DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Teologia do Pluralismo Religioso de John Hick: uma introdução para pentecostais pensantes





O teólogo inglês John Hick (1922-2012) é considerado um dos mais importantes filósofos da religião e um dos principais defensores da teologia do pluralismo religioso hodierno. Sua reflexão no campo do pluralismo religioso é estudada por teólogos de diversas confissões e também por especialistas em ciências da religião. 

A teoria de J. Hick tem sido contestada por uns e aceita como um novo paradigma teológico por outros. Faustino Teixeira, por exemplo, em sua obra Teologia e Pluralismo Religioso, afirma que o pluralismo religioso é um novo horizonte para a teologia, “um singular e essencial paradigma que provoca uma profunda mudança na dinâmica da autocompreensão teológica no tempo atual”. 

Teixeira reconhece que o tema tem gerado muita controvérsia na América Latina[1] e, por essa razão, uma leitura crítica e dialógica com os escritos de John Hick não é apenas plausível como também necessária[2]. Como dialogar com o pluralismo religioso sem perder a pujança do Anúncio, da singularidade da salvação em Cristo, o mistério de Deus? O que John Hick afirma em sua obra é contrário aos fundamentos da fé cristã? Vejamos.

Contexto e novidade na compreensão das religiões

J. Hick reconhece que sua teoria é como uma demolição da fé ou apostasia na leitura dos teólogos conservadores, mas afirma que não é mais possível sustentar a ortodoxia. Sua análise debruça sobre as tradições pós-axiais e religiões mundiais: cristianismo, islamismo, hinduísmo e budismo. Partindo do particular para o geral, examina a vida real das pessoas situadas nos contextos das tradições cristãs e das outras religiões. Seu argumento é que a teologia situa-se dentro de um horizonte cultural e que o ritmo da mudança cultural também altera o quadro de referência teológica. Assim, as novas condições afetam não apenas o cristianismo como também as demais religiões. 

Segundo a leitura do autor três fatores colaboraram para essa virada de rumo: (a) As informações que o Ocidente recebeu das tradições religiosas mundiais; (b) As viagens dos ocidentais para o Oriente; (c) A imigração dos orientais para o Ocidente. Esses fatores possibilitaram ao Ocidente e à tradição cristã ocidental a constatação de valores, culturas e novas tradições salvífica até então desconhecidas pela maioria dos cristãos, além de “derrubar certa homogeneidade que caracterizava as sociedades do passado”[3]

De acordo com Hick, essa aproximação traz a averiguação de que um adepto de outra religião não é um ser humano melhor ou pior do que o cristão. Parece-me que Hick ao usar um argumentun ad hominem confunde o conteúdo da fé com a experiência da fé, muito embora acredite que tanto o cristianismo quanto as religiões universais produzam pessoas santificadas e por isso a salvação não pode estar restrita a uma religião. 

Todavia, no criativo e ficto diálogo elaborado por Ítalo Calvino em As Cidades Invisíveis, Marco Pólo diz ao grande Kublai Khan: “Você sabe melhor do que ninguém, sábio líder, que jamais se deve confundir uma cidade com o discurso que a descreve. Contudo, existe uma relação entre eles” [4]. Nessa mesma perspectiva afirma Libanio

Jesus é distinto do Cristianismo, mas o Cristianismo é impensável sem a fé em Jesus Cristo e esta só continuou historicamente porque o Cristianismo se tornou realidade social. Assim também as igrejas cristãs são distintas do Cristianismo e de Jesus Cristo. No entanto, existem relações entre essas três realidades[5].
Isto posto, o fato de muitos cristãos não viverem plenamente os ensinos de Cristo e o de adeptos de outras religiões não serem igualmente melhores ou piores que os cristãos não significa que a salvação em Cristo não seja singular, embora o testemunho deveria confirmar a fé salvífica (Ef 2, 8-10). Na verdade, toda e qualquer afirmação de Hick a respeito da ética cristã pode encontrar apoio ou contradizer o argumento dependendo da direção que o leve.

 O problema do pluralismo religioso: a pessoa de Cristo

O problema que Hick e os teólogos pluralistas têm de enfrentar não é o modo como os religiosos vivem a sua doutrina, mas a exclusividade da pessoa de Jesus Cristo. Eles precisam descontruir a fé apostólica como se encontra em o Novo Testamento para ajustar Jesus aos conceitos plurais das religiões. 

Para ele, a pessoa histórica de Jesus de Nazaré tem de ser abandonada por um conceito mais universal do Logos, isto é, o Cristo não-histórico. O Logos seria a fonte universal de todas as religiões mundiais, da qual a figura histórica de Jesus de Nazaré é um empecilho. Com isto Hick afirma que todas as religiões mundiais são todas inspiradas e convertidas em fonte de salvação pela mesma influência transcendente, isto é, do Logos, e, portanto, é preciso abandonar o Jesus histórico e aceitar como novo paradigma o Cristo cósmico ou Logos eterno[6]

Por conseguinte, o Transcendente, Divino, Último ou Real, manifestou-se como Cristo para o Cristão, Dharma para os hinduístas e budistas, Allah para os mulçumanos, e assim por diante. Ideia muito semelhante às heresias primitivas que os primeiros teólogos cristãos tiverem que enfrentar. Por conseguinte, para conciliar as religiões, Hick e seus adeptos abandonam a figura histórica de Jesus de Nazaré e a trocam pela teoria do Cristo cósmico. Essa posição dificilmente seria sustentada pelos primeiros teólogos da igreja nascente e, provavelmente, seria condenada pelos primeiros concílios.


