DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Igreja: Identidade e Símbolos

Cúpula da Igreja de Pammakaristos

O termo grego ekklēsia procede da justaposição da preposição ek (fora de) com o verbo καλέω (chamar). Na antiga Hélade, referia-se à reunião ou assembléia da polis ateniense, convocada pelo arauto (κηρυξ). A ekklēsia reunida na ágora representava o zênite da democracia da cidade-Estado. A função da assembléia era política, judicial, cultural, estrategista e social, e não necessariamente religiosa, como aparece até mesmo nos livros apócrifos de Judite, Macabeus e Eclesiástico.

Todavia, o sentido religioso encontrado nas epístolas neotestamentárias deve-se à evolução diacrônica do sintagma a partir da tradução das Escrituras hebréias para o grego comum da Septuaginta. Ekklēsia fora empregada inúmeras vezes para traduzir os vocábulos hebraicos ēdâh e qāhāl, cujo sentido é “congregação”, ou “assembléia” em diversas passagens veterotestamentárias. Pelo fato de essas palavras designarem, juntamente com o substantivo ‘ām, o “povo”, a “congregação”, ou a “assembléia” reunida na presença de Yahweh, ekklēsia desloca-se do sentido secular grego para assumir entre os judeus da diáspora significado sacro, com o qual os piedosos judeus-helenistas passaram a designar o povo da aliança e a assembléia santa de Yahweh (Judite 6.14-12; 1 Macabeus 3.13). Apesar de haver uma estreita relação semântica entre ekklēsia e synagogē, o primeiro vocábulo se impôs como terminus technicus não somente nas páginas do Novo Testamento, mas também após o fechamento do cânon das Escrituras Sagradas.

De modo geral, os hagiógrafos neotestamentários empregaram ekklēsia para designar tanto a “comunidade dos redimidos”, ou igreja universal, como a “comunidade das origens”, ou igrejas locais. A primeira, designada como “igreja mística”, é católica, una e Corpo de Cristo, formada por todos os salvos. A segunda, intitulada “igreja local”, é antropológica, histórica e cultural, composta inicialmente por judeus palestinenses e judeus helenistas e, mais tarde, pela ekklēsiai tōn ethnōn, igreja dos gentios ou das nações. Ela é mística, universal e também antropológica e local.

Enquanto a igreja primitiva estava ligada aos cristãos judeus em Jerusalém, freqüentava o Templo e as sinagogas para o culto, orações e homilias. A parênese de Tiago, escrita possivelmente na década de 40 d.C., e, portanto, um escrito pré-paulino, é um dos mais antigos testemunhos da “Igreja da Circuncisão”.

Nesse escrito, o termo synagogē em 2.2 é usado numa ocasião em que a ekklēsia cristã palestinense ainda não havia se afastado definitivamente dos costumes e da adoração sinagogal e templária. Razão pela qual em 1.1 e 5.14, a ekklēsia é identificada com as “doze tribos da dispersão”, expressão que designa a igreja como o novo povo de Deus.

Embora nos Atos dos Apóstolos o vocábulo seja usado com diversos matizes, prevalece o sentido de “comunidade redimida” e “comunidade local”. No corpus paulinum, ekklēsia aparece como “igreja universal e mística”, e “igreja local e domésticas”. As igrejas locais e domésticas são comunidades de crentes compostas por diversas etnias que viviam espalhadas no contexto citadino da Ásia Menor. A relação entre a igreja doméstica e sua liderança carismática era tão íntima, que provocou entre os biblicistas uma controvérsia a respeito da identidade da eklektē kyria na 2 Epístola de João. Na verdade, o estenógrafo dirige-se tanto a senhora eleita quanto à comunidade a qual, possivelmente, ela lidera. Em todo epistolário paulino, as igrejas locais, domésticas e citadinas são identificadas como pertencentes à comunidade universal dos remidos, cujos símbolos são: Corpo de Cristo, Templo de Deus, Noiva de Cristo, Família de Deus, Coluna e Baluarte da Verdade, Casa de Deus, Virgem Pura. Esses símbolos descrevem a unidade da igreja em toda sua diversidade. Todavia, escrevendo à igreja da Síria, a fim de ratificar a separação daquela comunidade com a sinagoga, Mateus apresenta o Senhor Jesus como o oikodespotēs, ou Edificador da Igreja. A figura e apostolado de Pedro, o “homem-confessante” ou “homem-rocha”, é secundário diante daquele que edifica e sustenta a Igreja universal no logion 16.18, ou daquele que instrui a igreja local em 18.17.

