DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Bolsonaro e Marco Feliciano: Racismo e Homofobia com base em Gênesis 9.20-29?


Ouvi alguns debates em torno das afirmações de Bolsonaro e a justificativa bíblica que o deputado federal Marco Feliciano apresentou com base na maldição de Noé sobre Canaã. Por esta razão, procurei rápida e urgentemente fazer a presente exegese para esclarecer o sentido real da maldição sobre Canaã. Devido ao cansaço, solicito a compreensão dos leitores do Teologia & Graça para possíveis erros ortográficos.

Após as narrativas que estabelecem a aliança de Deus com Noé e seus filhos, segue-se uma tragédia na família de Noé (9.20-29). Um resumo dos fatos sucedidos facilitará a compreensão da narrativa:

a) Noé se embriagou com o vinho da própria vinha (vs.20,21);

b) Embriagado, apareceu nu dentro de sua própria tenda (v.21);

c) Seu filho Cam e seu neto Canaã viram a nudez de seu pai e dele zombaram (v.22);

d) Sem e Jafé ao tomarem conhecimento do fato, cobrem seu pai Noé, sem contemplar-lhe a nudez (v.23);

e) Noé ao acordar profetiza bênçãos e maldições sobre os seus três filhos baseado nos atos anteriores (vs.24-27).

Tem-se discutido muito acerca do ato de Cam e de seu filho Canaã, algumas das propostas de certos intérpretes vão desde o homossexualismo até a castração.

HICKEY[1], afirma sem apresentar qualquer base exegética que sustente sua afirmação, que o pecado pelo qual Canaã foi amaldiçoado foi o homossexualismo.

Outros intérpretes mencionam Levítico 18 acerca dos atos sexuais praticados na terra de Canaã como uma referência de que os descendentes de Canaã continuaram a prática iniciada por seu pai. Pura fantasia! Relações das quais são narradas em Levítico 18.6-18, não era ato apenas dos cananitas e dos egípcios (descendentes de Cam – o Egito era descendente de Mizraim e não de Canaã) quase todas as civilizações do Oriente Próximo praticavam essas aberrações. A expressão “descobrir a nudez” (eufemismo para relações sexuais incestuosas -Lv 18), não deve ser confundida com “ver a nudez” (Gn 9.22), mesmo que, o texto de Gn 9.21, segundo Ellicott, traduz-se por (Noé) “despiu-se a si mesmo”. KEVAN, E.F., Op. cit., p.93, traduz o texto em sentido passivo por “descobriu-se” (a ação é praticada por Noé). A referência remota está no contexto de Deuteronômio 27.16 e não Levítico 18.6-18.

O termo nudez é usado nesse texto basicamente com o sentido de “estar exposto” e o verbo “ver” deve ser tomado em seu sentido próprio. Assim, a expressão “vendo a nudez do pai”, deve ser entendida em seu sentido óbvio e original, sem qualquer indicação de que existe uma mensagem oculta nas entrelinhas do texto. Cam encontrou seu pai desnudo na tenda, achou graça do episódio, e ridicularizou o pai na presença de seus irmãos.

O hebraico possui pelo menos três termos para nudez, procedente do verbo ‘ûr (estar exposta à vista das pessoas; ser desnudado): ‘erôm (adjetivo, nu; substantivo, nudez); ‘ârôm (nu) e ma‘adrom (nu), qualquer um desses termos significam a mesma coisa, exceto quando o uso é figurado para descrever a opressão (Jó 24.7, 10; Is 58.7), ou mesmo a pobreza ou falta de recursos como em Jó 1.21. Um outro sentido é descrever a nudez tanto espiritual quanto física (Gn 3.7, 10,11), e até mesmo de que o sheol está desnudo diante de Deus (Jó 26.6; Sl 139.7), mas jamais o vocábulo é usado como eufemismo para o ato homossexual. [2] O sentido primário é a condição de estar exposto, estar desnudo à vista das pessoas. Uma questão especial é o caso primevo de que Adão e sua esposa estavam nus diante de Deus na condição tanto física quanto espiritual. No sentido espiritual estavam conscientes de sua culpa e incapaz de escondê-la do Criador.

