DÁ INSTRUÇÃO AO SÁBIO, E ELE SE FARÁ MAIS SÁBIO AINDA; ENSINA AO JUSTO, E ELE CRESCERÁ EM PRUDÊNCIA. NÃO REPREENDAS O ESCARNECEDOR, PARA QUE TE NÃO ABORREÇA; REPREENDE O SÁBIO, E ELE TE AMARÁ. (Pv 9.8,9)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O Grego do Novo Testamento

Deissmann em sua monumental obra Bibelstudien (Estudos Bíblicos) discorreu pormenorizadamente a respeito da similaridade entre o grego neotestamentário e a língua comum do período alexandrino. Não se tratava do grego clássico e muito menos de um dialeto hermético usado pelo Espírito para comunicar a revelação bíblica, mas tão somente de um dialeto com matiz variada da cultura popular e das variações dialetais helênicas. Ainda assim, alguns gramáticos entendiam que o grego usado para escrever o Novo Testamento deveria ser considerado "um grego bíblico". Porém, as descobertas de fragmentos e manuscritos neotestamentários e seculares provaram mais e mais a relação entre os vocábulos do "grego bíblico" com a linguagem comum da agorá. A linguagem era a hē koinē, usada pelos inúmeros comerciantes em suas permutas na Síria, Galiléia, Egito ou Roma.

A influência da Septuaginta (LXX)
A história da Septuaginta é controversa. De acordo com Josefo, o projeto teve início no século III, quando Demétrio Falero, diretor da biblioteca do príncipe, sugeriu ao rei Ptolomeu Filadelfo que se fizesse a tradução grega das Escrituras Hebraicas. Não muito tempo depois, setenta e dois escribas, seis de cada tribo de Israel, em setenta e dois dias, traduziram as Escrituras Hebraicas na ilha de Faro. Essa história tem sido severamente contestada. Uma outra explicação é que a tradução surge numa comunidade judaica em Alexandria, no século III a.C., sendo concluída no século I a.C.
Embora haja inúmeros fatores ligados ao surgimento da LXX, o que interessa ao estudante do grego bíblico é a "semitização do koinē", por meio da Septuaginta, e a formulação dos idiomatismos teológicos que serão amplamente empregados pelos hagiógrafos do Novo Testamento. Nosso opúsculo não comporta minudências concernentes à comparação filológica e gramatical entre a Septuaginta e o texto hebraico do Antigo Testamento. Muito menos a falta de uniformidade na tradução grega dos livros hebraicos. Embora útil, nessa fase do estudo seria desestimulante. Um exemplo simples, mas significativo, é a influência das construções gramaticais do hebraico no Evangelho de Marcos. Este evangelista emprega repetidamente a conjunção copulativa kai, que se traduz por "e", ou "também". Os estudantes acostumados a ler o Antigo Testamento no original sabem que o hebraico emprega repetidamente o equivalente a kai, principalmente no início das sentenças. Marcos faz o mesmo! Não é sem razão, como veremos adiante, que uma grande parte dos aramaísmos é encontrada neste Evangelho.

Helenização da sintaxe hebraica
Os tradutores da LXX eram judeus zelosos na Lei e familiarizados com o hebraico bíblico. Eles procuraram imprimir os matizes idiomáticos da língua hebréia no texto grego traduzido. O desvelo em comunicar a mensagem sagrada aos seus irmãos helênicos, que já não falavam o hebraico bíblico, fez com que comunicassem o pensamento bíblico-semítico em língua contemporânea –hē koinē. Esta é uma das razões pela qual o koinē dos eruditos hebreus foi amplamente influenciado pela sintaxe hebraica e vice-versa.
Portanto, quando o Novo Testamento grego foi escrito já havia um contexto religioso semítico adaptado à língua grega e formas sintáticas hebraicas condicionadas ao grego helenístico. Este fato foi resultado de um processo de semitização pela qual o Mediterrâneo oriental passou. A expatriação dos judeus e a perda do idioma pátrio (At 2), tornou indispensável uma tradução grega das Escrituras hebraicas. Com essa versão, conceitos religiosos hebraicos assumem, como afirma W. LaSor, "novas dimensões ao serem expressas em termos gregos de sentido mais amplo que as expressões hebraicas" (1986, p.5).

Novos sentidos às palavras helênicas
O pensamento religioso hebraico foi amplificado ao ser traduzido em língua grega, assim como alguns vocábulos, seja do ático seja da koinē, receberam novos significados, ou sentido religioso. Os escritores do Novo Testamento comunicaram-se em vernáculo corrente, mas nem sempre os termos usados expressavam adequadamente o sentido vulgar ou clássico. Correndo o risco de perturbar a clareza e objetividade do que nos propomos tecer, creio ser ainda necessário deslindar as proposições anteriores tendo como exemplo o estudo diacrônico do vocábulo ekklēsía. Este termo, por exemplo, tem um sentido próprio no grego clássico, mas ao ser usado pela Septuaginta para traduzir alguns vocábulos hebraicos, o sentido do ático deslocou-se de seu significado secular para o religioso. Quando os escritores empregam o vocábulo nas páginas do Novo Testamento, o entendimento não está mais relacionado ao contexto homérico, mas veterotestamentário.

Estilos Literários na Koinē
O termo “estilo” procede do latim stilu e originalmente designava um objeto pontiagudo usado para escrever em tábuas enceradas. Por estar afeito ao uso dos escritores, o vocábulo, antes um instrumento para a escrita, passou a designar a maneira como o literato se expressava. Por conseguinte, o estilo é a forma própria com que determinado escritor expõe suas idéias e mensagens. Entre as muitas formas com as quais o rapsodo pode se expressar, ele escolhe determinadas palavras, certas construções estéticas e estilísticas por meio das quais organiza e transmite seus pensamentos, idéias e mensagens. É notório a influência cultural, social, religiosa e histórica no estilo do autor.