Mesmo que modernamente o vocábulo ekklēsia seja empregado para designar as denominações, a identidade histórico-doutrinária de uma comunidade cristã, o templo, e até mesmo algumas organizações heréticas, permanece o sentido bíblico, teológico e insofismável de que a Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo, instituída no dia de Pentecostes pelo derramamento do Espírito Santo, é a comunidade universal, corpo glorioso e místico de Cristo composta por homens e mulheres regenerados de todas as raças e línguas que corresponderam positivamente à pregação do Evangelho, e confessam e servem a Cristo como único suficiente Senhor e Salvador.
(Síntese de nossa mais nova obra "Igreja: Identidade e símbolo". Lançamento ainda nesse semestre pela CPAD).

14 comentários:

Pastor César Moisés disse...

Caro amigo Esdras Bentho,

Saúdo com alegria esse tipo de obra. Tal título demonstrará que temos teólogos pentecostais, no âmbito nacional, que sabem dissertar com propriedade acerca de temas imprescindíveis ao cristianismo.

Ela será uma amostra de que um novo tempo está chegando, novos rumos para a nossa literatura teológica pentecostal.

Parabéns

Pr. Carlos Roberto disse...

Caro Pr. Esdras Costa Bentho,

A paz do Senhor1

Quero parabenizá-lo antecipadamente pelo lançamento dessa obra.
Será muito bem vinda, principalmente àqueles que desejam aprimorar seus conhecimentos na interpretação do texto sagrado.

Foi um privilégio revê-lo pessoalmente no último dia 26 em Campinas - SP.

Um grande abraço1
Pr. Carlos Roberto

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Prezado Pastor César, muito obrigado pelo apreço. O propósito FORA do objetivo dessa obra, é aproximar a teologia pentecostal com a erudição bíblica protestante, tendo como background o método histórico-crítico e suas contribuições positivas à hermenêutica e exegese cristãs.
A obra está permeada de termos usados nessa ciência, muito embora, numa visão ortodoxa.

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Prezado Pastor Carlos Roberto, igualmente, foi um privilégio vê-lo na ocasião. Agradeço pelas palavras de incentivo e apreço. Espero que a referida obra, seja útil; principalmente aos professores e seminaristas, público-alvo da obra. O livro difere muito das publicações recentes da CPAD, mas espero que os ledores aprovem o opúculo.

Um abraço
Esdras Bentho

Daladier Lima disse...

Prezado Pr. Esdras,

Aproveitando o post, gostaria de perguntar. Na passagem de Atos 7.38: Este é o que esteve entre a congregação no deserto... vemos um arquétipo da igreja? Ou deve ser entendida restrita a seu contexto remoto?

Abraços e parabéns pelo excelente post!

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Prezado Daladier, em Atos, por três vezes o vocábulo ekklesia é traduzido com sentido secular, referindo-se à "assembléia" oficial e jurídica que estava em Éfeso (19. 32, 39, 40); apenas uma vez denota à "congregação" dos israelitas no deserto (7.38; Nm 14.3,4), e, dezenove vezes, à comunidade dos remidos (5.11; 7.38; 8.1,3; 9.31; 11.22, 26, etc.). Nas ocasiões em que denota a cristandade, usa-se o singular ekklesia, tanto em Atos quanto nas Epístolas, para indicar a congregação local, seja em Jerusalém (11.22), seja em Antioquia (13.1). Invariavelmente faz alusão às várias comunidades cristãs citadinas.

A relação semântica não autoriza tal conclusão, pelo que devemos considerar o contexto remoto. Apesar de a igreja primitiva considerar-se o novo povo de Israel, a correspondência léxica entre o termo hebraico e grego não limita-se à congregação de Israel no deserto.

Esdras Bentho

Esdras Costa Bentho disse...

digo "limita-se à congregação de Israel no deserto"!

Marcello de Oliveira disse...

Shalom!