A posição exegética de que o pecado de Cam e Canaã tenha sido contemplar de modo desrespeitoso[3] a nudez do pai, encontra sua confirmação no versículo 25 que atesta que Sem e Jafé, para não recair no mesmo erro: “tomaram uma capa, puseram-na sobre os próprios ombros de ambos e, andando de costas, rostos desviados, cobriram a nudez do pai, sem que a vissem”. O contexto de Deuteronômio 27.16 reforça simetricamente o conceito expendido: “ Maldito quem desonrar o seu pai ou a sua mãe”. Segundo Champlin:

Na antiga sociedade hebraica, ver a nudez de pai ou mãe era considerado uma calamidade social muito séria, e um filho ou filha ver tal nudez propositadamente era um lapso sério da moralidade filial. Portanto, Cão errou gravemente, de acordo com os padrões de sua época. E não somente errou pessoalmente, mas também correu até seus irmãos, fazendo do incidente um motivo de riso.[4]

Ao contrário de Cam e Canaã, Sem e Jafé evitaram cuidadosamente de incidir no mesmo equívoco de seu irmão e sobrinho (v.23). Ao despertar do sono e recuperar-se da embriaguez, Noé toma conhecimento dos atos de seus filhos, e seguindo a tradição do seu tempo pronuncia maldições e bênçãos segundo o agir de cada um deles.

a) A maldição sobre Canaã

Acredita-se que para que a maldição recaísse sobre Canaã, ele tenha participado de alguma forma do desrespeitoso ato de seu pai Cam. Das 63 ocorrências do termo ārar (maldição)[5] no Antigo Testamento, o verbo ocorre por 12 vezes como antônimo do verbo abençoar (bārak), e um desses casos é o versículo 25 do texto em apreço 12.[6] Seguindo os conceitos anteriores (Gn 3.14, 17; 4.11), o sentido primário é de que Canaã e sua descendência estariam banidos, cercados de obstáculos e sem forças para resistirem seus inimigos tornando-se escravos dos escravos (ebed ‘abādîm). Devemos notar, contudo, que embora Cam tivesse outros filhos além de Canaã (Cuxe, Mizraim e Pute – Gn 10.6), a maldição foi especificamente para Canaã e seus descendentes, isto é, os cananeus da Palestina, e não Cuxe e Pute, que provavelmente se tornaram os ancestrais dos etíopes e dos povos negros da África.[7] O cumprimento dessa maldição fez-se à época da vitória de Josué (1400 a.C.) e também na conquista da Fenícia e dos demais povos cananeus pelos persas.[8] Por fim, não se trata de uma maldição dirigida aos negros africanos como costuma dizer certos intérpretes. Os cananitas foram totalmente extintos segundo a posição de vários biblistas e historiadores.

b) A bênção sobre Sem

Particular atenção deve ser considerada aos textos que tratam da bênção sobre Sem e seu irmão Jafé. O primeiro deles é que para Sem o nome divino usado é YaHWeH El[9] enquanto para Jafé é Elohîm [10]. Os dois nomes são significativos dentro do contexto da promessa messiânica a Sem. O texto não diz “Bendito seja Sem”, mas “Bendito seja YaHWeH El de Sem”, isto é, “YaHWeH será tanto o Deus quanto a bênção de Sem”. Canaã por sua vez não seria submisso apenas ao Deus de Sem, mas ao próprio irmão. Aos descendentes de Sem seriam confiados a Aliança e o conhecimento do Senhor e através dela sairia o Messias.

c) A bênção sobre Jafé

A bênção do Senhor sobre Jafé está subordinada a de Sem: “habite ele nas tendas de Sem”, o que equivale a dizer que Jafé e Sem teriam relações diplomáticas amigáveis.[11] Entretanto, ’Elohîm engrandeceria a Jafé de tal forma que Canaã lhe seria servo (v.27). Além de Canaã receber a sua sentença imprecatória, esta foi reforçada em cada bênção pronunciada a seus irmãos. Os cananitas seriam escravos tanto dos semitas (linhagem judaica) quanto dos jafetitas (povos indo-europeus).

Notas

[1] HICKEY, Marilyn. Quebre a Cadeia da Maldição Hereditária, Rio de Janeiro: ADHONEP, 1988, p. 31,32.

[2] Ver HARRIS, R. L. (et al.) Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1096-7.

[3] RYRIE, op.cit., 1991, p. 18 traduz o texto “Cam…vendo a nudez”, literalmente por “contemplou com satisfação”.

[4] Cf. CHAMPLIN, R.N. O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vl.1. São Paulo: Candeia, 2000, p.82.