Uma vez que o Novo Testamento foi escrito por diferentes hagiógrafos, encontraremos variegados traços estilísticos. Uns lustram com cálamo dourado, outros nem tanto; alguns com pena ática; outros com o grego vulgar tingido de hebraísmos. O gramático La Sor chama essa variedade estilística de "níveis distintos de koinē". Assunto que trataremos em outra oportunidade.

9 comentários:

Marcello de Oliveira disse...

Shalom!

1. Amado Pr "Ezra", mais um belo texto de sua destra pena. Este blog tem sido referência para os biblistas, estudiosos e pesquisadores das Sagradas Escrituras.

2. Por que permancer na praia, se podemos ir ao mar alto? Nossa geração precisa sair da superficialidade e buscar a profundidade.

3. Termino com uma trova de Cleomenes Campos, ilustre literato da língua Portuguesa:

"Um monte pergunta para o vale: Quem de nós dois é o mais alto? O vale admirado respondeu-lhe: Eu só sei lhe dizer quem é o mais profundo".

abraços do companheiro, Pr Marcello

P.s veja meu texto sobre:

Os títulos dos Salmos

Gilson disse...

Amado, Shalom.
Pergunto ao caríssimo: Nas passagens de Mt 17:21 e Mc 9:29 no grego esta exatamente como nas traduções que temos? As bíblias de estudo trazem a informação que todo o versículo de Mt 17:21 não consta na maioria dos textos em grego e no de Mc 9:29 diz que a palavra jejum não consta também na maioria dos escritos. No episodio de Cornélio em At 10:30 porque ocorrem divergências nas versões com relação a palavra "jejum"? Nas versões RA, NTLH não possuem e a RC contem. Sera que não houve uma ajudazinha religiosa nestes textos acrescentando essa palavra nas traduções RC? Creio que o irmão já conheça o assunto e que poderá me responder com segurança. Aguardo com paciência.
Desde já, agradeço.
Graça e Paz.
Gilson.

Danilo Fernandes disse...

Vi o link de seu blog no blog de um amigo. Vim conhecer e gostei. Vou segui-lo a partir de agora. Se tiver oportunidade, visite o meu também.

Graça e Paz

Danilo

http://genizah-virtual.blogspot.com/

André Quirino disse...

Amado pastor e amigo Esdras, a paz do Senhor!

Agradecemos por mais este texto que colabora para nos aprofundarmos no estudo das Sagradas Escrituras.

De acordo com a Teoria da Inspiração Plenária ou Verbal da Bíblia, na qual cremos, ela é a Palavra de Deus, completamente inspirada por Ele. Todavia, seus escritores foram homens comuns que usaram palavras comuns de seus vocabulários. Desta forma, as Sagradas Escrituras foram redigidas, originalmente, em hebraico e grego e alguns trechos em persa, aramaico, etc. Destaco a seguinte frase em seu texto: "Os escritores do Novo Testamento comunicaram-se em vernáculo corrente, mas nem sempre os termos usados expressavam adequadamente o sentido vulgar ou clássico". Da mesma forma, nosso singelo português, às vezes, não pode expressar o que diz a Bíblia Sagrada originalmente, com toda a sua magnitude. Logo, aquilo que lemos e achamos maravilhoso, nem bem sabemos quão maior é o significado real!

O importante é que a Bíblia é a palavra de Deus, Sua revelação escrita. "Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa par ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra" (2 Tm 3.16,17). Aguardo ansioso pela "outra oportunidade" em que o senhor tratará dos "níveis distintos de koinē".

Abraço!

Paulo Mororó disse...

Caro pastor Esdras, a Paz do Senhor.

Gostei do seu bolg. Parabéns! Acredito que Deus está levantando uma geração de obreiros, no Brasil, com capacidade de levar à Igreja para a profundidade e prática da Bíblia. Acredito que o senhor é um dos tais nesta lista seleta. (Ed 7.10). Deus é Fiel!
Um abraço
PAULO MORORÓ

Esdras Costa Bentho disse...

Kharis kai eirene

Prezados amigos, não se entristeçam pela minha demora em responder vossos comentários. Assim que puder eu o farei com todo apreço e cuidado. Estou terminando três relatórios de gestão pedagógica em RH, formação de professores e gestão de escola. Assim quepossível os responderei.

Um abraço
Esdras Bentho

Daladier Lima disse...

É nesse contexto da língua que se fundamenta minha afirmação, incompreendida, de que a cultura influenciou profundamente a Bíblia. Quando afirmei que Paulo era influenciado pelo machismo de sua geração só faltei ser apedrejado.

kleber de sa disse...

kharis kai eirene.pr:Esdras Bentho
fico muito feliz pela sua presensa mais uma vez aqui em camaçari(BA),no congresso da EBD.
apesar de que eu não ser assenbleiano,sou Batista(risos),mais é com muita alegria que,pela terceira vez participo desse congresso da ebd,e também de ver um homem como o senhor Pastor,......padrão de boas obras,no ensino,mostra integridade,reverência.
Que Deus continue lhe abençoando em Graça e conhecimento e sabedoria em o nome de Jesus.Amém.

um abraço
kleber de sa
10/06/09

Felipe M.Nascimento disse...

Paz em Cristo jesus eu gostei muito do teu Blog é mo benção... ((Veja))www.blog-vidaprofetica.blogspot.com deixe um comentaria blz até logo valeuuuuu...

TEOLOGIA & GRAÇA: TEOLOGANDO COM VOCÊ!



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