Pr Esdras, li seu precioso artigo. Todavia, neste parágrafo do seu texto, há uma certa ambiguidade, senão vejamos:

"Na verdade, o estenógrafo dirige-se tanto a SENHORA ELEITA (grifo nosso) quanto à comunidade a qual, possivelmente, ela lidera".

Quem é esta SENHORA ELEITA? Uma mulher? Ela lidera a igreja?

Entendo que há uma certa "controvérsia" entre os biblistas, onde eles se dividem em três possibilidades:

1) Que se trata de uma senhora cristã e de seus filhos. Então, a carta teria um cunho estritamente pessoal e o apóstolo almejava ajudar aquela família contra as investidas de falsos mestres. Esta possibilidade é plausível e tem tido defensores hábeis.

2) Que a destinatária se chamava "Kuria" (da palavra Kuri,a, "senhora), ou Eclecta ("eleita") ou ainda "Eclecta Kuria", uma combinação das duas. Essa hipótese é muito improvável, pois não há comprovação na literatura que Eclecta fosse um nome próprio. Mesmo que Kuria fosse um nome próprio, era raro. A combinação de dois nomes tão raros seria incrível.

3)Que se trata de uma referência figurada à igreja e seus membros. Esta última é a mais provável. Jerônimo desde cedo a defendia. Ela tem a seu favor vários argumentos (dentro do próprio capítulo), que citarei a seguir:

No final da carta, João envia saudações dos "filhos da tua irmã eleita" (2 Jo 13)- uma referência a uma igreja local. O teor da carta, especialmente as advertências contra os falsos mestres, são mais apropriadas se dirigidas a uma igreja local e seus membros.

O uso de "eleita" para uma congregação local também se encontra em 1 Pe 5.13. Também, é relativamente comum encontrarmos na Escritura personificações femininas de nações e cidades Cf. "a filha de Sião" - 2Rs 19.21; Sl 9.14; Mt 21.5) e da própria igreja de Cristo, "a noiva do cordeiro" (cf. Ef 5.22-23; 2Co 11.2)

Outro argumento fortíssimo que não é uma "senhora" (mulher) é que João, a partir do versículo 5. dirige-se à "senhora eleita" no plural: "ouvistes" e "andeis" (2Jo 6); "acautelai-vos" (2Jo 8); "não o recebais" (2 Jo 10), o que mostra que ele tinha em mente um público maior, ou seja, a comunidade local de cristãos.

Aguardarei a sua argumentação,

Pr. Marcello de Oliveira

Marcelo de Oliveira e Oliveira disse...

Caro Esdras Bentho,

Paz e Bem!

Esse post elucida o verdadeiro significado do termo Igreja. O erudito F.F.Bruce (um dos maiores especialista do Novo Testamento) declara no seu comentário Bíblico da NVI, que em nenhum momento do período neotestamentário o termo "ekklesia" se refere a uma Instituição fixa, mas à reunião de pessoas (Gente). Portanto, a verdadeira ekklesia é a reunião de pessoas partícipes da Redenção. Parabéns pelo texto que explica, em suas minúcias, o desdobramento do universo temático em análise. A Teologia Pentecostal agradece!

Um abraço

Marcello de Oliveira disse...

Pr Esdras, li seu precioso artigo. Todavia, neste parágrafo do seu texto, há uma certa ambiguidade, senão vejamos:

"Na verdade, o estenógrafo dirige-se tanto a SENHORA ELEITA (grifo nosso) quanto à comunidade a qual, possivelmente, ela lidera".

Quem é esta SENHORA ELEITA? Uma mulher? Ela lidera a igreja?

Entendo que há uma certa "controvérsia" entre os biblistas, onde eles se dividem em três possibilidades:

1) Que se trata de uma senhora cristã e de seus filhos. Então, a carta teria um cunho estritamente pessoal e o apóstolo almejava ajudar aquela família contra as investidas de falsos mestres. Esta possibilidade é plausível e tem tido defensores hábeis.

2) Que a destinatária se chamava "Kuria" (da palavra Kuri,a, "senhora), ou Eclecta ("eleita") ou ainda "Eclecta Kuria", uma combinação das duas. Essa hipótese é muito improvável, pois não há comprovação na literatura que Eclecta fosse um nome próprio. Mesmo que Kuria fosse um nome próprio, era raro.