[5] O hebraico possui vários termos equivalentes ao termo “maldição” na língua portuguesa: ārar (amaldiçoar); me ārâ (maldição); qelālâ (maldição); qālal (amaldiçoados); nāqab (maldição).

[6] Ver, HARRIS, R. L. (et al.), op.cit., p. 126.

[7] Cf. ARCHER, Gleason, 1997, op.cit., p.93.

[8] É provável que os Persas fossem descendentes de Jafé, mediante Madai. Veja ARCHER, Gleason, 1997, op.cit., p.93.

[9] Senhor que é Deus ou o Senhor Deus Forte.

[10] Deus ou deuses.

[11] Veja ARCHER, Gleason, 1997, op.cit., p.93, onde o autor trata de minúcias históricas relativas ao cumprimento dessa promessa. Ver também CHAMPLIN, R.N., op.cit., 2000, p.83.

terça-feira, 29 de março de 2011

Comblin: Bastão de Deus que fustiga os acomodados

Prezados e Dignos Leitores do Teologia & Graça, o padre belga José Comblin faleceu recentemente em Salvador. Desejava fazer um artigo para falar da vida, obra e militância desse polêmico teólogo da Teologia da Libertação, mas estou sem tempo para elaborar um texto crítico. Tenho algumas obras do autor, admirava muito a sua militância entre os pobres e sua argúcia para tratar temas teológicos atuais em uma linguagem lúcida e secular, com muitas pitadas proféticas e mesclas de espiritualidade. Apesar de admirá-lo, não concordava com todos os seus textos, entretanto, o mais importante era o desafio de sua verve e de suas ideias iconoclastas. Segue abaixo um texto do filósofo José Lisboa Moreira.

"Estou acompanhando o que se anda dizendo nos últimos dias sobre o nosso irmão teólogo José Comblin. Houve quem tentou até se compadecer dele dizendo que já passou dos oitenta e chegou a insinuar que ele está meio "gagá”. E por está gagá, coitadinho, passou a dizer umas coisas fora de lugar, fazendo umas afirmações pessimistas, vendo o horizonte escuro, tendo uns ataques de "alucinação”, enxergando coisas que não existem, falando mal da hierarquia da Igreja e assim por diante.

Todas essas coisas me fizeram imediatamente pensar nos profetas de todos os tempos. Também eles, quando começaram a falar sem meios-termos, a "dar nomes aos bois”, a colocar o dedo em certas feridas, foram logo acusados de serem visionários, lunáticos, inimigos da religião e do rei. Amós, por exemplo, foi acusado por Amasias, sacerdote de Betel e "capanga” de Jeroboão, de ser um visionário. Por essa razão foi impedido de profetizar no santuário do rei (Am 7,10-17). Jeremias foi surrado e preso (Jr 20,1-6). Antes deles, Elias teve que se refugiar no deserto para não ser assassinado por Jezabel (1Rs 19,1-8). Geralmente todos os profetas são perseguidos e ridicularizados por que falam a verdade e não camuflam a realidade. Creio que o paradigma de todos os profetas é Miquéias, odiado porque nunca profetizava coisas boas, mas só desgraças (1Rs 22,8). Ou seja, não era bajulador e conivente com os poderosos, mas falava apenas o que Javé mandava falar (1Rs 22,14). Era fiel somente a Deus.

Também Jesus, o profeta por excelência, não escapou da fúria dos poderosos. Falou o que pensava, do que estava convencido, atacando tanto o sistema religioso como o poder político. Por essa razão chegaram a pensar que ele estava louco (Mc 3,21). Terminou os seus dias crucificado como um malfeitor. Tinha feito tremer a ordem estabelecida e ameaçado a posição dos privilegiados, desmascarando suas hipocrisias e suas falsidades (Mt 23,1-36).

Não. Comblin não está gagá, não está louco, não está tomado de pessimismo e nem tão pouco de derrotismo. Comblin é um dos poucos profetas que ainda temos na Igreja dos nossos dias. Infelizmente em tempos de exílio eclesial, como o que estamos vivendo atualmente, é rara a figura do profeta. "Nesse nosso tempo, não há chefe, profeta ou dirigente” (Dn 3,38). Quando a corrupção atravessa os limiares da religião, e permanece entranhada dentro dela, são poucas as pessoas dotadas de clareza e de lucidez (1Sm 3,1). Todos querem fazer carreira e preferem silenciar, mesmo sabendo interiormente que o que acontece não condiz com o projeto de Deus. Como verdadeiro profeta, Comblin não se deixa enganar e não se ilude com o que vê. Enxerga longe, além das aparências e dá o seu prognóstico, mesmo que tal prognóstico, como no caso de Miquéias, apareça cruel, sem piedade e sem esperança. Mas é assim mesmo e assim deve ser, pois se trata de profeta e de profecia.

