.Ibid.
[11] FEBVRE, Lucien. Combates pela história. Lisboa.Presença, 1977. v.I, p.56.
[12] LOPES, Op.cit., p;27
[13] Id.Ibidem.

2 comentários:

Jonathan Alves F. de Sousa disse...

Olá professor. Graça e paz.
Se me permite uma pergunta, o que é a meta-história?

Marcelo Pires disse...

A Paz do SENHOR querido irmão1
Parabéns pelo elevadíssimo nível do seu Blog!!!

Sou aluno de história pela UNOPAR;
O que o irmão acha dessa nova "história"...pois tenho observado como se procuram tudo por em crítica...a chamada história tradicional é posta em xeque...
Será que tudo que a história tradicional ensinou está errado?
Quais seriam os riscos para nós os cristãos?

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



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