3)Que se trata de uma referência figurada à igreja e seus membros. Esta última é a mais provável. Jerônimo desde cedo a defendia. Ela tem a seu favor vários argumentos (dentro do próprio texto),que citarei a seguir:

No final da carta, João envia saudações dos "filhos da tua irmã eleita" (2 Jo 13)- uma referência a uma igreja local. O uso de "eleita" para uma congregação local também se encontra em 1 Pe 5.13. Também, é relativamente comum encontrarmos na Escritura personificações femininas de nações e cidades (cf. "a filha de Sião" - 2Rs 19.21; Sl 9.14; Mt 21.5) e da própria igreja de Cristo, "a noiva do cordeiro" (cf. Ef 5.22-23; 2Co 11.2)

Outro argumento fortíssimo que não é uma "senhora" (mulher) é que João, a partir do versículo 5. dirige-se à "senhora eleita" no plural: "ouvistes" e "andeis" (2Jo 6); "acautelai-vos" (2Jo 8); "não o recebais" (2 Jo 10), o que mostra que ele tinha em mente um público maior, ou seja, a comunidade local de cristãos.

Aguardarei a sua argumentação,

Pr. Marcello de Oliveira

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Prezado Marcelo de Oliveira e Oliveira, obrigado por sua participação no Teologia & Graça. Espero que adquiras a obra quando a mesma for lançada em abril próximo.
Sua conclusão a respeito da natureza e identidade da igreja neotestamentária está correta. Sei que não tenho know-how para discordar do grande erudito FFBruce, mas é impossível pensar na igreja sem imaginá-la como uma instituição. É reducionismo epistemológico pensar na igreja como uma instituição do modo como Bruce se refere, mas quando Cristo afirmou que onde estiver dois ou três reunidos em seu nome ali ele estaria, referia-se a uma instituição tecnicamente considerada. Na psicologia das instituições, uma instituição não é confundida com o local, o templo, mas é identificada a partir de sua constituição social - uma forma social estabelecida através de critérios, valores, etc.

Um abraço
Esdras Bentho

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Prezado amigo e pastor Marcello Oliveira, obrigado por sua intervenção oportuna, erudita e sábia no Teologia & Graça. A explicação a respeito do tema que o amigo aventou, foi desenvolvido por mim na obra a ser publicada em abril próximo. Fiz uma incursão exegética semelhante a do caro irmão, além de procurar discutir as questões léxicas e sintáticas do vernáculo joanino. Depois de embevecer-me nos fundamentos teóricos de Cullmann e Juan Mateus, entre outros, concebi uma teoria que vai em direção oposta aos dos comentaristas que apenas se posicionam em um ou outro lado da questão. Todavia, assumi uma outra postura em relação à identidade da expressão eklekte kyria, fundamentado numa exegese que além dos elementos históricos-gramaticais considerou a sociologia das igreja citadinas da Ásia Menor e a constituição das igrejas domésticas à margem do Egeu.
Acredite, foi possível seguir uma rota alternativa. Gostaria de deixar esse pequeno segredo para uma discussão posterior ao lançamento da obra, visto que se trata de uma posição diferente da dos comentaristas clássicos como novos. Uma vez que não se tratava de um assunto doutrinário, mas de considerações exegéticas que não afetavam a ortodoxia, arrisquei-me em dar eu próprio uma concepção que, se não for aceita na academia, deverá ser pelo menos discutida.

Um abraço
Esdras Bentho

Anônimo disse...

Esdras, quando você diz "aproximar a 'teologia pentecostal' com a erudição bíblica protestante, tendo como background 'o método histórico-crítico' e suas 'contribuições' 'positivas' à 'hermenêutica' e 'exegese cristãs'", você tá falando do método "histórico crítico" que produziu diversos "jesuses"? daquele método que procura o "verdadeiro" Jesus embaixo dos escombros das tradições do evangelhos? etc, etc... se este, quais "contribuições" são estas? a do Jesus eticizante? "positivas"? quais? a Bíblia é somente um livro como qualquer outro? "exegese cristã"? e por último, e mais curioso: "teologia pentecostal", qual? espero sua resposta. abraços.

Pr Alessandro Garcia disse...

Graça e paz. Gostaria de saber se este livro pode ser utilizado para lecionar Eclesiologia no curso Bacharel em Teologia.

Pr Alessandro Garcia

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



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