O profeta é o bastão de Deus que fustiga os acomodados. E onde há profetas verdadeiros e autênticas profecias há incômodo e mal-estar para muita gente. Dom Tonino Bello, bispo de uma minúscula diocese do sul da Itália, falecido ainda jovem, vítima de um câncer, gostava de afirmar que o autêntico cristão deve consolar os aflitos e afligir os consolados e acomodados. De fato, ele incomodou bastante seus colegas bispos italianos. Sua simplicidade e pobreza, sua determinação em defender os pobres, especialmente os imigrantes africanos, o colocou em rota de colisão com as eminências e excelências. Teve inclusive que dar explicações à cúpula da Igreja acerca da sua atitude audaciosa de acolher no palácio episcopal alguns imigrantes africanos. Mandaram-lhe como visitador um bispo de uma diocese da Sicília, o qual, logo depois de sua visita a Dom Tonino, ficou conhecido no país por suas ligações com a máfia, sendo inclusive processado pela justiça italiana. Não foi preso porque a diplomacia vaticana entrou em ação e não permitiu que isso acontecesse.

Comblin é um autêntico teólogo e como tal não se contenta em ficar repetindo o que os outros já disseram. Não é teólogo-papagaio e nem faz teologia de coorte, apenas repetindo frases do Catecismo ou de documentos da Igreja para agradar a cúpula eclesiástica, receber elogios ou até compensações, como, por exemplo, uma roupa roxa ou avermelhada. Comblin faz teologia de verdade, ousando dizer o que ninguém diz, propondo alternativas para o que aí está, apontando caminhos que podem ser trilhados. Como teólogo-profeta mostra que certos modelos atuais de Igreja estão carcomidos pelo tempo e por vícios seculares e não dizem mais nada para a humanidade que sonha com outro mundo possível e com uma comunidade eclesial que, de fato, seja sinal desse novo mundo.

Com sua ousadia e determinação profética, Comblin não tem medo de afirmar que a Igreja precisa perscrutar os "sinais dos tempos”. Não pode viver acomodada, acreditando que o atual modelo eclesiástico é o melhor de todos os tempos. Creio que Comblin está sendo ridicularizado porque do alto de sua sabedoria anciã tem a coragem de falar palavras proféticas como essas: "A experiência mostra que a hierarquia errou muitas vezes na condução da Igreja em circunstâncias determinadas. O Espírito mostra o caminho por outros meios. A hierarquia deve estar atenta aos sinais dos tempos que alguns cristãos têm o dom de entender. Deve escutar se não quer errar e provocar desastres” (A profecia na Igreja, São Paulo: Paulus, 2008, p. 11). Alguns membros da hierarquia não suportam tanta sinceridade e honestidade. Estendendo o dogma da infalibilidade papal para todos os casos e para todos os hierarcas, sem exceção, não admitem que alguém diga que alguns deles, em algum momento, erraram e continuarão a errar se não souberem escutar. Atribuem a si mesmos uma prerrogativa divina, ocupando na Igreja e na terra um lugar que pertence exclusivamente a Deus.

Não temos como negar. É visível a mudança de rota na Igreja Católica Romana a partir do final da década de 1970. Aos poucos as propostas e intuições do Concílio Vaticano II são postas de lado ou reinterpretadas a partir de uma eclesiologia jurídica, segundo a qual o direito canônico está acima do Evangelho. Enquanto se perde tempo com a discussão de temas banais, questões sérias não são enfrentadas. Basta lembrar, por exemplo, o caso da centralidade da celebração eucarística. Institui-se um ano eucarístico, afirma-se que a Eucaristia é o centro e o cume da vida cristã, e, no entanto, não se resolve o problema gravíssimo das milhares e milhares de comunidades católicas que ficam meses e até anos sem a celebração eucarística dominical.