Esdras Bentho é Pedagogo e Mestrando em Teologia pela PUC Rio

[1] TEIXEIRA, F. Teologia e Pluralismo Religioso. São Paulo: Nhanduti Editora, 2012, p. 167,163.
[2] HICK, J. Teologia Cristã e Pluralismo Religioso: arco-íris das religiões. Attar Editorial, 2005.
[3] MIRANDA, M. de F. Verdade cristã e pluralismo religioso. In Atualidade Teológica. Ano VII, no 13, janeiro/abril de 2003, p.32.
[4] CALVINO, Í. As cidades invisíveis. São Paulo: Publifolha, 2003, p.27.
[5] LIBANIO, J.B. Qual o futuro do cristianismo? São Paulo: Paulus, 2006, p.21.
[6] BOFF, L. Evangelho do Cristo Cósmico: a busca da unidade do todo na ciência e na religião. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008, p.162-3.


9 comentários:

Conf.Douglas Nascimento disse...

Graça e Paz,meu amigo.
Ótima postagem,bastante interessante,agora a questão é que nesta tese que John Hick parece que ele quer dizer que todas as religiões,levam ao mesmo lugar,ou seja,independente da religião que a pessoa possuia,ela simplesmente é uma "tradução" diferente,mas que possui como Transcendente o mesmo que as demais religiões cultua.Creio que esta tese é contrária as palavras de Jesus Cristo:"E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste".João 17:3
O Jesus Histórico é o Verbo Encarnado.Abraços!

Izaldil Tavares de Castro disse...

Excelente por ser também acessível, pastor Esdras. Trata-se de uma reflexão que deve nos levar a rever a nossa condição de cristãos evangélicos. Um abraço.

Pr. Anselmo Melo disse...

Que ótimo conhecer mais um espaço onde a palavra de Deus é anunciada. Desejo a você meu irmão um 2013 abençoado. Que Deus continue usando esse espaço para a propagação das boas novas de Cristo
Pr Anselmo Melo
www.pranselmomelo.com.br

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene
Obrigado a todos pela colaboração. Noutra ocasião postarei mais assuntos sobre a tese de Hick.

Abraços
Esdras Bentho

Luiz Felipe Kessler disse...

Jesus é a luz que vinda ao mundo, ilumina TODO o homem, acredito que o cristo eterno, que foi imolado antes da fundação do mundo e se manifestou na história humana, exclusivamente na pessoa de Jesus, não limita suas fronteiras na religião, nem cristã nem qualquer outra. Este Mesmo cristo se manifesta a quem quer e como quer... nisto eu creio pois este é sacerdote para sempre segundo a ordem de melquisedeque!!!

Jonatas Pacheco Ribeiro disse...

Mestre, a paz do Senhor. Grato por suas contribuições. Como o senhor compreende a questão salvífica daqueles que não ouviram a boa nova do Cristo, posto que uma leitura pluralista como a de Hick, com o Cristo Cósmico, nos forneceria uma bom argumento salvífico para qualquer cultura com uma deídade? Em Romanos 2, nos diz que onde não há lei rege a consciência. Acha justo retirar justificativa de salvação gentílica desse texto, sendo que o objetivo primordial era repreensão dos judeus que estavam sendo preconceituosos? Abraços, Jonatas Ribeiro[FAECAD].

Ivo Gomes de Lima disse...

Prof. Esdras- É-me privilégio e satisfação acessar este espaço de bênção e aprendizado. (Que seja glorificado o Nome que está sobre todo o nome.)

Considerando que a formação e espiritualidade do senhor o obrigam a jamais abrir mão do necessário e devido respeito a pessoas (quaisquer que sejam), tanto quanto o constrangem a zelar pelo bem-estar eterno de leitores seus que ainda não conhecem o Evangelho de Cristo ou que são crentes simples como minha pessoa, o senhor não poderia - respeitando a pessoa do filósofo em tela, e em cotejo com IJo 4.3 - nos esclarecer melhor sobre essa idéia de um (suposto) "Cristo Cósmico que exclua o Cristo Histórico"?

Ivo Gomes de Lima disse...

A postagem amavelmente compartilhada pelo Ir. Jônatas Ribeiro desafiou-me a refletir. Atrevo-me a (objetivando receber a orientação corretiva do Prof. Esdras, do Ir. Jônatas e de outros que possam fazê-lo) dizer que "o Senhor conhece os que são Seus", igualmente- tanto os que creram por terem tido o privilégio de ouvir as Boas Novas, quanto os que o Salvador sabe que - se tivessem oportunidade de ouvir - creriam. (Se alguém - que o Senhor nos guarde a todos - sofre o dano da segunda morte, sem ter ouvido o Evangelho, o Justo juiz sabe que o tal, mesmo se ouvisse, não creria). EM TEMPO: pessoalmente, não alcanço na Santa Escritura sustentação para as idéias de uma “graça salvífica" nem de uma “predestinação” irresistíveis.

Joabe disse...

Pastor o senhor não pensa em escrever um livro sobre filosofia e sua importância para a teologia ? Pouco pentecostais gostam dessa matéria. Acho que seria interessante a Casa publicar um livro assim escrito por um pentecostal, de preferência brasileiro.

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



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