Qualquer pessoa honesta, que conheça bem a situação da Igreja no momento atual, não poderá negar que ela está sendo dominada por grupos e movimentos ultraconservadores. Tais grupos e movimentos estão trazendo de volta a Igreja da Contra-Reforma, fechando cada vez mais os espaços de participação do povo de Deus, impondo uma moral rigorista e "tirando do baú” costumes e tradições arcaicas, "mofadas” e ridículas. Os pobres são cada vez mais esquecidos e é notória a adesão desse modelo de Igreja a sistemas políticos de direita. Com isso a Igreja Católica Romana vai se distanciando da realidade do povo e se tornando cada vez mais um sinal opaco e sem sentido do Reino de Deus. Por essa razão é cada vez mais visível o afastamento das comunidades eclesiais de pessoas com um pouco de bom senso e com consciência crítica. A Igreja Católica vai se transformando, no dizer de Cappelli, numa comunidade "infantil, feminil e senil”. Uma Igreja só de crianças e de mulheres idosas. Alguns até se empolgam porque, de vez em quando, aparecem jovens distraídos em alguns espaços religiosos. Mas não deveriam se iludir. A participação de jovens nas comunidades católicas não ultrapassa a percentagem de 1% do total de jovens da nossa sociedade.

Dizia pouco antes, citando o profeta Daniel, que na atualidade não temos mais nem chefe e nem profeta. De fato, as lideranças cristãs transformaram o serviço de coordenação e de presidência das comunidades em puro carreirismo. Por isso adotam uma atitude de subserviência, não se importando com os reais problemas de suas comunidades. Os próprios bispos não mais cultivam a solicitude por todas as Igrejas, elemento fundamental do ministério episcopal e do colégio episcopal. Assim sendo, não falam com as instâncias vaticanas com a autoridade de bispos das Igrejas locais e da Igreja Católica, de igual para igual. Agem com timidez e medo, deixando de oferecer à direção da Igreja em Roma seus pareceres sobre questões e problemas eclesiais inadiáveis. Sem falar em todo o problema da onipotência da burocracia eclesiástica que, como nota o próprio Comblin, não se move e não faz nada para uma maior descentralização (cf. Quais os desafios dos temas teológicos atuais? São Paulo: Paulus, 2005, pp. 60-64).

Por que, então, tanto escândalo e tanto alvoroço com aquilo que Comblin falou ultimamente? Será que perdemos a capacidade de enxergar? Por que insistimos num comportamento de avestruz, recusando-nos a ver o que é tão visível? Por que duvidar da possibilidade de "politicagem e de conchavos” dentro da Igreja Católica? Por acaso não conhecemos a sua história para saber que ela sempre esteve cheia desses casos? Será que esquecemos que os escritores dos primeiros séculos do cristianismo a chamavam de "casta meretrix”, de "casta prostituta”? Será que chegamos a um nível tal de arrogância a ponto de achar que o atual sistema eclesiástico é tão perfeito a ponto de não mais precisar de reformas e nem de profetas para pregar a conversão da Igreja?

Comblin é um profeta que possui sensibilidade para perceber o que está acontecendo. E por isso fala sem medo e sem falsas contenções. Ele, enquanto ancião, é um verdadeiro modelo para as novas gerações de cristãos e de cristãs. Como o velho Eleazar (2Mc 6,18-31) prefere a morte, a perseguição e a calúnia do que trair suas próprias convicções. Não aceita fingir para escapar dos olhares mortíferos dos acomodados e incomodados. Recusa-se a ser tratado com benevolência e a trocar sua fidelidade por vantagens. Assim, "coerente com a sua idade e com o respeito da velhice, coerente com a dignidade dos seus cabelos brancos” (2Mc 6,23), prefere continuar firme em sua profecia. Como Eleazar, ele tem consciência de que o fingimento, em troca de certas vantagens e do "bom nome”, escandalizaria os mais jovens. Assim é para todos nós um exemplo honrado de fidelidade. Uma fidelidade diferente, é claro. Ele não pretende amar a Igreja mais do que os outros, como insinuou alguém. Apenas ama-a de um modo diferente, radical e corajoso. Um modo, aliás, que não se tem visto ultimamente, inclusive entre os anciãos, e do qual tanto precisamos em nossos dias.

José Lisboa Moreira de Oliveira

Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília. Autor de 13 livros e dezenas de artigos sobre o tema da vocação e da animação vocacional. Foi assessor do Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999-2003) e Presidente do Instituto de Pastoral Vocacional (2002-2006). Atualmente é gestor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília, onde também é professor de Antropologia da Religião e Ética. Contato com o autor pelo e-mail: jlisboa56@gmail.com.

Fonte: http://www.adital.com.br/?n=bxzd

Confira reportagem sobre a morte do teólogo J.Comblin: http://estadao.br.msn.com/ultimas-noticias/artigo.aspx?cp-documentid=28150063

sexta-feira, 25 de março de 2011

A Viagem de Paulo a Roma


Paulo não era prisioneiro de César ou de Roma, mas de Cristo (Ef 3.1; Fm 9). Os fatos que levaram-no a Roma não eram acidentais, mas desígnio divino (At 23.11). Assim como era necessário que o evangelho fosse anunciado em Jerusalém, a capital religiosa dos judeus, era indispensável que as boas-novas de salvação chegassem até Roma, a capital política do Império.

Desde o início de seu relato, Lucas descrevera o avanço do evangelho em Jerusalém (At 6.7), na Palestina (At 12.24), na Ásia Menor (At 16.5), e pela Europa (At 19.20). Nos capítulos finais de Atos dos Apóstolos, apresenta os fatos que cooperaram com a chegada e o progresso do evangelho em Roma. O livro de Atos, por conseguinte, apresenta o progresso do evangelho no mundo greco-romano, apesar das perseguições judaicas e da resistência dos incrédulos.

Atos dos Apóstolos encerra formando um arco do capítulo 9 a 28. Como já sabemos, Paulo era um vaso escolhido pelo Senhor (At 9.15). O Senhor Jesus esclareceu a Paulo, afirma Lucas, os propósitos de sua conversão (9.3-18; 22.6-21; 26.12-18):

a) conhecer a vontade de Deus (At 22.14);

b) tornar-se ministro e testemunha de Jesus para anunciar o evangelho (At 9.15; 22.15,21; 26.16-18); e

c) sofrer a favor de Cristo e do evangelho (At 9.16).

Esses propósitos cumpriram-se perfeitamente na vida e ministério de Paulo. Ele conheceu como nenhum outro a vontade de Deus (Rm 1.10; 2Co 1.1. 2Co 8.5; 1Ts 4.3); foi fiel ministro e testemunha de Jesus aos homens (At 13-28; 1Co 4.1); e sofreu por amor a Jesus e ao santo evangelho (1Co 4.11; 2Co 6.4-5; 11.23-28,32-33).


PAULO EM CESAREIA (AT 23.12 – 26.32)

Nesta seção, Fabris com muita perspicácia observa que Lucas pretende contrastar a hostilidade e ameaça mortal por parte dos judeus com a “cordialidade e ao mesmo tempo a firmeza do representante da autoridade romana” (1991:398). Enquanto os judeus pretendem matá-lo (vv.12, 24 – observe a conspiração nos vv.20-21), as autoridades envolvidas, Félix, Festo e Agripa, juntamente com o comandante e outros oficiais romanos “vigiam Paulo para protegê-lo das insídias dos judeus” (FABRIS, 1991:398). Paulo, portanto, está mais seguro nas mãos dos gentios do que entre os patrícios judeus! Graças ao sobrinho de Paulo, o apóstolo não foi assassinado quando escoltado militarmente da fortaleza Antônia à sede do sinédrio. O propósito de Lucas é mostrar como as circunstâncias desfavoráveis cooperaram com a ida de Paulo a Roma e com o plano do Senhor revelado desde o capítulo 9. Deus está no controle providencial da História!

Para que Paulo se deslocasse de Jerusalém para Cesareia em segurança, uma escolta armada de 470 homens foi dispensada para protegê-lo no trajeto Jerusalém-Antipátrida. Essa escolta era formada por 200 soldados da infantaria com armas pesadas, 70 cavaleiros originários do Oriente Médio, e 200 lanceiros ou arqueiros (FABRIS, 1991:400).

Cesareia era a residência oficial dos reis herodianos e procuradores romanos na Judeia. Possuía palácios suntuosos, um anfiteatro e templos dedicados a César e a cidade de Roma. Habitavam em Cesareia muitos judeus, gregos, romanos entre outros povos. Nesta cidade, Paulo apresentou-se às principais autoridades de então: Félix, Festo e Agripa.

1. Paulo no tribunal de Félix (23.15 – 24.27). Por solicitação do tribuno Cláudio Lísias, Paulo foi enviado ao governador Félix. Devido os perigos que cercava o apóstolo, uma escolta de 470 soldados fora designada para protegê-lo no trajeto entre Jerusalém e Antipátride. Antonio Félix, procurador da Judeia em 52-53 d.C., é descrito na história como um homem cruel, injusto e dissoluto, entretanto, está disposto a ouvir Paulo e os difamadores judeus. Para esse debate, as autoridades judaicas contratam o serviço especializado de um gentio, Tértulo, versado na arte da oratória. O nome latino Tértulo é diminutivo de Tertio, e, segundo Fabris, “se trata de um grego pagão que se põe a serviço de quem melhor paga sua habilidade dialética” (1991:4003). Podemos classificar esses discursos em: a) Requisitório de Tértulo (24.2-8); b) Defesa de Paulo (24.10-21); e Dilação de Félix (24.22).

Os judeus acusam Paulo de:

  • baderneiro (uma figura subversiva e perigosa para a ordem pública);
  • sacrílego (profanador de templos); e
  • chefe da seita dos nazarenos (homem herege e faccioso que promove revoltas religiosas e políticas).

Paulo por sua vez, defende-se das acusações.

  • Primeiro, Paulo não organizou nenhum motim, muito menos qualquer sedição. A viagem a Jerusalém era a de um adorador, peregrino devoto.
  • Segundo, Paulo era um peregrino judeu trazendo esmolas para o seu povo e para cumprir ali os sacrifícios rituais (FABRIS, 1991:4005).
  • Terceiro, Paulo não é um dissidente da religião judaica, mas encontrou em Cristo, o Ressuscitado, o verdadeiro cumprimento e realização histórica e religiosa do seu povo.

Félix entendendo que se tratava de assuntos religiosos aguarda melhores esclarecimentos, entretanto, sua intenção era extorquir a Paulo. O apóstolo evangeliza Félix e Drusila, no entanto, apesar de ser inocente, permanece dois anos presos, pois a intenção de Félix era agradar aos judeus.

2. Paulo no tribunal de Festo (25.1-17). Pórcio Festo sucedeu a Félix no caso dos judeus contra Paulo. Entre os historiadores, Festo é descrito como astucioso, rápido nas decisões, e enérgico. Depois de não ceder aos apelos dos judeus, que desejavam que Paulo fosse julgado em Jerusalém a fim de que o matassem durante o trajeto, Festo ouve a Paulo e os reclamantes judeus. Todavia, a disputa não tem qualquer desfecho, uma vez que Festo quer agradar as autoridades judaicas. Entendendo que nada seria resolvido, Paulo apela para César.

3. Paulo diante do rei Agripa (25.18 – 26.32). Essa é a terceira defesa de Paulo perante as autoridades romanas. Festo apresenta o caso ao rei Marcos Júlio Agripa II, e a Berenice, irmã consanguínea de Agripa e irmã mais velha de Drusila, esposa de Félix. Entretanto, adverte que excetuando as questões religiosas, não há nada pela qual Paulo deva ser condenado, segundo as leis romanas. Todavia, era da vontade do Senhor que Paulo, depois de testemunhar diante de governadores e políticos importantes, agora, anunciasse o evangelho ao rei. O último discurso de Paulo antes de partir em direção a Roma divide-se em: a) Introdução (26.1-3); b) biografia (26.4-7); c) Conversão e vocação aos gentios (26.9-18); d) Missões e perseguições dos judeus (26.19-23); e) Reação de Festo e Agripa (26.24-32). Nesse discurso, Paulo dirige-se especificamente a Agripa, defende-se dos ataques judaicos, testemunha de sua conversão, fé e missão entre os gentios e ainda evangeliza o rei. Tudo conforme a providência divina.

VIAGEM DE PAULO A ROMA (AT 27.1 – 28.10)

1. Rumo à Itália (27.1-44). Havendo apelado para César, Paulo segue, por via marítima, de Cesareia para Roma. Embarca em um navio em direção à Itália sob a tutela do centurião Júlio e de uma escolta militar, juntamente com alguns presos políticos. Além da presença de Lucas, o médico amado, está presente um amigo de Paulo, cristão macedônio, chamado Aristarco (ver 19.29; 20.4; Cl 4.10; Fm 24). Diante de todas as dificuldades enfrentadas pelo apóstolo, Deus concedeu-lhe amigos fieis, como diz Provérbios, “na angústia nasce o irmão” (Pv 17.17; 18.24). Além disto, o centurião também trata o “prisioneiro do Senhor” com humanidade e lhe permite visitar a igreja em Sidom. Assolado pelos fortes vendavais, o navio segue lentamente até chegar a Mirra, na Lícia. Desta cidade, partem em direção a Itália em um navio procedente de Alexandria. Antecipando-se aos perigos que os surpreenderiam na viagem, Paulo adverte-os, mas em vão. O centurião crê mais no timoneiro do que em Paulo. É assim quando se confia mais na capacidade humana do que na orientação que procede do Senhor: o navio sempre naufraga. Contudo, Paulo assegura aos tripulantes que nenhum deles morrerá.

2. Paulo em Malta (At 28.1-10). Na ilha de Malta, ao sul da Sicília, Paulo e os demais foram tratados com extraordinária bondade pelos nativos. Nesse local, três episódios milagrosos acontecem: Paulo permaneceu imune após o ataque de uma víbora; a cura do pai de Públio, magistrado local; e a cura de diversos ilhéus. Nos três eventos, o nome de Jesus foi glorificado e o evangelho anunciado com poder e milagres.

3. Paulo chega a Roma (Mt 28.11-15). Após três meses, Paulo partiu para Roma com todos os suprimentos necessários. Passou por Siracusa, Régio e Putéoli. Nessa cidade italiana, por solicitação dos irmãos locais, hospedou-se por sete dias. Depois se dirigiu à Praça de Ápio e às Três Vendas para encontra-se com alguns irmãos procedentes de Roma. Mais uma vez, o encontro com os irmãos ajudou-lhe a recobrar o animo. Solitário, acorrentado e prisioneiro, Paulo encontrava nas palavras dos irmãos a esperança que nutria sua viagem. Paulo chega a Roma que, na época, tinha mais de um milhão de habitantes.

O EVANGELHO PROPAGA-SE EM ROMA (AT 28.16-31)

1. Prisão domiciliar (28.16). A prisão domiciliar era uma concessão aos detidos não acusados de crimes capitais. A custodia militaris, como era chamada, permitia que o prisioneiro morasse por conta própria numa casa alugada, no entanto, vigiada por um soldado. Para garantir ainda mais a segurança, uma corrente era presa ao pulso direito do prisioneiro e ao braço esquerdo do guarda. Paulo possuía liberdade de movimento para escrever, receber os irmãos, entre outras atividades, muito embora estivesse cativo.

2. Apologia entre os judeus (28.17-22). Estabelecido em sua prisão domiciliar, Paulo convoca os líderes judeus para explicar-lhes os eventos e motivações que o levaram cativo à cidade. Embora os judeus considerassem-no culpado, as autoridades romanas não encontrava qualquer crime para mantê-lo preso. Contudo, apelara ao tribunal do imperador para livrar-se da oposição e julgamento dos judeus. Não era a culpa que o levara a Roma, mas sua inocência.

3. Progresso do evangelho em Roma (28.23-31). Roma era a mais importante cidade cosmopolita daqueles dias e conhecida, principalmente, pela frouxidão moral e relativização dos costumes. As mais variadas crenças, rituais e religiões estrangeiras eram toleradas pelos romanos. Havia pessoas de todas as raças e costumes. Era um centro de cultura literária, econômica, política e religiosa. Terra dos grandes oradores, políticos, guerreiros e juristas. A região ideal para propagar o evangelho às partes mais longínquas do mundo. Lucas conclui o programa missionário de 1.8, “... ser-me-eis testemunhas...até os confins da terra”, ao descrever a estadia de dois anos de Paulo em sua prisão domiciliar “pregando o Reino de Deus e ensinando com toda a liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum”.

O livro de Atos dos Apóstolos termina sem concluir definitivamente a história que se propôs a narrar. Nada é dito a respeito do julgamento de Paulo pelo tribunal romano. Era intenção de Lucas escrever um terceiro volume? Nada pode ser dito com absoluta certeza. Porém, sabemos que é responsabilidade da igreja moderna continuar a obra inacabada de Atos dos Apóstolos.

Afirma Fabris:

Os Atos permanecem um livro aberto e a completar, porque a história da Igreja, como processo de crescimento humano e de libertação do mundo em torno do Senhor ressuscitado, é um canteiro de obras ainda em plena atividade (1991:448).

Notas
FABRIS, Rinaldo. Os Atos dos Apóstolos. São Paulo: Edições Loyola, 1991 - Colação Bíblica Loyola, 3. Tradução de Siro Manoel de Oliveira.

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



Related Posts with Thumbnails